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A oitava temporada de American Horror Story definitivamente caiu no gosto popular muito mais que certas temporadas anteriores. Afastando-se do viés político e puramente gore, o crossover intitulado Apocalypse trouxe o melhor de dois mundos, combinando uma narrativa consistente às “leis” do gênero do horror sem cair em saídas formulaicas. E talvez seu ponto de maior acerto tenha sido manter-se em uma zona de segurança antes de uma surpreendente reviravolta que trouxe à tona algumas das personagens mais queridas da antologia. De fato, a nova iteração supervisionada por Ryan Murphy e Brad Falchuk pode não ter acabado, mas já se mostrou superior em diversos aspectos – o problema, entretanto, reside em outro lugar.

Finalmente adentramos no sétimo episódio, nos aproximando cada vez mais do trágico final pós-apocalíptico prenunciado pela insurgência do próprio Anticristo, Michael Langdon (Cody Fern). Após retornarem da aguardada conclusão de Return to Murder House, Cordelia (Sarah Paulson) inicia seu plano de impedir que seus inimigos tomem o poder e varram a raça humana e as bruxas do mundo. É claro que, considerando os eventos do primeiro episódio, as tentativas foram em vão, mas é sempre bom ver o lado para o qual torcermos ter uma vantagem clara. Madison (Emma Roberts) surpreende a todos com seu arco heroico, refutando suas condenáveis ações do passado, e viaja até os estúdios onde trabalhava para recrutar a estrelas dos filmes trash Bubbles McGee (Joan Collins voltando com força para a série). Acontece que Bubbles é a única capaz de descobrir os planos secretos dos Warlocks, visto que sua habilidade principal é a telepatia.

Logo, ela e Myrtle (Frances Conroy) preparam um falso jantar para se “desculpar pelas más maneiras” com as quais trataram seus conterrâneos mágicos, principalmente Ariel (Jon Jon Briones), que já revelou corroborar com as forças das Trevas para destruir as bruxas e instaurar uma ditadura patriarcal regida por Michael. Acontece que Cordelia, ainda portando o cargo de Suprema mesmo que seus poderes estejam se esvaindo, sempre esteve um passo à frente e faz questão de unir as forças de seu clã para combater um movimento que ameaça dominá-las. E é desse modo que as conexões com Coven tornam-se mais estritas, mais exploradas, visto que a personagem ousa cruzar a barreira entre o mundo dos vivos e dos mortos e busca apoio em Dinah Stevens (Adina Porter).

Para aqueles que não se recordam, os clãs branco e negro têm uma história conflituosa que data dos primórdios da sociedade americana e atingiu seu ápice com duas das figuras mais poderosas de todo o panteão AHS: Marie Laveau (Angela Bassett) e Fiona Goode (Jessica Lange). Sabemos que Cordelia é descendente direta de Fiona, sendo sua filha, e Dinah aparentemente herdou os poderes da falecida Laveau para si, representando as vertentes da feitiçaria africana pelos bonecos de vodu e pelas oferendas aos deuses e espíritos do submundo. Não é surpresa que Papa Legba (Lance Reddick) também dê as caras em uma breve e assustadora sequência, realizando uma oferta para a Suprema em troca da prisão eterna de Michael em seu Inferno particular.

Fica claro que a personagem de Paulson lida com inúmeras dúvidas: em nome da salvação do planeta, deve aceitar o pedido de Legba e entregar todas as suas garotas a seus cuidados? Ou será que ela, tendo como aliadas alguns dos nomes mais poderosos dos últimos anos ao seu lado, conseguirá vencer a batalha sozinha? É claro que a ascensão da próxima herdeira do coven também preconiza uma possível batalha futura. Nesse capítulo, fica ainda mais claro que Mallory (Billie Lourd) apresenta uma extensão de poderes nunca antes vista e que cada vez mais confirmam teoria sobre sua real personalidade. Podemos também perceber certos elementos estéticos que deem dicas acerca de sua figura – ela constantemente está rodeada por um espectro aureolar, seja na fotografia superexposta ou na coroa dourada que carrega na cabeça. Ao que tudo indica, Mallory pode ser um arcanjo, um dos únicos anjos capaz de derrotar o Anticristo e que justifica o fato de Cordelia ter mantido em segredo sua identidade.

É possível também perceber que Apocalypse se traveste como uma homenagem compulsória a Coven. A estética claustrofóbica foi praticamente abandonada para dar espaço aos contra-plongées próprios da terceira temporada, utilizados para reafirmar a marcante presença das personagens femininas. Aliadas aos planos distorcidos e inclinados, as escolhas técnicas refletem uma atmosfera tensa, misteriosa e duvidosa, nos deixando incertos sobre o futuro até mesmo da própria humanidade. O ápice definitivamente está nos momentos finais, com o julgamento dos traidores do clã, colocando em risco uma parceria secular em nome do poder. Cordelia sentencia todos à morte na fogueira e mostra mais uma vez que ainda está no poder.

O problema está justamente nisso. Murphy e Falchuk estão preocupados demais em contar o que aconteceu nesses anos de hiato até a ocorrência do apocalipse, mas se esquecem de que há uma subtrama, talvez a mais importante, aguardando para sair da imobilidade e ganhar continuidade. O público e o roteiro se prendem aos flashbacks e parecem se valer apenas disso – não que isso tire o brilho do capítulo, visto que praticamente não há falhas. Entretanto, permanecer nessa linha temporal preconiza um erro impensado e que exija da antologia um ritmo mais frenético em detrimento de uma boa conclusão.

American Horror Story alcança seus dias de glória mais uma vez, talvez tendo entregue uma das melhores investidas de todo seu cosmos. Mesmo com a sensação de insegurança para os próximos episódios, a satisfação continua e as tramas mergulham em uma complexidade adorável. Agora, é esperar que o ritmo ou se mantenha ou cresça muito além do que podemos prever.

American Horror Story – 08×07: Traitor (Idem, 2018 – EUA)

Criado por: Ryan Murphy, Brad Falchuk
Direção: Jennifer Lynch
Roteiro: Adam Penn
Elenco: Sarah Paulson, Emma Roberts, Frances Conroy, Billy Porter, Cody Fern, Adina Porter, Billie Lourd, Leslie Grossman, Cheyenne Jackson, Kathy Bates, Taissa Farmiga, Lance Reddick, Gabourey Sidibe, Joan Collins
Emissora: FX
Gênero: Suspense, Terror
Duração: 45 minutos

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