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E o fatídico dia chegou: o momento da ruína.

A oitava temporada de American Horror Story desde o começo prometeu ser a melhor entrada da antologia e até seu sétimo episódio cumpria em retornar às tramas sobrenaturais, trazer de novo personagens icônicos e expandir a mitologia de todos os microcosmos que criara até hoje. Ainda que se respaldasse quase inteiramente em Coven, esquecendo-se por vezes da outra iteração que ajudou no cross-over, Apocalypse rendeu ótimos resultados, mas parecia se esquecer de um detalhe importante: eventualmente, sobraram apenas três episódios para explanar acerca do ataque nuclear que varreu o planeta e mostrar os corolários após o reencontro do Anticristo com as bruxas. E, bom, o resultado veio à tona nesse mais novo capítulo, intitulado Sojourn: um filler risível de tão desnecessário que é.

Já estava mais que na hora de Ryan Murphy e Bradley Falchuk deixarem o clã liderado por Cordelia (Sarah Paulson) de lado por um momento e voltar suas atenções para Michael (Cody Fern). A essa altura, o filho de Satã descobriu que seus aliados estão mortos, incluindo a guardiã que passou a cuidar dele após sua mãe se matar, Miriam Mead (Kathy Bates). Sentindo-se completamente sozinho e negando ajuda das feiticeiras, ele parte em uma jornada movida pela crise existencial de abandono, submetendo-se à tortura física e psicológica como forma de invocar seu pai. Os problemas do episódio já começam por aqui: apesar da introdução interessante, a transformação cênica em delírios do personagem é cômica por não ter a profundidade necessária; diferente de outras sequências como as vistas em Asylum ou Roanoke, não há preparação atmosférica para abocanhar o público de jeito – e convenhamos que a aparição daquele anjo é trágica por todos os motivos errados.

Michael eventualmente se lança na cidade e esbarra em um culto satânico que espera com paciência o retorno do Anticristo, mal tendo noção de que ele já se encontra entre os homens. Apesar da ambientação competente, baseada numa forte paleta de cores e na simetria com propósito excessivo, as canastronas atuações da líder do grupo e de outros coadjuvantes pecam mais do que deveriam, até mais que a pífias investidas cômicas de Leslie Grossman como a socialite Coco. A única que se salva, e não é em sua completude, é Madeline (Harriet Sansom Harris): sua aparição é natural e não se força à catarse até a revelação de quem realmente o novo membro da congregação é. A partir daí, é só ladeira abaixo.

E quando não podíamos imaginar que a série conseguia se superar, ela se joga ainda mais numa canastrice sem medidas. Fern mantém-se preso às restrições de sua personalidade como príncipe do submundo, mas percebemos uma transição entre o ingênuo garoto para uma criatura muito poderosa. Evan Peters e Billy Eichner, retornando para a temporada como dois CEOs que venderam suas almas para o Lorde das Trevas e tornaram-se bilionários, representam o cúmulo de algo inexplicável: desde a caracterização estereotipada até os diálogos não entram em congruência com o tom da temporada e refletem um cansaço narrativo bem explícito. O capítulo funciona muito mais como um tapa-buracos que algo realmente proveitoso para o desenvolvimento da trama principal, esteja ela no passado ou no presente. A única informação realmente importante, que já nos foi mostrada algumas semanas atrás, foi a de que a reencarnação de Miriam é, na verdade, um híbrido humano-máquina.

Paulson faz uma participação dupla no episódio, dando os ares de sua graça como Cordelia e depois retornando como a austera e puritana Srta. Wilhemina Venable. Acontece que Venable trabalhava como secretária-sênior da corporação supracitada, atendendo todos os pedidos de seus chefes sem perder a classe ou os ácidos ataques. Entretanto, o mais chocante é o modo como a atriz mergulha em dois papéis tão diferentes entregando-se de corpo e alma: Venable e Cordelia são muito diferentes. Enquanto esta mostra-se como uma figura maternal para discípulas da magia e as acolhe para desenvolver suas habilidades irrefreáveis, aquela utiliza de um autoritarismo bárbaro para rebaixar qualquer um a seu redor, até mesmo seus superiores. Não é surpresa que ela tenha sido escolhida por Michael para controlar o Posto 3, encontrando um merecido fim após tentar apunhalá-lo pelas costas.

Nem mesmo as características técnicas parecem se manter num nível considerável e satisfatório. Bradley Buecker retorna como diretor, auxiliado (ou talvez nem tanto) por um roteiro bruto assinado por Josh Green. Porém, afasta-se da estética distorcida dos episódios anteriores, talvez tentando encontrar uma identidade própria e falhando miseravelmente, não apenas nesse quesito. É claro, não posso tirar seu mérito como bom articulador estético, mas ele se resume a alguns momentos de brilho, enterrando o potencial existente e valendo-se dos convencionalismos próprios de Cult – que não foi lá a melhor entrada da antologia.

Sojourn fez o que já era esperado de forma assustadora: previu uma possível e imparável ruína para uma temporada que pode estar se perdendo em meio a promessas que não podem ser cumpridas. É claro que ainda temos dois episódios pela frente, mas isso não necessariamente significa alguma coisa: apenas que Murphy e Falchuk precisam decidir o que fazer e como fazer, antes que o pior retorne para as telinhas – e nem estou falando do Anticristo.

American Horror Story – 08×08: Sojourn (Idem, 2018 – EUA)

Criado por: Ryan Murphy, Brad Falchuk
Direção: Bradley Buecker
Roteiro: Josh Green
Elenco: Sarah Paulson, Cody Fern, Kathy Bates, Evan Peters, Billy Eichner, Harriet Sansom Harris
Emissora: FX
Gênero: Suspense, Terror
Duração: 45 minutos

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