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É inegável dizer que a cultura celta, principal base para as inúmeras lendas sobrenaturais envolvendo as mais fantásticas figuras do folclore mundial, sempre foi alvo de exploração por artistas, seja no campo da literatura, do cinema ou até mesmo da televisão. Afinal, ela espalha seus ramos desde os primórdios da sociedade – com seu ápice de conquista nos primeiros séculos depois do endossamento da era comum, até seu refreamento forçado com a dominação da Igreja Católica perante a Europa da Idade Média – até os dias de hoje, sendo cada vez mais relida, readaptada e distorcida para atender a um novo público-alvo, sem perder sua essência.

Logo, já era de se esperar que uma iteração analisando a secularidade de um grupo particular de criaturas sobre-humanas – as bruxas – caísse nos olhos de Ryan Murphy, principalmente se levarmos em consideração seu apreço pelo macabro e pelo horror. Em meados de 2013, o showrunner anunciou que sua série antológica American Horror Story havia sido renovada para uma terceira temporada, e aproveitou o hype dos anos anteriores para fornecer sua própria perspectiva sobre um clã de feiticeiras residentes em uma Nova Orleans contemporânea, mas ainda carregada de preconceitos e retrocessos.

Coven pode não ser exatamente a melhor temporada da série, mas é uma de suas mais ousadas. É possível encontrar tudo o que mais gostamos em uma boa narrativa mística, incluindo feitiços, sangue, sexo e reviravoltas emocionantes – e tudo isso sem perder o toque já conhecido de seu criador, atrelado a temas-base que perpassam todas as fases do gênero de terror. Deste modo, não espere apenas uma história linear sobre bruxas, e sim um compilado de referências atemporais que se inclinam à imortalidade dos clássicos que sempre povoaram o imaginário popular.

A CASA DO SOL NASCENTE

Mais uma vez, nos deparamos com uma atmosfera cercada pelo ininteligível. Seguindo o padrão visto nas iterações anteriores, Murphy nos apresenta a um cenário reconhecível apenas pela verossimilhança com a sociedade à qual estamos acostumados: a estrutura de uma mansão que, como já podemos imaginar, esconde segredos por trás das fortes estruturas marmóreas. É fácil traçar uma linha comparativa com as outras duas ambiências principais de Murder House ou Asylum: o grande casarão traz uma arquitetura própria do início do século XX, com sua simetria exacerbada e sua majestuosidade perante ao bairro ao qual pertence, nos relembra daquele comprado pela família Harmon na primeira temporada, seja por sua característica sombria (reafirmada com a serenidade de sua morbidez) ou até mesmo pelo modo como nos é apresentada – utilizando a técnica de distorção com contra-plongées e lentes olho-de-peixe.

Uma das primeiras sequências, toda coreografada em câmera lenta, leva a protagonista Zoe (Taissa Farmiga) através dos nada convidativos portões de ferro para sua nova vida. Afinal, ela descobriu pertencer à linhagem de bruxas há pouquíssimo tempo – e de uma forma bem traumática -, e agora deve arcar com as consequências de seus poderes ao sair de sua confortável para o subúrbio de Nova Orleans. Diferentemente de Vivien ou Lana, Zoe entra em uma concepção um tanto quanto não ortodoxa da jornada do herói, atendendo ao chamado pela aventura sem pedi-lo ou sem desejá-lo, e mergulhando em um mundo de feitiços, vodus, guerras de sangue e uma busca pela nova líder do clã branco. É interessante notar que o uso do slow motion é angustiante, demorado e justificável pela transição entre o plano terrestre e o plano espiritual: sua entrada na mansão marca um desequilíbrio na ordem natural das coisas, visto que desencadeia uma série de eventos culminando em mortes, ressurreições e até mesmo vinganças.

As marcas do manicômio Briarcliff também são fortes, principalmente se levarmos em consideração a estrutura de seus corredores claustrofóbicos e sufocantes. A cor branca neste novo cenário é predominante; entretanto, em vez de nos remeter à pacificidade e à plenitude, entra em constante conflito com sua simbologia ao ser perscrutado por presenças estranhas. Assim que a jovem entra na casa, ela é perseguida por figuras trajas em preto – que logo revelam ser suas companheiras: Queenie (Gabourey Sidibe), Madison (Emma Roberts) e Nan (Jamie Brewer), três aprendizes de feiticeira que foram descobertas pelo Conselho Ancião nos ápices de seu desabrochar.

As quatro alunas são marcadas pela cor preta. Uma cor neutra, que pode inclinar-se para o refinamento e para o amadurecimento quanto para a podridão e a morte. Apenas pelo cenário principal, pela imponência superficial a tomar conta de cômodos amplos, porém vazios, é possível premeditar que uma tempestade está vindo – e que alguém irá se machucar. Os momentos de escape e de pureza estão encarnados na figura materna de Cordelia Foxx (Sarah Paulson), a responsável pelo desenvolvimento das jovens bruxas. Ela, diferentemente das outras, acredita que seus poderes devem ser usados estritamente para o bem, mas não refreia seus instintos protetores e não mede seus esforços para manter o bem-estar do coven ao qual foi designada. Até mesmo seu jeito de se portar carrega semelhanças aos arquétipos dos guardiões de histórias épicas, ainda que não carregue todo o cinismo necessário para a completude de seu arco.

As garotas são suas próprias inimigas. É claro que inúmeras diferenças se apossam da convivência entre elas, seja nos assuntos mais fúteis imagináveis ou seja a partir de um embate identitário e espacial. Cada uma ali luta por uma presença necessária dentro do coven e dentro da sociedade, havendo de sofrer os preconceitos carregados pelos humanos – que muitas vezes não compreendem a capacidade extraterrena concedida a uma pequena parcela de seus iguais – e emergindo como uma nova raça. Através dos novos treze episódios, somos apresentados a flashbacks de décadas e séculos passados, discorrendo sobre questões raciais, misticismo, tortura e crença no inexplicável. Afinal, é inerente ao ser humano buscar nas divindades e na fé algo concreto para aquilo que não se vê, e sim se sente. O time criativo de Murphy e Brad Falchuk, seu eterno colaborador, realizou um ótimo trabalho traduzindo a veracidade de temas-base como o preconceito racial – através de pequenas pérolas muito bem trabalhadas de assassinato e luto – e o encantamento da cultura celta aplicada em facetas como a vingança.

É aqui que as coisas começam a ficar mais interessantes. É de se esperar que a comunidade bruxa seja, de forma generalizada, autoprotetora – mas não é exatamente isso o que acontece. Temos uma rixa secular entre negros e brancos, iniciada até mesmo com o prólogo fundador da temporada – os terrores empregados por Madame Delphine LaLaurie (Kathy Bates), uma matriarca conhecida por instituir a câmara de horrores para seus escravos, utilizando-se de métodos desumanos para castigá-los como bestialização, desfiguração e castração. Entretanto, seus métodos não se restringiam apenas aos servos, mas espalhavam-se para suas próprias filhas como forma de educá-las. Sua completa falta de percepção atraiu as forças de uma lendária feiticeira chamada Marie Laveau (Angela Bassett), a qual arquitetou um plano para torná-la imortal e forçá-la a passar a eternidade confinada num caixão de madeira.

Esse é o momento-chave que marca a disparidade entre as duas raças. Laveau tem uma concepção imutável de que sempre será rechaçada por aquelas que jurou apoiar – e com razão: como supracitado, os flashbacks não apenas nos apresentam as diversas vertentes mágicas que inspiraram os personagens de Coven, mas também as diárias batalhas sofridas por grande parte dos personagens, incluindo aqueles com os quais a personagem de Bassett se relacionava. Atravessando diferentes décadas, ela presenciou cenas horríveis em que crianças eram enforcadas simplesmente por serem negras, em que amigos próximos a esfaqueavam pelas costas após conseguirem arrancar-lhe segredos místicos, até que sua personalidade resiliente a permitisse selar um acordo com uma das “chefonas” do clã branco no tocante à divisão territorial, mantendo uma trégua durante quase cinquenta anos.

AS SETE MARAVILHAS

Não espere encontrar apenas um tipo de narrativa nessa nova temporada de American Horror Story. Aqui, todo cuidado é pouco, e manter-se fiel apenas à perspectiva eurocêntrica de como a cultura mágica conseguiu se atrelar à atemporalidade psicoantropológica de cada uma das fases da sociedade é cometer um erro imperdoável. Cada personagem criado para esta iteração em específico tem suas raízes fincadas às inúmeras subculturas mundiais que interferem fortemente nas narrativas contemporâneas: Cordelia, Madison e Zoe, por exemplo, são inspiradas nos clãs escoceses de Stonehenge que, desde o início do milênio passado, idolatravam as deusas celtas pedindo por proteção, fertilidade e amor. Queenie e Laveau, por sua vez, encarnam as inúmeras referências aos cultos africanos, associando-se até mesmo à figura de Tituba – ícone da obras As Bruxas de Salem – para emergirem como representantes dignas de uma vertente que cada vez mais é explorada pelos artistas.

Temos também a presença de outras personagens que aumentam essa complexidade. Misty Day (Lily Rabe) é uma clara alusão às ninfas da natureza da mitologia grega, adornada com uma insegurança e uma feminilidade dócil, porém dúbia, que lhe torna uma das mais atraentes personagens de toda a franquia AHS. Sua inocência perante os atos errôneos dos homens a fez ser queimada na fogueira; entretanto, seus poderes a trouxeram de volta e permitiram que se tornasse uma subestimada protetora dos necessitados, sendo convidada para se juntar ao coven branco antes de encontrar um doloroso fim. Myrtle Snow (Frances Conroy) é uma figura um tanto quanto tragicômica, visto que tornou-se parte do Conselho Ancião por falta de opções e utiliza-se de uma abordagem conservadora para impor seus ideais à comunidade bruxa, ao mesmo tempo em que busca pela justiça e emerge como a principal presença materna para Cordelia, sua protegida. Apesar das boas intenções e da sensatez com a qual comanda as coisas, ela é um alvo fácil para forças superiores a diminuírem.

E então temos Fiona Goode (Jessica Lange), a qual pode ser considerada a principal inimiga da essência da série. Fiona é a Suprema, ou seja, a principal líder do clã branco que, como qualquer pessoa pode entender, deveria lutar pela integridade e pela proteção de suas “crias”, incluindo sua filha, Cordelia. Entretanto, precisamos entender que Fiona é fruto de uma sociedade podre e cujo único objetivo é o alcance do poder absoluto: ela não apenas é uma vilã inescrupulosa, mas sim um poço de ambição que a levou a assassinar a antiga Suprema para que fosse coroada como a governante-mor ainda adolescente. Seus fortes traços permanecem até o tempo presente, em suas rugas e sua constante decadência física, reflexo do que deixou acontecer ao prestígio que sua casa outrora carregava. Até mesmo suas responsabilidades são deixadas de lado para benefício próprio – ora, ela abandonou sangue de seu sangue para buscar algo que nem mesmo o mais poderoso dos magos poderia lhe conceder: a vida eterna – e, forçada a retornar para suas raízes, ela tem como afeição aproximar-se das futuras feiticeiras para roubar-lhe o brilho, a juventude e o crescente fluxo de poder.

Mesmo assim, a beleza da personagem está em seu coração obscuro, o qual, pontualmente, deixa-se levar por sentimentos puros para proteger aqueles que magoou, direta ou indiretamente. Percebemos que ela passou sua vida inteira mergulhada numa mentira, afastando-se da filha quando poderia ajudá-la e buscando por uma redenção que nunca chegou – muito pelo contrário: seu definhamento caminhou paralelamente aos trágicos acontecimentos dos clãs e encontrou um fim à medida em que uma nova era se iniciava com a emergência sem precedentes de uma nova Suprema. A queda do velho e a ascensão do novo.

FETISH FOR MY LUST

Já sabemos que Murphy é apaixonado pela distorção, pelo horror e, principalmente, pela sensualidade – e Coven, mesmo com suas falhas estruturais, é a clara representação de como os princípios básicos do terror podem ser tratados com o máximo de sexualidade possível. Todas as personagens, inegavelmente, têm ciência de sua presença em cena e deslizam da forma mais graciosa possível através dos grandiosos cenários, impondo-se como peças imprescindíveis para as resoluções da trama.

As protagonistas da narrativa principal buscam pela supremacia mágica e pela realização das Sete Maravilhas, ou seja, sete habilidades sobrenaturais que as permitirão ou não se tornar a nova Suprema. Apesar da surpresa, é agradável saber que Cordelia, após ser subestimada por aqueles à sua volta, será essa nova figura. Mas o mais satisfatório é entender que cada um desses feitiços a serem realizados é representação de um pecado capital – e o domínio sobre cada um deles indica o autoconhecimento de determinado indivíduo. Suas alunas “falharam” em completá-los por não atingirem o amadurecimento necessário, mas a personagem encarnada por Paulson estava apenas esperando o momento certo para endossar sua posição soberana (em outras palavras, após controlar um dos instintos mais primitivos do ser humano – a luxúria).

A terceira temporada de American Horror Story mais uma vez supera expectativas e adiciona outra camada ao microcosmos idealizado pelos diversos montantes do místico, do horrendo e até mesmo do sedutor. Ela pode não ser a melhor entrada de seus criadores, mas, como já disse, é uma ousada tentativa que merece seu devido reconhecimento.

American Horror Story: Coven – 3ª Temporada (Idem, 2013 – EUA)

Criado por: Ryan Murphy, Brad Falchuk
Direção: Bradley Buecker, Alfonso Gomez-Rejon, Michael Uppendahl, Howard Deutch, Craig Zisk
Roteiro: Brad Falchuk, Ryan Murphy, John J. Gray, Tim Minear, James Wong, Jennifer Salt, Douglas Petrie
Elenco: Sarah Paulson, Jessica Lange, Evan Peters, Emma Roberts, Gabourey Sidibe, Taissa Farmiga, Lily Rabe, Denis O’Hare, Jamie Brewer, Kathy Bates, Frances Conroy, Angela Bassett
Emissora: FX
Gênero: Suspense, Terror
Duração: 45 minutos

Confira AQUI a crítica das outras temporadas!

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