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O gênero terror, desde seu endossamento com o Romantismo clássico em meados do século XIX, foi uma das vertentes mais exploradas pelos campos artísticos em geral, passando pela literatura e atingido o cinema e a televisão no século passado. Com o passar do tempo, o gore próprio deste gênero deu lugar à metalinguagem e, gradativamente, à saturação de fórmulas prontas que o deixaram desbotado e ofuscado pela falta de criatividade de originalidade, sempre se utilizando de personagens estereotipados e uma sucessão de acontecimentos previsíveis para a arquitetura de uma obra descartável.

Em 2011, Ryan Murphy, idealizador dos seriados Nip/Tuck e Glee, resolveu entregar sua perspectiva sobre as narrativas de terror para a emissora FX, prometendo uma singela distorção do que o público já estava acostumado a assistir. Combinando isso com a decadência de diversas franquias como Atividade Paranormal, as quais utilizavam a técnica do found footage como estilo fílmico, e até mesmo com a emergência de dramas sobrenaturais e fantasiosos como Once Upon a Time e The Walking Dead, a entrada de mais um show com identidade semelhante poderia ser uma jogada arriscada, mas infelizmente o resultado foi muito positivo: o início de uma era banhada a sangue, sexo e puro horror.

A primeira temporada de American Horror Story, série vencedora do Emmy e do Golden Globe, resgata as raízes mais fincadas à exploração do mundo espiritual – a famosa e atemporal casa mal-assombrada – para desenvolver uma trama tão chocante quanto desconcertante, cheia de personagens muito bem desenvolvidos e uma horda de espíritos procurando por vingança que podem nos deixar sem dormir durante algumas noites. É claro que com uma aposta tão arriscada quanto essa, a probabilidade de haver deslizes era grande, mas o panorama geral é favorável o suficiente para satisfazer uma audiência sedenta pelo novo e pelo ousado.

LAR DOCE LAR

A Casa Assassina. Este é o subtítulo do primeiro ano da série e a alcunha carregada pelo cenário quase único no qual os nossos protagonistas residem. O episódio piloto não apenas nos dá um gostinho do que está por vir ao longo dos doze capítulos, mas consegue puxar uma nostalgia digna de clássicos do gênero ao envolver o espectador em um microcosmos perscrutado pela tragédia, começando com a morte de dois garotos gêmeos pelas mãos de uma criatura irreconhecível. Tal prólogo nos relembra as memoráveis introduções de franquias cinematográficas como Pânico e A Hora do Pesadelo, introduzindo uma força externa e mortal para o mundo real e explorando o choque de realidade entre dois planos completamente paradoxais.

O foco da trama principal é a família Harmon, cujos integrantes são marcados por um passado conturbado e buscam um refúgio social em Los Angeles, após Vivien (Connie Britton), a matriarca, descobrir que seu marido Ben (Dylan McDermott) a estava traindo com uma de suas alunas. Já percebemos o tom de histeria da série nos primeiros minutos de tela, durante os quais a efêmera paz e tranquilidade entre os três membros da família vai de encontro a uma montagem frenética na qual vemos as revelações de um passado obscuro. E é interessante que essas backstories nos sejam apresentadas já de cara e se afastem das saídas clichês de outras obras de terror, as quais optam por colocar os personagens principais dentro de uma procura pela redenção. Aqui, os arcos seguem caminhos distintos, mas sempre se inclinando para a autodescoberta, o perdão e a obsessão compulsiva.

Entretanto, como já é de se esperar, a promessa de uma vida nova logo é quebrada com a aparição de diversos personagens secundários amedrontadores e cuja principal função é alertá-los sobre os segredos da casa, bem como mantê-los ali. Sim, parece contraditório que os papéis de Tate (Evan Peters) e Constance (Jessica Lange) se complementem mesmo sendo tão distantes entre si. Afinal, o garoto surge repentinamente na vida dos Harmon como paciente de Ben (um psiquiatra renomado) e logo se infiltra em camadas mais íntimas ao criar um relacionamento conturbado com a filha do casal, Violet (Taissa Farmiga). Enquanto isso, a moradora do casarão ao lado é uma figura misteriosa e capaz das coisas mais terríveis para manter sua família a salvo, além de carregar uma personalidade impetuosa e verdadeira ao extremo, demonstrando constantemente se gosta ou não de uma pessoa.

Os novos habitantes são rapidamente “acolhidos” e começam a ser testados de diversas maneiras, começando com Vivian e Ben. Afinal, sabemos que confiança não é o maior forte entre os dois, e a primeira jogada feita pelas carregadas energias daquele ambiente emerge na figura de Moira (Frances Conroy e Alexandra Breckenridge), empregada que residiu na mansão na década de 1980 e acabou morrendo pelas mãos de Constance. Ela desenvolve uma relação fraternal-afetiva com sua patroa, cuidando para tudo saia conforme o esperado, enquanto constantemente se transmuta em sua versão mais jovem, esbelta e sedutora para corromper o arco de redenção do doutor, quase obrigando-o a ter relações sexuais com ela e negar seus princípios maritais e sagrados. É engraçado analisar como Vivian constantemente insiste para que Ben para com suas neuroses, visto que fica acusando Moira de assédio. Mas essa é a principal missão da casa: engolir os vivos e torná-los parte das paredes desbotados, criando um limbo em terra tão perigoso quanto a própria concepção de inferno.

O cenário principal de Murder House nos traz a uma época remota, no auge do século XIX, durante o qual a vertente gótica, com suas torres altas, janelas em formas de rosários e a soturnidade de suas concepções arquitetônicas, era predominante para a distinção de classes sociais. A atemporalidade de tal ambientação se correlaciona com os flashbacks de décadas diferentes, conferindo uma existência além da cronologia que conhecemos para a casa. Afinal, ela existe há mais de um século dentro do universo da série, e carrega tantas energias passadas que pode muito bem ser confundida com uma máquina do tempo – sem falar que é capaz das mais perversas atitudes para garantir subserviência por parte de seus moradores.

É claro que as referências não permanecem apenas no âmbito artístico-material, mas espalham-se para a estética e a composição da obra em si. Murphy, em conjunto com um mais que competente time de diretores, coloca seus maneirismos seja nos enquadramentos, seja na condução narrativa. Os cortes bruscos nos trazem relações semânticas com a construção iconográfica do cubismo, com cortes bruscos e ângulos opostos durante uma determinada sequência, transformando um plano inteiro em pequenos corpúsculos fílmicos que, juntos, formam um organismo a priori inidentificável. Além disso, a câmera na mão é um recurso muito utilizado – muitas vezes em um excesso -, buscando inspiração no Dogma 95 de Lars von Trier, mas também causando estranhamento e afastamento por parte do público. Afinal, combine o gore das histórias de AHS com uma identidade original também distorcida: o resultado é tão chocante que pode deixar uma parcela da audiência desconfortável.

Murphy, ao lado de Brad Falchuk, criaram um thriller epopeico que não se restringe apenas à contemporaneidade, mas espalha suas referências para diversas épocas. Durante os flashbacks, momentos nos quais conhecemos os outros fantasmas que habitam a casa, vemos a clara influência de ícones do terror clássico de Alfred Hitchcock, como Psicose e Um Corpo que Cai, principalmente no tocante à montagem. Os planos alternam entre médio e fechado, deixando pouco espaço para a generalização do espaço cênico a não ser quando a intenção é ocultar o explícito. Em diversas pontuações narrativas, prefere-se enquadrar o espaço vazio entre duas pilastras ou a simetria exacerbada do portão de entrada da casa, enquanto gritos ecoam pelos corredores. Isso contribui para deixar a imaginação do telespectador fluir, imaginando que atrocidades estão acontecendo e como isso impacta na história e na personalidade de cada personagem.

A CASA DOS MIL CORPOS

Em cada episódio, temos um breve prólogo discorrendo sobre as excêntricas e amedrontadoras pessoas que já morreram naqueles cômodos, dos modos mais improváveis e medonhos possíveis. Temos, por exemplo, a constante e muito bem-vinda presença de Lily Rabe como a proprietária original do casarão, Nora Montgomery, e Matt Ross como seu marido, o cirurgião plástico Charles. Ambos são protagonistas de uma das histórias mais trágicas a adornarem as paredes da mansão, visto que realizam abortos em jovens que não desejavam ou não tinham condições de sustentar seus futuros filhos, até que seu próprio bebê é raptado e desmembrado.

Apesar da brevidade dos acontecimentos, todos os arcos têm sua profunda carga identitária, fazendo alusão, como já mencionado, a outras obras audiovisuais que impactaram significativamente o público a quem eram destinados. Podemos perceber a suavidade e o tom classy do jazz dos anos 1910/1920 com o casal Montgomery, a sexualidade exacerbada dos anos 1950 com o arco de uma aspirante à atriz que é brutalmente esquartejada, ou até mesmo o despojamento dos anos 1970 com os arcos de estudantes de medicina que são alvo de um serial killer. As diferenças são gritantes de época para época, mas todas se aglutinam em um microcosmos contido dentro da casa e, de uma perspectiva mais metalinguística, da própria série.

Em um âmbito mais espiritualista e sobrenatural, as mortes ocorridas foram tão brutais que impediram os fantasmas de seus hospedeiros de seguir em frente e encontrarem a tão esperada paz. Nem mesmo “habitantes” mais novos, como a psicótica e obcecada Hayden McClaine (Kate Mara), contribuem para transformar um ambiente tão trágico em uma atmosfera leve. A escuridão se alastra como água e utiliza os peões humanos para sua própria necessidade, descartando-os quando se tornam inúteis. É claro que os moradores, seja da época que for, são colocados entre si e emergem como protagonistas de um banho de sangue à la Massacre da Serra Elétrica.

TAKE ME TO CHURCH

American Horror Story: Murder House teve e ainda tem uma grande probabilidade de não agradar ao público assíduo às narrativas de terror, mas não por sua falta de ousadia, e sim por sua distorção de uma realidade verossimilhante àquele que encontramos em obras antecessoras. Seus temas principais apontam para todos os lados e, querendo ou não, saturam os breves cinquenta minutos de episódio.

Entretanto, a primeira temporada de uma das séries mais indescritíveis dos últimos anos é um ótimo pontapé inicial para uma saga de terror, sangue e sexo – e, apesar de podermos negar o quanto quisermos, estes são exatamente nossos desejos proibidos cuja emersão funciona como válvula de escape ao mesmo tempo em que se firma como um alerta metafórico para nossa própria vida e como escolhemos traçá-la.

American Horror Story: Murder House – 1ª Temporada (Idem, 2011 – EUA)

Criado por: Ryan Murphy, Brad Falchuk
Direção: Bradley Buecker, Alfonso Gomez-Rejon, Michael Uppendahl, Ryan Murphy, Michael Lehmann, David Semel, Miguel Arteta, Tim Hunter
Roteiro: Brad Falchuk, Ryan Murphy, Tim Minear, James Wong, Jennifer Salt, Jessica Sharzer
Elenco: Connie Britton, Dylan McDermott, Evan Peters, Taissa Farmiga, Sarah Paulson, Jessica Lange, Denis O’Hare, Frances Conroy, Alexandra Breckenridge
Emissora: FX
Gênero: Suspense, Terror
Duração: 52 minutos

Confira AQUI a crítica das outras temporadas!