“Haja Luz”, disse Deus no primeiro dia da criação de todos os seres do Universo. No sexto dia, Deus cria o homem a partir do nono comando. “Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança: domine ele sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu, sobre os animais domésticos, sobre toda a terra e sobre todo o réptil que se arrasta sobre a terra.” Logo após, o Criador recita outro comando direcionado aos homens, “Frutificai e multiplicai-vos, e enchei a terra e sujeitai-a(…)”. No sétimo dia, exausto pela sua magnífica criação, Deus descansa.

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Tudo está bem para o homem. Adão caminha de pés descalços pelo solo verde e fértil aquecido pelos raios solares. Está protegido por Deus e nada é capaz de lhe fazer mal. O Criador permite que Adão desfrute de todas as maravilhas do Jardim Sagrado com exceção de somente uma. Deus proíbe que o homem chegue perto da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal, pois possui o fruto proibido da morte. Adão obedece veemente a Deus e continua a viver harmoniosamente com todos os seres que habitam o paradisíaco Jardim do Éden. Porém, Adão possuiu um problema de comunicação com os animais. Então, eis que Deus cria Eva a partir da costela de Adão.

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Adão e Eva estavam nus e não se envergonhavam disto. Adão explorou os arredores do Éden enquanto Eva era abordada pela serpente, o animal mais astuto do campo. Com suas palavras sibilantes e capciosas, o ardiloso ser convence Eva a tomar do fruto proibido da Árvore do Conhecimento. Convencida pelo argumento ganancioso de que  iriam se tornar deuses após comer o fruto, Eva dispara ao encontro de Adão para contar as novidades. Adão, ignorante, não reluta a antiga tentação. Após uma mordida no fruto maldito, Adão e Eva percebem que estavam nus e se escondem nos arbustos. Deus percebe que há algo de errado e pergunta por que suas criações estavam com as vergonhas cobertas. Deus sabia que sua pergunta era retórica e a raiva lhe sobe o intelecto.

O tempo fecha, tudo escurece, os animais se agitam, a Terra treme com a ira do Todo Poderoso. Então, o Senhor procura o animal maldito. Encontrando-o, amaldiçoa a serpente ao posto de animal mais desprezível e a obriga a se arrastar e comer pó até o dia do Apocalipse. Depois, Deus pragueja violentamente contra Adão e Eva condenando-lhes ao trabalho pesado e as horríveis dores do parto. Depois de expulsar os homens de seu Jardim Sagrado, o Criador posiciona um querubim armado com uma espada de fogo na entrada do Jardim e ordena que destrua quem ousar adentrar em tal reduto. Adão e Eva lamentam-se pela terrível escolha que tomaram. Deus havia permitido que comessem do fruto da Árvore da Vida. A árvore que garantia a vida eterna.

Explode o Big Bang. Gases e fluídos se condensam em um processo natural para formar o nosso misterioso Universo. Bilhões de anos depois, os planetas tomam formas. A Terra ainda estoura em magma escaldante em sua atmosfera inóspita. Conforme o tempo passa, o planeta se acalma e resfria permitindo que a vida se forme. As bactérias surgem e começam a evoluir para as mais diversas e complexas formas de vida que conseguimos identificar e categorizar atualmente. Os seres começam a deixar o meio aquático. Os répteis conquistam definitivamente o meio terrestre, porém seu reinado é curto. Os grandes sauros são extintos assim que um meteoro gigantesco colide com a Terra devastando toda a biosfera. A vida, novamente, encontra outro caminho para ressurgir mais uma vez em uma atmosfera tóxica e vil. O pulo evolucional continua. É aniversário de morte do irmão de Jack. O homem de meia-idade ainda lamenta a perda e relembra dos queridos anos 50. Lar de sua juventude e de sua família texana, os O’Brien. Com seus pensamentos, Jack faz uma busca para confortar sua decepção. Em suas memórias, ele se reencontra com sua família e com seu irmão falecido em busca de sua redenção.

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O choque de dois mundos

Terrence Malick escreveu uma breve história do universo intercalada com a narrativa da família O’Brien em seu emocionante roteiro. O roteirista e também diretor da obra, provou ser mestre em transmitir as várias mensagens de seu filme com poucos diálogos. Malick traz de volta a boa forma para o cinema que andava meio perdida com diversos lançamentos blockbusters semanais. Ele entende que o bom cinema é aquele que traz ótimas histórias sobre a humanidade de seus personagens.

A história evoca a natureza da mente humana de uma maneira bem subjetiva, mas muito interessante. O teor religioso da obra é elevadíssimo, assim como o natural. Malick divide muito bem esses dois opostos. A natureza é presente com o arco narrativo da formação do Universo e do nosso planeta. É fantástico o modo que o roteirista respeitou a linhagem temporal proposta pelos cientistas atuais a respeito da criação do Universo. Tudo começa com o Big Bang e continua a evoluir até os dias de hoje. Existe, sim, uma linearidade nesse segmento do filme. Isso é notável pela evolução dos seres aquáticos que começam a dominar o meio terrestre. Felizmente, esse segmento não ficou completamente alheio à trama majoritária do filme graças a proposta divina/natural da obra.

A aura religiosa encontra-se na história dos O’Brien. Malick transmite explicitamente os pensamentos de três personagens: o pai, a mãe e o filho, no caso, Jack. Graças a esta exposição dos sentimentos e dos ideais de cada um através de uma narração em off, Malick cria a oportunidade do espectador analisá-los psicologicamente. É aqui que o Id, o Ego e o Superego tomam forma absoluta na história cinematográfica, pois nenhum roteiro conseguiu encará-las em sua plena totalidade. Antes, vou explicar o significado destes termos nunca abordados antes em uma crítica do blog.

Freud propôs que a mente humana é composta por duas partes, a consciente e a inconsciente. O lado consciente apresenta apenas a porção superficial que temos sobre o nosso intelecto. Nenhum ser humano é capaz de analisar perfeitamente seu aspecto inconsciente de sua personalidade. Depois de alguns anos, Freud analisou novamente essa divisão entre o consciente e o inconsciente e criou os termos “Id, Ego e Superego” para defini-la com mais cuidado.

O id é a parte mais selvagem, primitiva e inacessível da personalidade. Sempre busca a satisfação imediata sem ter noção de seus atos. O id busca eliminar a tensão constante da busca pelo prazer. Ele contém a nossa energia psíquica mais básica da personalidade e como está sempre à procura de algo, é preciso de um mediador que controle os atos violentos que poderiam ser causados por uma pessoa que não consegue manter o equilíbrio de sua personalidade. O doente que tem o id em excesso é o psicopata.

O ego é o mediador das ações desreguladas do id. Ele consegue controlar os instintos primitivos da personalidade mantendo um equilíbrio teoricamente perfeito com as consequências do mundo externo, o mundo material. O ego representa a razão, o contrário da paixão irracional do id. Busca,  também, o prazer, porém obedece aos princípios da realidade. Ele atinge o prazer ao encontrar o objeto apropriado para lhe satisfazer. O ego não existe sem o id, aliás, extrai suas forças dele. E luta constantemente contra o id para satisfazer as necessidades dos instintos mais primitivos do homem.

O terceiro componente da personalidade é o superego. Ele representa a moralidade e é desenvolvido desde o nascimento da criança. O superego é formado pela educação que o indivíduo recebe de seus pais. Distingue o certo e o errado, o bom e o ruim e  cria os valores e a moral do intelecto da pessoa. Também estabelece uma relação entre a recompensa e a punição merecida proveniente de seus atos. De uma maneira mais simples, o superego é aquele lado que grita dentro da sua cabeça “não faça isso ou aquilo. Isso é errado!”. Ou seja, freia seus atos a fim de alcançar a perfeição do ser. A religião está diretamente ligada ao superego dependendo da educação do indivíduo.

Explicados os termos psicológicos, vamos a análise da segunda parte do roteiro impecável de Terrence Malick. Ele trabalha muito com metáforas e sugestões ao longo da narrativa. Entretanto, alguns aspectos prefere deixar bem explícito a fim de tornar sua obra relativamente fácil para todos os públicos. De início, Malick apresenta Mrs. O’Brien em sua juventude. Ele explica que a mulher teve uma criação religiosa o que define muito bem seu perfil bondoso e ingênuo. Mrs. O’Brien é um retrato da mulher dos anos 50. Religiosa, dona de casa e calma, uma pessoa que se preocupa apenas com a educação caseira de seus filhos. Ela é o ego perfeito. Aceita sua rotina e quase nunca transparece sua personalidade primitiva. Suas mensagens sempre relevam o amor e a religião e contam com um leve ar de didatismo. Fora isso, Malick faz uma crítica inigualável ao homem em relação ao modo que tratamos a natureza através da mensagem de Mrs. O’Brien.

Eis então que entra o autoritário Mr. O’Brien. Malick trabalha espetacularmente esse personagem. A personalidade do personagem é imprevisível. Ele é o ego que permite que o id comande por alguns momentos. Mr. O’Brien tem um discurso mais áspero, ganancioso e extremamente didático. Ele tem convicção no que faz e acha seus métodos eficazes, porém é cego pelo orgulho e não percebe que está criando uma atmosfera incômoda no relacionamento com seus filhos. A educação que o homem dá aos filhos é rígida, exigente e intolerante, mas ele não é um monstro. O’Brien só percebe que está extrapolando quando o meio externo atinge diretamente seu orgulho, seja com um abraço desesperado do filho ou com conflitos no trabalho.

O personagem também tenta se informar sobre tudo e todos para tentar reprimir um sentimento ignorante que é evidenciado apenas uma vez no filme. Além disto, o personagem busca constantemente ser gratificado por suas conquistas denotando uma grande necessidade de atenção e uma carência afetiva. Afinal, é um homem que carrega a decepção do “sonho americano” nas costas. Além disto, Mr. O’Brien é levemente hipócrita e invejoso. Ele não percebe que o dinheiro não traz, obrigatoriamente, a felicidade.

E o personagem mais rico do filme inteiro, Jack. O espectador acompanha a infância instigante do garoto e breves momentos de sua fase adulta. Malick trabalha com opostos ao apresentar o Jack adulto, amargurado e triste, e o Jack jovem, energético e amável. O psicológico dele é o mais trabalhado e interessante. Malick introduz questionamentos que todos nós fazemos através dos discursos de Jack. O personagem questiona os métodos suspeitos e cruéis de Deus e pragueja contra o pai.

Jack é o ego instávelem formação. Há momentos que o garoto precisa extravasar e liberar seu id. Porém, o arrependimento do ato realizado e o medo de suas consequências deixam o superego elevadíssimo. Assim, a ansiedade é uma característica constante no intelecto de Jack graças à tensão que seu ego recebe a todo o momento.

Ele sofre com a censura paterna e só tem liberdade quando seu pai se ausenta. Aliás, o conflito parental que Malick constrói é um dos melhores que já vi. Jack é um misto de paixões com a necessidade de explorar. Conforme a relação com o pai piora, ele fica mais agressivo. Suas brincadeiras passam a ficar mais perigosas e cruéis, porém, assim como seu pai, não é um monstro. O personagem também é carente e por ser jovem, não sabe lidar com a decepção, culpa e, principalmente, com a raiva. As traquinagens são uma válvula de escape para liberar todo esse sentimento preso. O garoto sente uma obrigação de descobrir um talento para agradar o pai, afinal, é o mais velho e é o “patinho feio” da família. Por isso, sente uma notável inveja de seu irmão que consegue se comunicar melhor com os pais. É interessante notar que Jack busca o perdão, porém não consegue perdoar os outros.

Com personagens tão bons, a história narrativa não poderia ser diferente. Malick trabalha com a vida e suas situações. O filme traz vários momentos que todos nós já vivenciamos e, consequentemente, o espectador sentirá uma nostalgia de sua infância, de seus pais, de seus amigos, de suas brincadeiras… A linearidade da história pode ser confusa para alguns, pois alguns segmentos não têm muita relação com o que o precede. Entretanto, isso é uma característica única no filme de Malick. A história é feita de memórias do protagonista e, por isso, elas não seguem uma linearidade expressiva. Afinal, nossos pensamentos não seguem nenhum padrão pré-estabelecido. O nome desta característica é “fluxo de consciência” e ela raramente aparece em filmes ou livros.

Praticamente nada escapa dos olhos atenciosos do roteirista. Ele, de fato, conseguiu realizar um breve resumo da vida e de suas paixões – em dado momento do filme, pensei: “Ele tem tudo!”. Porém, nem tudo é perfeito na escrita impecável de Malick. Existe uma versão do longa com a decupagem original com seis horas de material pronto. A versão dos cinemas tem apenas duas horas e vinte minutos. Obviamente, várias relações saíram prejudicadas por isto. É evidente que várias cenas receberam mais atenção na versão do diretor.

O primeiro amor de Jack é um exemplo perfeito disto. Fora isso, alguns personagens também não recebem nenhum aprofundamento. Steve, o irmão mais novo, é minimamente explorado. No fim do longa, senti que Malick conseguiu contar e transmitir a principal mensagem do filme. Mas tenho certeza que tinha muito mais ali a ser explorado.

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A humanidade como ela é

O elenco de “A Árvore da Vida” é de cair o queixo. Todas as atuações possuem uma naturalidade inacreditável. Brad Pitt deixou seu semblante de galã há tempos. Ele tornou-se um sinônimo de qualidade, um ator excelente. O psicológico de Mr. O’Brien só fica explícito desta maneira por causa de sua atuação – é impossível imaginar o papel nas mãos de outro ator.

Pitt tem um ar severo no seu olhar. Carrega uma atmosfera tenebrosa enquanto contracena com as crianças. O espectador sente que a instabilidade temperamental do homem pode explodir a qualquer instante e fazer mal para as crianças. Entretanto, mesmo com essa atmosfera tensa nas cenas que acompanham o relacionamento do pai com os filhos, Pitt transmite subjetivamente que nunca seria capaz de fazer mal a sua mulher transpondo uma relação de respeito e amor.

“Os olhos são a janela da alma”, disse uma vez Leonardo da Vinci. E como ele estava certo. Os olhares de Brad Pitt transmitem todas as características do personagem, mas isto não torna Mr. O’Brien um homem superficial. É uma complexidade compreensível, um claro enigma. Uma antítese em movimento. Ao mesmo tempo em que Pitt molda olhares fascinados e apaixonados pela perfeição física de seu filho recém-nascido, também constrói expressões de extrema fúria e ira. O ator trabalha a característica instável do personagem muito bem ao longo do filme. Ele apazigua seu temperamento assim que percebe a amplitude de seu conflito com Jack.

A linguagem corporal do ator é outro espetáculo e também reforça o tom autoritário do personagem – repare como ele sempre aponta, ameaçadoramente, o dedo indicador quando corrige as atitudes de seus filhos. A atuação de Pitt é composta de vários acertos como a cena em que ensina seus filhos a lutar. Os únicos momentos em que o ator deixa as expressões preocupadas e autoritários são aqueles em que contracena com Jessica Chastain, Mrs. O’Brien.

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Chastain encarna o espírito da maternidade com uma suavidade fantástica. Ao contrário do pesado Mr. O’Brien, Mrs. O’Brien é a leveza pura, o lado gracioso da película. A mulher conta uma beleza clássica para ajudar a construir sua personagem que não vê maldade nas atitudes naturais do marido. A atriz emana bondade e felicidade, mas também sabe construir expressões naturais de desconfiança. É incrível notar como Chastain incorpora o espírito da mãe. A linguagem corporal da atriz é expressiva. Em uma cena, foge da brincadeira dos filhos com movimentos estabanados e mornos explicitando que também estava se divertindo com as palhaçadas dos garotos. Mas também sabe assumir poses inquisitoriais. A feição levemente emburrada acompanhada com a pose em que ela coloca as mãos na cintura deixam claro o sexto sentido da mulher quando desconfia das atitudes de Jack.

O elenco mirim não compromete chegando até a surpreender em vários momentos. Hunter McCraken torna Jack O’Brien um personagem único. Como ainda é criança, a naturalidade de sua atuação é apenas uma consequência bem vinda. Não é exagero chamar a atuação deste moleque nada menos que perfeita. Repare como muda sua feição toda vez que Brad Pitt entra em cena ou quando ele o abraça. O incômodo é perceptível em sua face assim como na postura encolhida. Ele tem medo e ódio do pai. Até sua dicção chama a atenção do espectador quando ele discursa em off. Ao contrário de seu pai e de sua mãe, Jack sussurra para o espectador evidenciando a grande censura e retração que o personagem sofre. O garoto trabalha muito com sua expressão corporal. Uma criança nunca consegue mentir, seu corpo sempre diz a verdade que o cérebro tenta esconder. Quando Jack exagera nas suas brincadeiras ou faz mal a alguém, McCraken assume uma expressão torta, nervosa, assustada e curvada. O ator não deixa de impressionar a todo instante. Responde muito bem as cenas dramáticas e as cômicas – a cena que ele encarna o tom de Mr. O’Brian é impagável. O melhor de tudo é a sutileza do ator – nada fica caricato ou indigesto em seu personagem.

Laramie Eppler vive o irmão do meio da família O’Brien. O ator cria uma figura misteriosa, amável e bondosa para o personagem que se assemelha muito com a mãe – ao contrário de Jack, parecido com o pai. Sean Penn detonou o filme em algumas entrevistas. A causa disto deve ter sido seu tempo curtíssimoem tela. Penn trabalha muito com olhares desolados e melancólicos com uma feição que pouco varia. Penn trabalha poucas vezes com sua linguagem corporal. Somente duas vezes ela se torna relevante. Uma, quando o personagem tem uma dificuldade absurda ao atravessar uma porta no limbo de suas memórias – a porta representa o perdão, a anistia, a redenção espiritual de Jack. E outra, quando Penn cai de joelhos, exausto e estupefato, por ter conseguido encontrar a memória que tanto procurava. Ou seja, a atuação de Penn é composta de metáforas e significados. Porém, não deixa de ser decepcionante não conhecer um pouco mais do personagem em sua fase adulta – novamente a decupagem cinematográfica comprometeu alguns segmentos do filme.

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A pintura feita de luz

Emmanuel Lubezki é o diretor de fotografia de “A Árvore da Vida”. É a segunda vez que o cinegrafista trabalha com o antissocial Terrence Malick. A característica mais gritante da fotografia de Lubezki são os opostos cheios de significado que cria no início da projeção. Primeiro, o cinegrafista apresenta os saudosos anos 50 estadunidenses. As cores são saturadas e o verde de sua paleta, exuberante ao extremo. Logo depois, o espectador é jogado no mundo atual. Lá, os tons assumem cores metálicas, pálidas, monocromáticas e completamente sem-graça. O verde, que preenchia a tela nas cenas anteriores, desaparece. E os tons cinzentos reinam absolutos. O branco, que representa o vazio no caso, também é muito presente nos segmentos que acompanham Jack já envelhecido.

Com isso, Malick e Lubezki criam uma aura nostálgica, viva e mística para o passado. E o presente fica retido apenas no trabalho exaustivo. Os homens deixaram o altruísmo e abraçaram o egoísmo. Não vivemos mais pelos outros, mas sim pelo trabalho. Pelo nosso próprio ganho e mérito. Apenas com as cores certas, Lubezki consegue criar várias críticas ao mundo contemporâneo.

Raramente o cinegrafista se encontra limitado aos tons azulados e amarelados tão comuns nos filmes atuais. Quando trabalha com essas cores, insere-as no segundo ou no terceiro plano criando contrastes entre elas. E é criativo ao criar esses contrastes. Tome o seguinte plano como exemplo: quando Jack espiona a briga dos vizinhos, nota-se que as paredes exteriores da casa recebem tons azulados. Já no interior do cenário, os tons são predominantemente amarelados. Assim, além de inserir o contraste belo, Lubezki adiciona uma ilusão de profundidade exemplar.

O mundo cheio de vida do passado também conta com outro grande manejo de iluminação de Lubezki. O cinegrafista e iluminador pinta obras de arte em movimento com sua luz incidente. A artística incidência é a mais natural que já presenciei. Ele a incide no cenário e nos atores de maneira levíssima permitindo uma modelagem de sombras peculiar e mais atenciosa. Com o auxílio de cortinas, Lubezki consegue suavizar a luz natural do Sol nas cenas internas diurnas. O fotógrafo também gosta de trabalhar diversas vezes com projeções de sombras muito inspiradas.

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Lubezki também dá significado em técnicas que acabaram banais no cinema hollywoodiano. O efeito contraluz é bem expressivo em sua fotografia e a partir dele, consegue moldar silhuetas impecáveis. Outro manejo de iluminação muito inspirado são os flashes de luz que aparecem apenas uma vez durante o longa. Lubezki mimetiza a iluminação típica de faróis. Ou seja, a luz percorre todo o cenário permitindo uma modelagem de sombras fantástica. O truque adiciona uma teatralidade inestimável para a cena. Os reflexos também são inspiradíssimos.

Entretanto, a técnica de Lubezki não se resume apenas a iluminação. Ele usa diversos tipos de lentes para capturar as imagens. Em vários momentos do filme, utiliza um recurso chamado deep focus. Assim, deixa algumas imagens completamente nítidas sem nenhum desfoque. Perceba que em todas as cenas diurnas, interiores ou exteriores, a presença do Sol causa uma superexposição de luz belíssima. Graças a isto, o cinegrafista encontra oportunidade de aproveitar artisticamente, a refração de suas lentes. Malick usou três casas para filmar as cenas interiores. Fez isso para que a luz do sol sempre incidisse diretamente no cenário. O manejo do diafragma das lentes é igualmente bem feito. Isso é perceptível em um plano que mostra R.L. tocando violão na varanda. Repare que assim que a câmera se aproxima do garoto, Lubezki abre o diafragma constituindo uma atmosfera espiritual para a cena.

Douglas Trumbull é o responsável pelos magníficos efeitos visuais do longa. O homem estava afastado desta área cinematográfica por trinta anos e seu retorno não poderia ter sido melhor. O primeiro trabalho em efeitos visuais de Trumbull foi “2001: Uma Odisséia no Espaço” e muitos sabem que esse aspecto do filme é fantástico, aliás o filme inteiro é. O melhor de tudo isto? Trumbull criou a maioria dos efeitos visuais de “A Árvore da Vida” com o auxílio mínimo de computação gráfica – ele utiliza apenas para compor profundidade na imensidão negra com poeiras cósmicas virtuais.

Trumbull criou toda a exuberante sequência da criação do Universo com líquidos, fluidos leitosos, pós-coloridos, tintas, químicos, soluções fosforescentes, flares, CO2 e luz, muita luz. As formas geométricas abstratas feitas para a cena são belíssimas. É a harmonia no meio do caos. As hipnóticas imagens criadas são a noção perfeita da Gestalt. Tudo é belo, cósmico, espiritual, físico, colorido e cheio de textura nesta sequência. Para gravar essas cenas, Lubezki utilizou câmeras especiais com zooms ópticos gigantescos, além de contar com uma velocidade de captura aceleradíssima. O espetáculo da computação gráfica acontece nas cenas que envolvem os dinossauros.

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Quando um compositor não basta…

A música original do filme foi composta pelo competente Alexandre Desplat. É difícil perceber o que é trilha original e licenciada no meio das diversas músicas do filme. Entretanto, após escutar pela internet, reconheci quais eram as músicas de Desplat. Novamente, o compositor explora notas repetidas no piano – isso aconteceu na trilha de “O Discurso do Rei”. O piano é o instrumento mais expressivo em várias composições. É importante ressaltar que algumas músicas assumem um tom muito ameaçador através dos acordes graves e lentos dos violinos.

Na verdade a trilha do longa é muito parecido com a de “O Discurso do Rei”. Essa característica de repetir escalas, tons e notas é constante nas músicas do filme. Elas são bem tranquilas e sempre contam com um fundo musical constante de violinos. Várias são cíclicas e bem monótonas explicitando o clima pacífico dos anos 50. Às vezes, Desplat utiliza harpas para fugir da mesmice. Em suma, a trilha original não surpreende e é bem calma. Entretanto, a música de Desplat não chega nem perto da qualidade da trilha licenciada composta de inúmeras composições clássicas.

Desplat e Malick selecionaram músicas imperdíveis para a trilha sonora licenciada. São inúmeras as composições, entre elas “Funeral Canticle”, de John Tavener; “Lacrimosa”, de Zbigniew Preisner; “Siciliana Da Antiche Danze Ed Arie”, de Ottorino Respighi; “Hymn to Dionysu”, de Gustav Holst; “Má Vlast Moldau (Vltava)”, de Bedrich Smetana; “Symphony No. 4 em E menor”, de Brahms; “Lês Barricades Mysterieuses”, de F. Couperin; “Toccata e Fuga”, de Johann Sebastian Bach; “The Well Tempered Clavier”, de Johann Sebastian Bach; “Requiem – Agnus Dei”, de Hector Berlioz, entre outros.

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Transcendendo Malick

Terrence Malick é conhecido por ser desconhecido. O diretor é completamente misterioso e existem pouquíssimas fotos dele. Ele não aparece em eventos nem para ser premiado. O cara é completamente antissocial. Não se importa se gostam dele ou não e tampouco se gostam de seus filmes, mas a verdade é esta, ele faz cinema como ninguém.

Sua obra bate de frente em termos de genialidade com a obra-prima de Stanley Kubrick “2001: Uma Odisséia no Espaço”. Obviamente, Malick não conseguiu atingir o nível de sacadas brilhantes que Kubrick atingiu em seu longa, mas chega perto – na minha opinião, a melhor sacada da história do cinema é o salto evolucional do osso para o espaço que Kubrick esculpiu num belo slow motion. As sacadas de Malick são mais humanas e observadoras. Isto é claro quando filma a oscilação débil de um balanço acompanhada de um movimento genial de câmera – Malick maneja sua câmera como ninguém. Os movimentos são fantásticos.  Outro exemplo é quando filma as sombras das crianças brincando na rua.

Quem conhece as obras antigas de Malick – quatro longas no total – sabe que é um diretor que ama filmar paisagens e a natureza. Primeiro, Malick explora várias cores com imagens estonteantes da criação do Universo e da Terra – aqui a contraluz é ainda mais expressiva. Se Kubrick preencheu seus devaneios cômicos com “Danúbio Azul” de Richard Strauss, Malick enche os ouvidos do espectador com “Lacrimosa” de Zbigniew Preisner enquanto filma supernovas e nebulosas. Tudo é mágico no filme de Malick.

A água aparece diversas vezes nas imagens da natureza. A vida só existe por causa da água e o diretor realça isto em excesso. Malick filmou a natureza de todas as maneiras possíveis — em tomadas submarinas que capturam a majestosa formação das ondas e a dança das algas impulsionada pela correnteza fluvial, em tomadas aéreas que esbanjam a dimensão grandiosa da paisagem e em tomadas terrestres que mostram a terrível fúria da natureza que supera a fúria do homem. O diretor gosta de trabalhar com abordagens filosóficas ao inserir diversas vezes a imagem de um rio ao longo do filme. Todos nós conhecemos ou estudamos o famoso provérbio de Heráclito, “Nós não podemos nunca entrar no mesmo rio, pois como as águas, nós mesmos já somos outros”. Aqui a imagem é recheada de significado.

Por que Malick abordou a criação do Universo em sua obra? Ora, isso é simples de responder. Imagino que o diretor quis criar um paralelo entre os arcos que acompanham a infância de Jack com a infância do Universo. Ambos são explosivos, intolerantes e ansiosos para começar a viver sem que algo os limite ou censure. As metáforas são outro aspecto muito relevante de “A Árvore da Vida”. Seja nas rápidas imagens dos palhaços ou da figura misteriosa do homem no sótão, o diretor sempre levanta questionamentos e interpretações para todos os espectadores.

O teor religioso é elevadíssimo como havia escrito na parte do roteiro. Malick questiona Deus e seus métodos e, principalmente, a fé dos homens. Entretanto, não deixa de responder seus próprios questionamentos. Seja no dinossauro misericordioso que poupa a vida do outro ou no desfecho onde todos os personagens aprendem a perdoar – até Mrs. O’Brien perdoa Deus. Aliás, Malick mostra a divindade diversas vezes no decorrer do filme através de uma figura misteriosa, quente, abstrata e bela. Repare que quando a imagem aparece, Malick remove a sonoplastia da cena deixando tudo em um breve e profundo silêncio a fim de causar um momento de reflexão para o espectador.

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O diretor também sabe aproveitar as técnicas disponíveis para tornar seu filme ainda mais envolvente. Malick é criativo ao utilizar o time lapse e ao filmar as diversas árvores que aparecem no filme – sempre de baixo para cima –,  lembre-se que é assim que você vê uma árvore. Apenas uma vez, o cineasta filma as árvores com um ângulo diferente.

Outra comparação que Malick cria é bem interessante. Repare que com distorções de lentes, o diretor deixa os arranha-céus ainda mais altos. Com isso, o cineasta deixa subentendido que, no passado, os objetos mais altos do mundo eram feitos pela paciente modelagem da natureza e não pelas mãos apressadas do homem.

O filme de Malick é sinestésico, ou seja, mistura sensações físicas. O tato é a sensação mais explorada pelo diretor. Os personagens sempre estão em contato com alguma coisa. Seja no abraço quente da terra, no toque refrescante da água, na textura áspera da rocha, na suavidade da grama, etc. Outro trabalho exemplar de Malick é a construção dos personagens. Seu envolvimento com o elenco é tão bom que o público cria uma empatia fortíssima com os personagens. A plateia se preocupa com os garotos e com o futuro da família O’Brien. Aliás, o diretor lança sugestões a todo instante deixando o espectador tenso e curioso em descobrir o desfecho da cena ou do conflito. Malick entende que uma imagem vale mais que mil palavras, mas acho que não captei bem a mensagem ao escrever este texto.

Mas e a tal “Árvore da Vida”? Ela aparece no filme? Sim, surge rapidamente no desfecho do longa. Ela é visível em terceiro plano e a imagem dura apenas alguns segundos. É frágil, escondida e pequenina. Exatamente como algo precioso deve ser. O mais interessante disto tudo é que nenhum personagem percebe sua existência em meio à cena. Ali, o homem não tem ganância. Ali, tudo emana bondade. Ali, o altruísmo e o amor vêm em primeiro lugar.

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Ode à vida

Estamos encarando o melhor filme do ano ou talvez da década ao assistir “A Árvore da Vida”? Sinceramente, não sei responder. O filme é excelente e repleto de simbolismo. A mensagem é inspiradora e bela. A fotografia é uma das mais bonitas que já vi e a música toca a alma. Entretanto, este longa é uma experiência completamente pessoal. Existem pessoas que não sentirão nada ao assisti-lo, mas outras acharão outro significado para sua existência. Eu não tive uma crise de existencialismo no meio do filme, mas o achei um entretenimento de primeira qualidade. Ele explora sua inteligência e suplica para que você o interprete. Até mesmo ateus podem gostar do longa, apesar de seu cunho religioso. O que tenho certeza sobre este filme é que estamos encarando uma obra de arte. Difícil, lenta e confusa, mas nunca deixará de ser uma obra-prima lindíssima. Ame ou odeie, mas Terrence Malick provou ser um diretor de extrema precisão.

Nota: ★★★★★

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