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Todo meio de expressão artística possui exemplares fortíssimos encarados como verdadeiros épicos monumentais. No cinema, esses épicos ocorrem vez ou outra e alguns tem a felicidade de marcarem História se tornando verdadeiros clássicos. George Stevens, já totalmente consolidado na indústria reconhecido como um dos maiores nomes de Hollywood, encontraria, talvez, o maior desafio de sua carreira: a realização de Assim Caminha a Humanidade.

Um dos maiores filmes da cinematografia americana com três horas e vinte minutos de duração, Assim Caminha a Humanidade é um épico para oferecer o melhor do blockbuster dramático de Hollywood, resgatando ferrenhamente o espírito apaixonante de …E O Vento Levou ao trazer uma história que ousa atravessar décadas para mostrar a completa transformação de seus personagens.

O Texas do Passado

O livro de Edna Farber é uma grande carta de amor ao Texas mostrando todos os seus defeitos assim como suas glórias. Por ser um épico que atravessa a maior parte da vida dos personagens, já se tornava um enorme desafio para adaptar às telonas, mas o grande esforço de Fred Guiol e Ivan Moffat faz o difícil virar um passeio no parque devido a estupenda qualidade da escrita tanto para a narrativa ao todo como no tratamento dos diálogos espetaculares muito eficientes em mostrar as diferentes personalidades tão distintas que os personagens apresentam.

Apesar de gigante, o foco da história se concentra na relação amorosa de Leslie (Elizabeth Taylor) e Jordan Benedict (Rock Hudson). Ela, uma garota do interior de Maryland, estado do leste dos Estados Unidos, se apaixona perdidamente por Jordan, um latifundiário ricaço do Texas, estado do oeste, quando ele viaja para sua casa a fim de comprar o poderoso alazão War Winds para sua fazenda de 500 mil hectares.

Voltando com o cavalo e a moça para o Texas já domado dos anos 1920, conhecemos o incrível choque de cultura e realidade que Leslie terá para se adaptar a um modo de vida e pensamento completamente diferentes dos seus, além de ter que lidar com a antipática irmã de Jordan, Luz (Mercedes McCambridge), e com as investidas suspeitas do capataz Jett Rink (James Dean), o empregado mais detestado do rancho pecuário Reata.

A beleza disso tudo é que a sinopse só abrange parte do primeiro ato já que a narrativa está em constante evolução, trocando de antagonistas e protagonistas a todo momento conforme os anos passam. Apesar disso dar o toque de peculiaridade para o filme, é nítido que o melhor ato é o primeiro que consegue desenvolver plenamente a poderosa protagonista Leslie – Liz Taylor demonstra uma vivacidade apaixonante nesse segmento.

Os filmes de Stevens, principalmente os pós-Segunda Guerra, trazem problemáticas sociais sutis, mas em Assim Caminha a Sociedade, o conflito social é o mais presente. Através do coração humanitário de Leslie, vemos a mulher confrontar os pensamentos machistas do marido, do enorme racismo que impera no rancho contra os trabalhadores mexicanos, a péssima qualidade de vida desses trabalhadores em condições análogas à escravidão, além de tomar a ordem da dinâmica da casa para si, desagradando profundamente a cunhada.

Aliás, a figura de Luz é tão poderosa como antagonista que deveria ter sido mantida por mais tempo, apesar da cena climática dela exibindo toda sua crueldade projetando o ódio que sente por Leslie no pobre alazão War Winds. Apesar dessa decisão duvidosa em se livrar da antagonista tão rapidamente, os roteiristas desistem da figura de um vilão focando inteiramente a mensagem nos choques ideológicos entre Leslie e Jordan.

A construção de Leslie como uma mulher forte e indomável repleta de valores progressistas é feita com afinco. O que pode decepcionar um pouco é o perfil de Jordan, já que somente temos o exato oposto dos valores de Leslie, afinal ele é egoísta, racista, machista, xenófobo, rude, tradicionalista, preconceituoso, entre outras diversas características negativas que colocam à prova porque que Leslie se casou com um homem tão retrógado. O intuito dos roteiristas com isso é personificar o antigo Texas, o antigo oeste indomado e violento, tanto que esse primeiro ato possui um clima poderoso de western.

É bastante claro que Jordan será o principal foco de evolução ao longo da narrativa, assim como o próprio Texas fica cada vez mais civilizado. A rivalidade entre Jordan e Jett Rink também é enraizada de modo eficaz, apesar de Rink ser um personagem bastante simples de progressão previsível. Aliás, esse é o maior problema de Assim Caminha a Humanidade é a previsibilidade. Absolutamente todos os arcos e núcleos são telegrafados ao extremo, com exceção ao destino de Luz no primeiro ato.

Sabemos que o casal terá filhos, que haverá alguma separação temporária, que Jett Rink ficará bilionário ao descobrir um poço abundante de petróleo em seu terreno e que Jordan será desmontado por não conseguir controlar nada o destino de seus filhos ou do próprio Texas que deixa de ser uma potência pecuária para virar uma potência petrolífera.

O Texas de “Hoje”

Encerrado o primeiro ato em grande momento, os roteiristas parecem que se perdem em qual história eles querem contar, já que rapidamente Leslie e Jordan e a relação amorosa de ambos fica em completo escanteio por conta de muitas, mas muitas elipses para mostrar o crescimento dos filhos do casal: Jordie, Judy e Luz II.

Há sequências interessantes que já determinam a rebeldia dos jovens enquanto crianças como a poderosa cena envolvendo Jordie e um pônei na qual Jordan começa a perceber que não é o dono de tudo e de todos como pensava. Nesse ponto, a figura do tio Bawley cresce bastante como um forte conselheiro para Leslie e as crianças.

A partir deste ponto, com Jett Rink ficando cada vez mais rico, o filme acelera o passo para se transformar em um jogo de conceitos e não mais de desenvolvimento de personagens. Os filhos crescem muito rápido sem alguma preocupação para estabelecer mais características a eles. Tanto que quando já partimos para a idade adulta deles, não existe muita afeição ou empatia por serem desconhecidos completos.

Focado nas histórias dos três, o roteiro toma diversos desvios para mostrar um casamento inter-racial com uma imigrante mexicana, as diferentes consequências da ida à Segunda Guerra Mundial, além de nenhum estar focado em herdar os negócios gigantescos do pai em Reata. Enquanto Jordan declina e começa a ver seu império ruir diante do sucesso de Rink, novamente há elipses para chegarmos ao terceiro ato, no qual Leslie e Jordan passam a ser avós – apesar do sumiço bizarro de uma das filhas deles.

Não há muita exploração da relação de Rink e Jordan depois do ex-empregado ter ficado rico o que também é um potencial desperdiçado. Somente no terceiro ato, quando o filme começa a dialogar com Cidadão Kane e o declínio moral de Rink que o nível volta a se fortalecer. Os conceitos e fatos apresentados no segundo ato tornam-se mais relevantes colocando conflitos raciais em evidência, finalmente afetando os personagens que viviam em uma bolha ideológica em Reata, já que o pai, nessa altura, é totalmente domado por Leslie, respeitando as pessoas como elas são.

Justamente por isso que o clímax do filme, também bastante conceitual, funciona bem conseguindo resgatar a boa escrita do primeiro ato. Apesar de clichê e bastante convencional, vemos um Jett Rink solitário e degradado pela bebida. O velho e eficiente “o homem que tem tudo e, ao mesmo tempo, não tem nada”. Rink é um escravo do próprio pensamento sempre focado em Jordan, nunca aproveitando de fato sua vida ou usando seu dinheiro em prol do Texas, é simplesmente um predador pior que o antigo patrão. O desfecho de seu núcleo trágico é muito forte não só por revelar o quão miserável é o psicológico do personagem, mas também em encerrar uma história de amor proibido.

No final, já com Jordan totalmente desenvolvido e transformado, há uma poderosa reflexão sobre a identidade do Texas e das alegrias da vida em uma mensagem muito edificante e satisfatória para todo o longo percurso da narrativa.

O Ápice de um Artista

George Stevens estava inspirado para realizar seu melhor trabalho de direção com Assim Caminha a Humanidade, apesar de não ser o seu melhor filme. Investindo três anos inteiros para concretizar sua visão, é inegável a qualidade de seu trabalho. Primeiro, é preciso dizer que Stevens simplesmente realiza um milagre com a duração do filme, já que ele é tão agradável e fluído para assistir. As muitas horas de fato passam voando já que temos personagens tão fascinantes de acompanhar.

Isso vem por conta do magnífico trabalho com o elenco que simplesmente dá um show, apesar de muitas vezes as atuações cruzarem a linha da ficção. Nesse caso, o entrave entre Jordan e Rink é tão realista pelo fato de Rock Hudson e James Dean se odiarem totalmente durante as gravações da obra, uma rivalidade que contribuiu bastante para o resultado final. Como apontei antes, Liz Taylor é fenomenal nessa obra, servindo como um contraponto muito sólido a Hudson. Entretanto, este sendo o último filme de Dean concluído antes de sua trágica morte, é impossível tirar os olhos do jovem ator quando ele aparece em cena – ele simplesmente tinha o potencial de se tornar um ator tão eficaz quanto Marlon Brando, por exemplo, ou Daniel Day-Lewis.

Dean estava completamente investido no papel conseguindo transformar completamente sua atuação conforme os anos passam: de menino rebelde para canastrão insolente detestável. Aliás, esse é um ponto pioneiro para Stevens: ele fez questão que todos os atores continuassem na narrativa mesmo conforme as décadas passassem, forçando o envelhecimento através de maquiagem – na época, simplesmente escalavam atores mais velhos quando isso acontecia.

Todos se comportam bem nos papéis, respeitando as limitações físicas impostas pela idade, apesar de Rock Hudson ainda aguentar algumas brigas pesadas com diversas trocas de socos. Assim como em Os Brutos Também Amam, Stevens requisitou que a equipe artística se esforçasse ao máximo para conferir diversas mudanças visuais na direção de arte para Reata.

No começo, vemos Leslie chegar em uma residência faraônica no meio do deserto desolado. O ambiente interno é tão pouco convidativo quanto a aparência externa sombria da casa, já que todo o trabalho em madeira é feito com cores escuras e mortas. Tudo é monocromático ao extremo, além do mau gosto estético da decoração. Ou seja, o lugar parece um mausoléu. Essa identidade visual é tão poderosa que chegou a inspirar Del Toro para a criação da fantástica mansão em A Colina Escarlate.

A casa é uma extensão do estilo tradicional de Jordan então nada mais conveniente que ela mude de atmosfera conforme Leslie amansa seu marido. Já com o nascimento das crianças, vemos a casa reformada, com tons brancos e uma decoração eficiente em resplandecer luz e aconchego no lugar. O fato é que Stevens realmente consegue imprimir uma identidade visual muito poderosa para seu filme que certamente é o que mais possui enquadramentos poéticos de toda a sua carreira.

Não preocupado somente com o valor estético de seus planos, o diretor monta alguns que conseguem transmitir mensagens valiosas por si só. Por exemplo, quando Leslie aborda Jordan em uma noite infeliz para fazer suas ponderações sobre o casamento quase fracassado, Stevens a insere no negrume da escuridão da sala, refletindo todo o luto e tristeza que ela por desejar se afastar do marido – este, banhado pela luz quente e reconfortante da lareira.

O choque para Jordan vem logo depois quando ele acompanha a família para se despedir na estação de trem. Quando a locomotiva parte, Stevens tem o cuidado de deixar o protagonista distante e solitário na profundidade de campo ao enquadrar a placa “Benedict”, sobrenome da família, em primeiro plano. Poderoso e eficaz, sempre.

Aliás, é particularmente brilhante o tratamento visual tão expansivo para os anos 1920 com externas abundantes, além do contato intenso com a natureza selvagem enquanto nas outras décadas temos uma redução de espaço cada vez maior, com os personagens se confinando em edifício mais luxuosos e confortáveis, se imobilizando cada vez mais e perdendo o contato místico da natureza. É uma crítica velada do diretor, mas bastante perceptível com algum esforço do espectador.

Stevens mantém a consistência cinematográfica de sempre e até ousa contar detalhes somente com as imagens, nunca através de diálogos, como o fato de Leslie e Jordan dormirem em camas separadas na terceira idade indicando que o casamento não conseguiu ser salvo apesar dos esforços de ambos. De todo o modo, existem cenas que o diretor se sobressai como um verdadeiro poeta na encenação como a do infame jantar comemorativo de Rink no final da obra ou na impactante cena do velório que funciona também como uma bela homenagem do diretor para todas as vítimas da Segunda Guerra.

Também é muito perceptível que Stevens amadureceu na técnica de filmagem aprimorando bastante a decupagem ao seguir uma linha mais lógica de enquadramentos. Por consequência, ao filmar com menos ângulos, o ritmo da troca de planos é muito menos frenético que anteriormente sendo esse o filme mais contemplativo do diretor. Algo fácil para nós, já que a obra traz vistas e cenários estonteantes em grande parte do tempo.

Gigante

Assim Caminha a Humanidade é um excelente filme, mas um pouco esburacado pelas elipses apressadas trazidas após o primeiro ato perfeito. Com uma história de fundo social importante e repleto de mensagens atuais sobre racismo, xenofobia e tradição, Stevens foi à fundo nos problemas texanos sem nunca desrespeitar a grande terra que é aquele lugar.

Eficiente em todos os sentidos, temos a realização plena de um filme, de fato, gigante.

Assim Caminha a Humanidade (Giant, EUA – 1956)

Direção: George Stevens
Roteiro: Edna Ferber, Fred Guiol, Ivan Moffat
Elenco: Elizabeth Taylor, Rock Hudson, James Dean, Carroll Baker, Jane Withers, Chill Wills, Dennis Hopper, Mercedes McCambridge, Rod Taylor
Gênero: Drama, Romance
Duração: 200 minutos.

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