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As temáticas de representatividade e de gênero nunca estiveram tão em voga no cinema e na mídia quanto agora. Com os ânimos exacerbados pelas bombásticas revelações de casos de assédio sexual envolvendo diretores, atores e executivos de cinema, muitas atrizes se mobilizaram em protesto contra o que consideram um tratamento injusto e cruel para com as mulheres da indústria. Mais notadamente na última cerimônia de premiação dos Globos de Ouro, a atriz Natalie Portman deu uma cutucada na ferida ao anunciar os diretores indicados ao prêmio, todos homens.  Curiosamente, entre os diretores citados estava Sir Ridley Scott, que cerca de 20 anos antes lançava uma obra que toca em temas muito próprios da luta pela afirmação das mulheres em espaços dominados por homens. A intenção de Scott com seu filme Até o Limite da Honra foi louvável, apesar do resultado não ter sido tão positivo.

O roteiro de Danielle Alexandra e David Twohy é construído em volta de uma trama política envolvendo uma senadora feminista do Texas que exige uma mudança de postura da Marinha Americana sobre a política de acesso de mulheres nas forças armadas. Interessada no voto da senadora numa sabatina, a Marinha propõe que, se uma mulher das fileiras da Marinha conseguir passar pelo implacável curso de formação dos SEALs, promoverá as mudanças pleiteadas pela parlamentar. Para o teste, a senadora escolhe a tenente Jordan O’Neil (Demi Moore), tanto pelo seus impecável currículo e histórico de atleta, quanto pela sua boa aparência e feminilidade. Encarando o desafio como uma possibilidade de crescimento profissional e de provar pra si mesmo que está a altura do teste, O’Neil aceita participar do treinamento.

Infelizmente, o filme de Ridley Scott é digno de poucos louros enquanto realização cinematográfica. A sensação é de que o filme nunca engrena, e que as mesmas discussões e conflitos se repetem vez após vez na tela. Além disso, a harmonia entre os dois escopos do roteiro, a trama política entre militares e a senadora em Washington e o treinamento de O’Neil, é praticamente inexistente. A montagem não foi capaz de alternar os núcleos de maneira coerente, e parece que sempre somos puxados pra fora da trama em momentos chave.

Um destaque positivo são as atuações. A belíssima Demi Moore não está em sua melhor forma (foi inclusive indicada ao Framboesa de Ouro por este papel, injustamente), mas consegue passar de forma competente as agruras do treinamento implacável à que é submetida, além da frustração de enfrentar a desconfiança e animosidade de seus colegas homens. Quem está muito bem é o sempre excelente Viggo Mortensen, no papel do enigmático Comandante Urgayle, oficial linha dura responsável pela administração do treinamento. Também a atriz Anne Bancroft como a Senadora Lillian DeHaven faz um trabalho muito eficiente, que mescla no mesmo papel uma mulher forte e sagaz com um antagonista perigoso.

A direção de Sir Scott é completamente genérica neste longa, com uma fotografia pouco inspirada e uma péssima direção de cenas de ação. A horrorosa sequencia de ação do terceiro ato parece ter sido tirada de uma novela das nove, e em nada lembra o que a glória que o próprio Scott atingiria à frente em Gladiador e Falcão Negro em Perigo. Mas o pior fica por conta da trilha sonora, que quando não é genérica e sem inspiração, traz músicas completamente fora de tom e que não combinam nem um pouco com a carga dramática das cenas. Até mesmo a icônica cena de O’Neil raspando a cabeça é quase arruinada pelo péssimo uso da música. Até mesmo as contribuições dos fabulosos The Pretenders na trilha são completamente mal empregadas e dispensáveis.

Até o Limite da Honra é um filme bem intencionado e com uma temática bastante relevante e pertinente, mas que infelizmente funciona muito pouco como cinema. A discussão sobre o papel das mulheres nas forças armadas é parcamente explorada, e não passa de um mero pano de fundo para um filme de ação genérico. O roteiro raso e a direção pouco inspirada de Sir Ridley Scott (em um de seus raros tropeços) afundam a obra, e pouco sobra além das marcantes imagens de uma Demi Moore sarada, careca e badass.

Até o Limite da Honra (G.I. Jane, EUA – 1997)

Direção: Sir Ridley Scott
Roteiro: Danielle Alexandra e David Twohy
Elenco: Demi Moore, Viggo Mortensen, Jim Caviezel, Anne Bancroft
Gênero: Ação
Duração: 125 min

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