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Sempre há um cidadão que se dispõe a afirmar algo e logo depois o universo conspira para provar o quão errado ele estava. No caso do cinema, em um filme autoral, afirmar a morte de algo é bastante perigoso já que, em teoria, os filmes são imortais. Já com muitos filmes nas costas, o francês Louis Malle resolveu se arriscar ao criar sim um bom filme, mas com umas das mensagens mais prepotentes que já vi.

Alimentando a rixa histórica entre franceses e americanos, Malle decidiu fazer um filme de língua inglesa com uma das maiores atrizes americanas em ascensão, Susan Sarandon, para afirmar em Atlantic City que um dos gêneros mais tradicionais do Cinema Americano, o filme gângster, já tinha atingido o ápice com O Poderoso Chefão e que já não ofereceria mais nada. Portanto, Malle afirma que o gênero estava morto em 1980.

Mesmo que Malle esteja redondamente errado e que o tempo tenha tornado Atlantic City em uma ironia muito cruel, há uma boa história aqui, oferecida por um dos grandes mestres da Nouvelle Vague francesa.

Ensina-me a Roubar

Malle e John Guare trazem uma história de começo burocrático e pouco focado ao apresentar todos os personagens que terão algum papel relevante na narrativa. Os dois principais logo surgem na primeira cena bastante poética através do olhar eficiente de uma câmera subjetiva vouyer que observa Sally (Susan Sarandon) a se banhar com sumo de limões. O observador é seu vizinho, Lou (Burt Lancaster), que já é um senhor de sonhos fracassados e agora totalmente incapaz de renovar sua rotina flácida e sem-graça de ser um cuidador de uma dondoca falida chamada Grace.

Porém, todas essas vidas são mudadas com a chegada do ex-marido de Sally e sua irmã grávida que havia fugido com o rapaz. O problema é que Joseph (Michel Piccoli) roubou valiosos quilogramas de uma cocaína bastante pura, atraindo a atenção dos traficantes furtados que passam a caçá-lo. Se intrometendo nessa situação na esperança de ganhar o amor da vizinha, Lou surge para solucionar o problema e vender a droga o mais rápido possível.

Não fosse esse desvio absurdo e muito injustificado para o aparecimento de Joseph e Chrissie, Atlantic City seria um filme muito mais redondo. Para injetar drama, o roteirista abusa de situações maniqueístas para forçar um retrato deplorável para Joseph que não passa de um trombadinha de pouca inteligência. Já Chrissie, uma menina ingênua repleta de crenças cósmicas, também não gera muito interesse, além de sua gravidez ser um mero detalhe para esquecerem logo depois. Esses dois elementos, portanto, são apenas dispositivos narrativos de pouca imaginação que poluem muito o texto.

Até que, enfim, o foco neles é totalmente descartado e o filme enfim começa com Sally tentando melhorar de carreira dentro do cassino no qual trabalha como preparadora de mariscos. Sem perspectivas, Sally é uma jovem desiludida e abandonada à própria sorte. Logo, quando Lou aparece enfim realizando seu antigo sonho de se tornar um gângster e tendo sucesso como traficante revendendo a droga roubada, o romance é iniciado.

Também não é um trabalho excepcional e recai na psicologia da instabilidade requerer estabilidade e segurança. Como Lou, agora endinheirado, oferece um conforto improvável para Sally, a mulher logo se vê atraída pelo homem muito mais velho. É simples desse jeito. O foco antagonista, que às vezes surge, também aparece em conveniências narrativas bastante complicadas de acreditar, principalmente na última aparição desses personagens.

Entretanto, o discurso de decadência não é nada sutil por parte do diretor, já que todo o foco estético do filme está em edifícios dilapidados, quartos sombrios, cores mortas e a própria velhice de Lou, um homem que nunca conseguiu ser o que mais queria em seus anos dourados, e de Grace, que seria a tradicional mocinha em aventuras criminosas mais antigas.

O clima de artificialidade putrefata está também presente em algumas cenas, principalmente a que envolve o reconhecimento do corpo de um personagem. Malle apresenta essa situação negativa para logo jogá-la, através de uma encenação inteligente, em meio a um número musical modesto em uma festa de ricaços no cassino, totalmente indiferentes ao caos que os cerca.

É por meio de muitas imagens que o cineasta francês visa mostrar toda a decadência urbana e da pobreza da população enquanto cassinos são erguidos para destruírem vidas de outros desafortunados. Por isso que temos duas cenas emblemáticas mostrando a demolição de moradias enquanto todas as outras estão em estado deplorável.

Embora essas críticas sejam interessantes e bem fundamentadas no discurso cênico da obra, o que mais gera interesse é mesmo o protagonista Lou. Com o ótimo Burt Lancaster, Malle mostra a desconstrução do galã criminoso, afinal Lou é apenas um senhor fracassado e escravizado pela pouca grana que Grace lhe oferece pelos seus cuidados. Quando encontra a oportunidade de ser este galã, um verdadeiro homem perigoso, rapidamente se nutre pela jovialidade de Sally.

Há, portanto, uma troca verdadeira de interesses entre os dois. E nesse jogo de amor verdadeiro, Malle encontra espaço para mais um cinismo, elaborando essas relações humanas totalmente firmadas pela vantagem do dinheiro. Enquanto parceiros, tudo é um mar de rosas, até a situação se reverter. Felizmente há bons diálogos, apesar da estrutura narrativa bem apaziguada.

O mesmo ocorre com a direção de Malle que já estava bastante fria na época. Mesmo que todo seu estilo seja muito adequado a esta história de decadência parasitária, através desta estética rude com enquadramentos poucos imaginativos, é um filme que simplesmente não possui muitos apelos visuais. Felizmente, em trechos mais eróticos, Malle traz muito de sua delicadeza, ainda mais se auxiliando da montagem eficiente. O mesmo pode ser dito durante uma perseguição em um estacionamento que lembra bastante a atmosfera de filmes mais agitados da Nouvelle Vague francesa.

A Morte do Gângster

Mesmo com toda a certeza que Malle expressa em seu longa para exibir toda a decadência do gênero do filme gangster que em pouco tempo se provou uma interpretação errada do fato, Atlantic City é um bom filme que traz um valioso estudo de personagem para o protagonista Lou. O bom trabalho com a terceira idade e a realização dos sonhos em detrimento da própria liberdade é algo tocante e inspirador. É apenas uma pena que um dos maiores cineastas do Cinema francês tenha oferecido tão pouco em termos estéticos para essa obra que tem sim uma dose generosa de desequilíbrios.

Atlantic City, USA (Atlantic City, França, Canadá – 1980)

Direção: Louis Malle
Roteiro: John Guare
Elenco: Burt Lancaster, Susan Sarandon, Kate Reid, Michel Piccoli, Robert Joy, Hollis McLaren
Gênero: Crime, Drama, Romance
Duração: 104 minutos.

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