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Esse não foi o primeiro longa metragem do Homem-Morcego nos cinemas. Em 1966, Lesli H. Martinson trouxe para as telas o ótimo Batman: The Movie, filme baseado na popular série de televisão que trazia o imortal Adam West como Batman e Burt Ward como Robin contra o Coringa de César Romero, a Mulher-Gato de Lee Meriwether, o Pinguim de Burgess Meredith e o Charada de Frank Gorshin. Fiel a seu programa, a obra era carregada pelo tom camp, quase autoconsciente, característico da comédia que o Morcego também vivia nas aventuras galhofas de seus quadrinhos na época.

Você, caro leitor, pode achar que fora Christopher Nolan com seu Batman Begins que mudou e consolidou definitivamente o tom mais sóbrio e sombrio que se tornariam regra para os filmes subsequentes do Cavaleiro de Gotham. Ledo engano. Christopher Nolan, de fato, reergueu o herói com sua visão ultra-realista após a patacoada e chacota que foram Batman Eternamente e Batman & Robin, que representaram o ponto mais baixo da carreira cinematográfica do herói encapuzado. Entretanto, ficou a cargo de Tim Burton, em 1989, iniciar a tendência dos filmes de heróis mais adultos, pesados e sombrios – não necessariamente realistas, já que nunca abandonou o elemento fantástico que os personagens dos quadrinhos carregam consigo – que elevariam o subgênero para algo a mais do que os filmes camp de verão, desvencilhando a imagem do Batman com a limitação da visão da série de Adam West.

O frenesi foi enorme. Ao passo que era um dos blockbusters mais aguardados de todos os tempos – camisas, acessórios, tatuagens e diversos viraram moda – também haviam diversas controvérsias entre os fãs relacionados com a escolha do pdiretor e seu estilo costumeiro, ator principal e ator coadjuvante com etnia inversa à dos quadrinhos. Qualquer semelhança com os dias atuais não é mera coincidência.

Burton, que não tinha um conhecimento prévio extenso do personagem, decidiu seguir por colocar sua própria assinatura e visão daquele mundo, como bom artista que é -algo em falta hoje com os filmes de heróis. Mas engana-se quem pensa que Burton foi algum tipo de invencionista que deturpou e se apropriou da criação de Bill Finger e Bob Kane. No pouco tempo que teve para se atualizar e entender o lore do Cruzado Encapuzado, o diretor mostrou profunda compreensão de diversos elementos que fazem o Cavaleiro das Trevas ser o que é. A começar por Gotham City.

O diretor entende que Gotham é um personagem próprio. E nada melhor do que ela para ser vítima de sua insana criatividade visual. A Gotham de Batman, claramente inspirada em Metrópolis de Fritz Lang, com estética dos anos 30 e influenciada artisticamente pela via expressionista alemã é viva, respira, tem personalidade. Burton compreende que todo cinema – seja qual for seu estilo – parte a partir de um determinado ponto da realidade e que, para o conceito de realidade aumentada se efetivar bem na tela, é preciso exibir pontos chave de seu espaço e de detalhes de comportamento dos que lá habitam, o link com o público para haver identificação básica para só depois quando o elemento fantástico ou destoante entrar naquele universo, não soar forçado. Burton filma cidadãos, ruas, trânsitos e se utiliza de uma extensa gama de planos gerais e abertos para situar o espectador na ambientação.

O diretor demonstra ter a mesma sagacidade também na apresentação dos personagens. Seguido de uma cena de um assalto a um beco – que leva o espectador a pensar que se trata da morte dos pais de Bruce Wayne e subverte as expectativas – o Batman surge quase como um vilão, de forma apavorante o bastante para impressionar os pequenos, abrindo suas asas e proferindo a icônica “I,m Batman”. Já Jack Napier é introduzido de forma folgada, já com as cartas e seu terno. O Coringa tem duas introduções: uma na cadeira de operação, em baixa luz, olhando para o espelho, rindo de sua aparência e, por fim, subindo as escadas, assustando o doutor com seus instrumentos ensangüentados. A segunda, em uma sequência esplêndida, iniciando nas sombras, por uma vingança contra seu ex-chefe ao som de “Kitchen, Surgery, Face-Off”, o vilão abraça sua teatralidade ao anunciar seu novo nome e assassina o chefão do crime. Todas memoráveis.

Para a história, Sam Hamm e Warren Skaaren, buscaram inspirações em Piada Mortal de Alan Moore e Cavaleiro das Trevas de Frank Miller, ambas HQs oitentistas da era adulta dos quadrinhos, além de, claro, pequenos acenos à primeira geração de Bill Finger e Bob Kane em um mix com o absurdo da série de Adam West. Começando como um filme de máfia em que acompanhamos Jack Napier sendo traído por seu seu superior por ciúmes a uma mulher e voltar como o vilão Coringa, planejando uma vingança contra o Morcego que o transformou no palhaço e buscando reconhecimento e controle através da crítica social e teatralidade. Perceberam como não mencionei Bruce Wayne?

A resposta pra isso é clara. Burton e ambos roteiristas não estavam interessados em explorar com um arco dramático bem definitivo e linear Bruce Wayne. Apesar de ter cenas mais íntimas sobre o trauma de seu passado em flashbacks ou interações bem humanas e descontraídas com Vicky Vale durante um jantar, o objetivo maior estava em retratar o Batman como lenda. Algo maior e pouco acessível. Perceba como o personagem título demora a aparecer sem o uniforme e como o próprio herói encapuzado se limita a cenas pontuais. O mito em torno de sua presença alegado por diversos personagens é o que constrói a sustância. Um ser misterioso, sábio, experiente e decidido mas fundamentalmente instável como vemos na cena essencial de Bruce gritando e se revoltando com o Coringa no apartamento de Vicky.

O núcleo jornalístico, formado por Vicky e Alexander Knox é divertido de se acompanhar mas é falho em algumas tentativas de se fazer humor ou empurrar a história para frente. O que vale mesmo é a jornada do vilão e seu contraste com o herói. Coringa é a antítese de Batman. Colorido, excêntrico, falastrão, brincalhão e violento contra um herói sério, centrado, quase calado e monocromático. O fato de ambos estarem conectados por serem resultados de suas criações em uma coincidência forçada de roteiro é compreensível em termos de circularidade temática mas trata-se de uma decisão digna de torcer o nariz se levarmos em conta a falta de precisão de fidelidade para com a fonte dos quadrinhos.

Ou seja, dentro do subgênero, Burton também foi o primeiro nome que fez valer a máxima “o herói se define por quão bom é o seu vilão”. Temos uma trama centrada no antagonista em que o contraste, a rivalidade e a ameaça são elementos importantes para o miolo do filme. O que havia chegado mais perto disso era o Zod de Terence Stamp em Superman II, mas Zod não teve o mesmo impacto sobre o herói, tema, influência e tempo de tela tanto quanto o Coringa de Jack Nicholson. Fico feliz em revisitar uma obra que prioriza esse campo de foco frente à tantos antagonistas genéricos e esquecíveis que enfrentam os heróis nos dias atuais.

A trama se atropela a partir de certo trecho da obra, descambando para um plano absurdo e galhofa do vilão e decisões que fazem o tom geral da obra oscilar. Como se o filme que se iniciou estivesse lutando contra as heranças da série de televisão. O ritmo também pode se revelar pouco digestivo para alguns, pela falta de real desenvolvimento em jornada dos personagens e pelos rumos que alguns podem julgar como bobos e simplistas que são seguidos.

A montagem de Ray Lovejoy se arrisca ao tentar uma estrutura semelhante ao que ocorre nos quadrinhos, com eventos e linhas narrativas bem delineados se cruzando esporadicamente mas com cenas precisas que revelam muito sobre os personagens e o mundo à sua volta, onde cada cena supostamente teria que contar, tentando evitar o filler. Obviamente, nem sempre Burton e Lovejoy são bem sucedidos mas a tentativa é válida e só acrescenta ao aproveitamento do visual estilístico do diretor e do trabalho de cenografia e setdesign. A cinematografia de Roger Pratt auxilia com o foco em exaltar as cores que dão vazão a teatralidade e ao trabalho cênico do fantasioso.

Onde Burton erra, de fato, talvez seja na ação, engessada. Não sendo especialista dessa área, o diretor aparentar ter dificuldade para elaborar sequências inventivas e complexas. O acerto se concentra no embate final, menos automático, envolvendo uma luta na igreja – Batman tendo de lidar com seus pecados e falhas enquanto herói – e que termina em sua concepção com uma referência muito bem vinda a Um Corpo que Cai, de Alfred Hitchcock.

Michael Keaton como o justiceiro e o milionário, surpreendendo a todos, convence o suficiente e, através de sua interpretação serena e confiante, com pinceladas de humor, dramaticidade e cenas mais emotivas, entrega o que se espera de uma versão particular que difere de Adam West e que se crava como o verdadeiro oposto do Clark Kent/Superman de Christopher Reeve. Um herói pouco expressivo mas amigável, relacionável e consistente. Jack Nicholson se rende o teatral e a instabilidade de seu Coringa de forma exemplar mas enfrenta um problema que irá depender da interpretação pessoal do espectador/fã. Como sua origem é contada, inclusive com direito a um nome – seja ele verdadeiro ou não – alguns podem alegar que o Coringa da vez é apenas Jack Nicholson interpretando a versão mais solta e insana de Jack Napier e não o verdadeiro Coringa. O vilão colorido tem falas e objetivos advindos de Napier e mantém muito de suas características, logo a ligação imediata com o personagem dos quadrinhos pode soar distante por uma certa perspectiva. Assim como Burton, o Coringa é um artista e enxerga o mundo de forma distorcida, abraçando sua aparência caricata com atitudes despreocupadas com a racionalidade. A cena no museu é um exemplo excelente disso, fora as diversas tentativas do vilão em esculpir a arte em suas parceiras e seu plano ligado à área dos cosméticos -alfinetando a população consumistas excessivamente preocupada com as aparências.

Pessoalmente não vejo problemas. Muita das atitudes e maneirismos do gangster – sim, gangster, isso é clássico – batem com a versão de César Romero – igualmente na interpretação histriônica de Nicholson – e dos quadrinhos pré e pós anos 70. Uma mescla que deu certo e ainda serviu como um personagem próprio. Os diálogos que compõe as falas do herói e do vilão não poderiam ter sido mais acertados. São diversas frases que contribuem para a adição de alguma características da personalidade de ambos e, dentro do contexto, fincam-se como inesquecíveis. Veja aqui alguns dos exemplos.

Kim Basinger entrega uma performance competente e difere da Lois de Margot Kidder , Pat Hingle e Billy Dee Williams – Lando Calrissian – mal registram mas aparentam estarem promissores e confiantes para futuras sequências e Michael Gough trata-se de uma das melhores encarnações de Alfred dessa mídia, com Gough transmitindo todos os traços clássicos do fiel mordomo.

A trilha sonora de Danny Elfman é uma conquista musical. Com um tema principal para o Cruzado Encapuzado que se iguala ao do Superman de John Williams em originalidade e perfeição estrutural rítmica por objetivo, Elfman eterniza a versão como uma das definitivas do cânone do Morcego. Não se limitando apenas ao tema, a trilha em geral é diversa, contando com batidas animadas, tensas, inspiraras em filmes noir, românticas, clássicas como “Waltz to the Death”, sobrando até pra trechos mais pop com Prince como a faixa “Trust”. O trabalho de Elfman é completo e irretocável, compondo um dos melhores setlists de um filme do subgênero.

Batman é um marco no cinema. Assim como a definição de Expressionismo alemão que busca distorção de cenários e personagens, através da maquiagem, dos recursos de fotografia e de outros mecanismos, com o objetivo de expressar a maneira como os realizadores veem o mundo, Tim Burton expressou sua visão de mundo, de Gotham, ao negar o racionalismo e promover a fantasia. Bryan Singer, Sam Raimi, Christopher Nolan e Zack Snyder devem a Tim Burton.

Um homem que deixou sua marca, sua assinatura, que fez um produto facilmente reconhecível como seu e com valor artístico diverso, o que é mais que recebemos hoje em qualquer produção do subgênero. Um influenciador megalomaníaco e criativo que atingiria o ápice em sua próxima empreitada com o Morcego e que, mais do que qualquer outro diretor com as amarras de uma visão realista e calcada, respeitou a teatralidade e o fantástico das páginas dos quadrinhos com uma base sólida. Um diretor que, entrando visto com desconfiança, foi capaz de sair sendo aclamado por algo valioso: a aceitação de sua versão advinda de sua visão própria enquanto arte.


Batman (EUA/Reino Unido – 1989)

Direção: Tim Burton
Roteiro:
Sam Hamm e Warren Skaaren, baseado nos personagens de Bob Kane e Bill Finger
Elenco: 
Michael Keaton, Jack Nicholson, Kim Basinger, Robert Wuhl, Pat Hingle, Billy Dee Williams, Michael Gough, Jack Palance, Jerry Hall, Tracey Walter
Gênero:
Aventura

Duração: 126 min

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