nota-4

O combo remasterizado Batman: Return to Arkham está chegando às lojas em menos de 2 semanas e, antes disso, que tal relembrar a primeira cartada do Morcego na nova geração de consoles?

Depois de dois games extremamente bem sucedidos, Batman: Arkham Asylum e Batman: Arkham City, era hora da Rocksteady dar o próximo passo e elevar mais uma vez o padrão de como se fazer um jogo de super-heróis. Acertando de forma gloriosa em diversos aspectos e errando de forma teimosa em outros, o capítulo final da trilogia é o melhor e o pior da série.

A história se passa após os eventos de Arkham City, onde o Espantalho se une ao novo vilão de Gotham, o Cavaleiro de Arkham (que dá nome ao título), para uma cartada final contra o Morcego e sua cidade. Depois de liberar uma de suas toxinas, a cidade é evacuada e o vilão, enfim, cria o cenário ideal para o caos com somente bandidos, policiais e bombeiros, outros vilões e o Batman dentro de Gotham para se digladiarem.

A premissa, apesar de ser não original e já tendo sido explorada exaustivamente em outras mídias, é adequada e rende uma cutscene inicial fenomenal para contextualizar tudo que, infelizmente, não é superada ao longo do game. A oportunidade perdida que enxergo é o fato da população ter sido completamente evacuada, não sendo possível existirem sidequests paralelas dedicadas a ajudar um cidadão comum, por exemplo, que não seja oficial da lei. Muitos jogos do Cabeça de Teia acertaram em cheio nisso e a Rocksteady com maior tempo de produção poderia ter ousado mais nesse sentido. Uma pena.

O jeito como tudo se desenvolve é acertado. Dessa vez temos um roteiro muito mais focado, diferente do que aconteceu em Arkham City onde uma salada de vilões faziam fila para se meterem no meio da trama. Os personagens mais importantes agora fazem parte das missões da campanha principal enquanto outros integram as missões paralelas. De um lado temos Espantalho, Cavaleiro de Arkham, Hera Venenosa, Bárbara, Jim Gordon, Coringa e de outro temos Duas-Caras, Pinguim, Charada, Mulher-Gato, Vagalume, Morcego, Exterminador, Azrael, Asa Noturna, Arlequina e Robin.

147

Contudo, há um problema relacionado com o vilão titular. Sendo vítima de intenso marketing, o personagem sofre com o mal da previsibilidade, visto que os fãs desse universo nas HQs, desde o primeiro trailer liberado já fizeram a associação correta e os não fãs provavelmente irão adivinhar sua identidade na metade da história. Eu realmente gostaria de ter sido surpreendido ao final mas tudo caminhou exatamente como eu esperava e de forma anticlimática, sem um embate ou momentum à altura.

Se o game erra com o “Cavaleiro de Arkham” o mesmo não pode ser dito do Espantalho, de Hera Venenosa e do Coringa. O primeiro surge mais assustador do que nunca e com final satisfatório, a segunda participa de um arco de redenção e desenvolvimento fora da zona de segurança que me agradou bastante e o terceiro… bem… eu estava em dúvida, após o final de Arkham City, se botar o vilão pela quarta vez dentro da história seria algo benéfico e pouco forçado. Bom, fico feliz em dizer que trata-se de uma das melhores aparições do Palhaço do Crime em qualquer mídia.

Se materializando a partir da mente do Homem-Morcego, que enfrenta o mal de não querer se transformar no Coringa física e psicologicamente, o vilão entra nos momentos corretos com diálogos bem escritos apropriadíssimos a sua natureza e participa de uma sequência musical inesquecível digna de aplausos. A dublagem de Mark Hammill (o Luke Skywalker de Star Wars), imortal, no áudio original, só ajuda e nos passa a sensação de familiaridade necessária. Márcio Simões, na versão dublada, não fica muito atrás em mais um trabalho excelente.

Enquanto a trama psicológica entre Batman e seu nêmesis é realizada de maneira exemplar, a parte física que envolve outras vítimas com a “Doença do Coringa” fica um tanto quanto diluída da trama principal e pode soar forçada para alguns, mas eu divago. A metáfora que isso implica é brilhante e só ajuda na substância do conteúdo do game.

Quanto a família Gordon, em um respectivo momento da trama relacionado a Bárbara eu verdadeiramente me impressionei e achei que o fato seria levado adiante como algo definitivo, o que não aconteceu. Sem querer entrar em detalhes para evitar spoilers, eu, como fã e conhecedor das histórias do personagem, preferiria que a trama tivesse navegado pelas águas mais tortuosas que havia estabelecido e não ter desfeito tudo em mais um daqueles casos “ah, mas não foi isso que aconteceu”. Ao menos, enquanto dura, o fato gera um conflito interessante entre Jim e Batman. O primeiro também muito bem dublado em ambas as versões, enquanto, o segundo, leva enorme vantagem de Kevin Conroy na versão original visto que o trabalho nacional carece de maior emotividade e organicidade.

batman-arkham-knight-gamescom-1-jpg

O combate está mais refinado do que nunca, beirando a perfeição, com “quadrado” para ataque, “triângulo” para defesa e “X” para pular sobre oponentes maiores ou mais equipados que não permitem uma defesa, em uma sequência de botões que se consagra como definitiva e é representada de forma fluida, intensa e viciante com direito a finalizações cinematográficas. A série Arkham já havia marcado a indústria com sua jogabilidade intuitiva e eficiente – Middle-Earth: Shadow of Mordor que o diga – e  agora com Arkham Knight atinge a supremacia.

Tudo fica ainda melhor com o novo modo “Dual Play” em que podemos alternar entre Batman e alguns companheiros – Asa Noturna, Tim Drake e Mulher-Gato – em momentos específicos, dando maior agilidade aos combates e permitindo combos divertidos de serem vistos.
Pena que esses momentos são poucos e, se tratando de Asa e Robin, esperava maior ousadia da parte do game em ser mas incisivo com ambos na história principal. O “Detective Mode” é outro aprimoramento positivo, dando o jogador a satisfação de acompanhar o lado detetivesco do herói como não foi possível nos jogos anteriores.

Onde Arkham Knight peca e acerta ao mesmo tempo na jogabilidade é com o Batmóvel. Com bom controle de direção, peso e poder de fogo, andar com o veículo é gratificante e a sensação é de realmente estar controlando uma máquina invencível, principalmente com o grau elevado de destruição do cenário pouco comum em jogos de mundo aberto dessa escala. Porém, o modo com que o jogo constantemente exige a presença do carro em diversos momentos desnecessários pode se tornar maçante.

Seja com os trechos de combate aos tanques do Cavaleiro de Arkham – repetidos à exaustão – ou com as absurdas pistas de corrida do Charada, a conclusão é que talvez tenha tido Batmóvel demais no final das contas. Em perseguição, o controle do veículo também pode não ser muito preciso, algo perceptível, por exemplo, quando devemos alcançar o “Vagalume”.

maxresdefault

Algo que, de certa forma, pode ser visto como marca da série sem a menor dúvida são os combates contra chefes. Quem não lembra do embate contra o Sr. Frio em Arkham City e contra o Exterminador em Arkham Origins? Infelizmente, o que Arkham Knight tem para oferecer nesse quesito é medíocre. Não há uma luta memorável contra oponentes com maiores atributos físicos como o Cavaleiro de Arkham, Azrael ou mesmo o Exterminador. Outra tremenda oportunidade perdida. O vilão que não decepciona nesse sentido é o Charada – exageradamente caricato na maioria das vezes em que fala ou aparece – com seu traje mecânico. Porém, para a luta de fato acontecer, é necessário passar por todas as provas que Nygma preparou além de ter de pegar todos os troféus – sim, todos! – espalhados pela cidade. Não seria um problema se não fossem tantos (mais de 240).

A estrutura de missões também pode beirar a repetição. A partir de um tempo, o jogador irá notar que está cumprindo os mesmos objetivos, enfrentando os mesmos inimigos, com as mesmas táticas, problema comum em games de mundo aberto. Esse ponto negativo também assola as missões que deveriam vir embutidas com maiores particularidades como quando nos deparamos com as falcatruas do “Duas-Caras” e do “Pinguim” – a conclusão dessas me decepcionaram profundamente – ou quando perseguimos “Vagalume” e o vilão “Morcego”. Pouca variedade, enfim. Ao menos a mecânica permite o jogador diversificar o estilo de jogo, embora duvide que o mesmo não vá encontrar um que o satisfaça e o usará até o final.

O aparato gráfico me surpreendeu positivamente. No PS3, Asylum e City não eram lembrados por suas texturas e resoluções fantásticas e sim muito mais pelo design. Claro, longe de serem jogos feios, mas em ano de Uncharted 2 e Call of Duty: Modern Warfare 2 – no caso de Asylum – e Uncharted 3 e Battlefield 3 no caso de City, é de se esperar que os jogos que não atingissem esse padrão, seja por limitações de hardware devido à não linearidade dos títulos ou qualquer outro motivo, não fossem lembrados como referência nessa área.

Dito isso, os gráficos de Arkham Knight são belíssimos, passando por cima de títulos que vieram antes da data de lançamento deste como The Witcher 3: Wild Hunt e talvez até de Bloodborne. Batman e sua armadura são extremamente bem detalhados, e quando submetidos as gotas de chuva tornam-se um espetáculo de realidade à parte, assim como a capa se movendo enquanto o Morcego anda ou plana sobre a cidade.

Gotham City é uma realidade nos videogames. Apesar de soturna, o trabalho de iluminação e aqui realizado é divino e o design é uma conquista da mídia, desde as ruas, pontes e prédios até a Torre do Relógio, tornando tudo mais imersivo. A arquitetura é respeitada e extremamente fiel aos quadrinhos. A cidade tem personalidade, respira e é um personagem a parte como deveria ser, mesmo sem os cidadãos comuns, agradando a qualquer fã que se preze.

2559799-bak_sshot075

Falando em fã, o serviço aqui realizado para esses é excepcional. Desde sequências cinemáticas inteiras dedicadas a recriar momentos icônicos dos quadrinhos – A Piada Mortal e Morte na Família – e skins com os uniformes clássicos do herói, até menções a outras cidades e personagens da DC Comics, revelando um universo que pode e deve ser expandido tomando diversas liberdade criativas sem desrespeitar o material fonte. O futuro é promissor e estou curioso para saber o próximo passo da Rocksteady com esse universo.

Para concluir, estamos diante de um raro caso caso de game que entende a natureza de seu protagonista e da relação com seu nêmesis tão bem quanto a mídia em que esses personagens surgiram – feito que nem o cinema conseguiu alcançar completamente, vale salientar -. Existem falhas, é verdade, algumas imperdoáveis como a exigência contínua do Batmóvel, o excesso de troféu colecionáveis do Charada e diversos elementos anticlimáticos na trama e outras mais brandas, comuns em jogos do gênero, como a repetição da estrutura de missões mas que não afagam completamente o triunfo da recriação vívida com uma direção de arte fabulosa de Gotham City em uma história maior em escala mas intimista em substância.

Ao terminar o game, não me restaram dúvidas, ele assim como a trilogia, estão à altura das melhores histórias do herói nos quadrinhos e isso, felizmente, não é dizer pouco.

Comente!