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É até impressionante notar como os dois maiores heróis de todos os tempos tiveram destinos muito similares no cinema. Basta notar os quatro filmes da era do Superman de Christopher Reeves no cinema. Um primeiro filme épico, fantástico, emocionante e retumbante, onde se é impossível não se encantar com a história do Superman sendo soberbamente feita e contada; e um segundo filme optando por uma escala íntima e dramática para o herói, enfrentando desafios ainda maiores, em uma continuação que não diminui o nível de seu antecessor (contando com a Donner’s Cut isto é). E depois as coisas começam a entrar na vergonha alheia com um terceiro filme completamente distoante do personagem, mais parecendo uma comédia do que um filme do Superman. E um quarto filme que é melhor esquecer que sequer existe.

A mesma coisa se repetiu com o Homem Morcego. Um ótimo primeiro filme que reintroduziu o herói no cinema com seu tom sombrio certeiro e um vilão inesquecível; uma continuação ainda melhor e que demonstrava uma história mais trágica e sortuna no universo gótico do herói. E depois, outros dois filmes que são perfeitos sambas do Morcego doido. Que distoam por completo do tom sério, gótico e sombrio dos filmes anteriores e se tornam escandalosos filmes de ação coloridos com comédia extremamente caricata. E eis que se iniciou aqui em Batman Eternamente, a queda do Homem Morcego no cinema.

Logo após um confronto intenso com o perigoso Duas Caras (Tommy Lee Jones), Batman (Val Kilmer) se vê confrontado com a atração sedutora de uma admiradora, a Dra. Chase Meridian (Nicole Kidman) no qual seu alter ego Bruce Wayne também começa a se atrair. Ao mesmo tempo que se vê com a responsabilidade de ser um tutor para o jovem órfão Dick Grayson (Chris O’Donnell) que busca vingança contra a morte de sua família. No mesmo tempo em que um novo perigoso vilão aparece em Gotham City denominado de O Charada (Jim Carrey) que planeja um plano perigoso para atormentar o povo de Gotham City e trazer o fim ao Batman.

Não parece mesmo a mais interessante das tramas não é mesmo? Ainda mais vindo de um filme do Batman que só vem a soar como o básico do clichê e até certo ponto bizarra em pontos. Mas isso nem é o maior dos problemas de um filme que se define exatamente por essa palavra: extremamente bizarro.

Basicamente culpam isso ao fato do filme anterior – Batman: O Retorno de Tim Burton – ter sido muito sombrio e “violento” para o público família geral. Com os estúdios assim decidindo levar a franquia para um tom mais leve, descontraído e colorido para o agrado do público geral, e pra isso chamaram um diretor interessado na mesma pegada, Joel Schumacher, que prometeu aqui trazer o tom e vibe da antiga série com Adam West de volta para o universo do Homem Morcego no cinena.

Pois é, não é de hoje que vemos estúdios não entendendo patavinas do material base em que adaptam para o cinema, e apenas visam um possível sucesso lucrativo, ignorando qualquer resquício de fidelidade ao material original. Porém, por mais estranho que isso possa soar, Schumacher mostra, até certo ponto, ser um conhecedor da mitologia e história do universo do Batman. E acredite, ouvir isso de um filme cheio de incongruências de tom e bizarras escolhas de filmagem e desconjuntada estrutura narrativa, é um grande elogio!

O próprio Schumacher já disse ser um grande fã de Batman: Ano Um de Frank Miller e sonhava em adaptá-lo um dia. Ele, claro, não o faz, mas insere alguns elementos pontuais do mesmo em alguns momentos flashback psicológicos de Bruce Wayne (as melhores cenas do filme devo dizer). Até a história de origem de Dick Grayson e seu rumo a se tornar o Robin é tal e qual a sua história original criada por Bob Kane e que recebera outras interpretações similares ao longo de anos: sua família sendo um grupo de acrobatas de circo chamados “Os Graysons Voadores”, e que foram assassinados a sangue frio por um mafioso, aqui colocado como sendo o Duas Caras, e depois com Bruce Wayne o colocando sob sua tutela, e mais tarde seu parceiro no crime. Olhem só, outro elemento feito de forma decente e leal.

E Chris O’Donnel nem faz feio em sua interpretação. Ele não é lá um bom ator, mas entrega um jovem Dick Grayson carismático, petulante e leal ao seu herói tutor. Só se estraga por fazer alguns movimentos acrobáticos bizarros quando tá lavando a roupa (sim tem uma cena devotada a isso). E sua relação com Bruce Wayne/Batman é bem fidedigna. A forma com que Bruce se vê espelhado nos sentimentos de vingança e querer fazer justiça com as próprias mãos de Dick, e como a parceria de ambos é construída através do extremo respeito e admiração do jovem para o herói, e através dele consegue também se tornar um. Um arco bem decente do filme!

Até o Duas Caras de Jones é basicamente aquilo o que você vê. O ex promotor de Justiça Harvey Dent que sofreu um ataque violento do chefe Mafioso de nome Sal Maroni que lhe desfigurou metade do rosto. Até o Charada, tematicamente, é exatamente aquilo, o vilão e a ameaça intelectual e psicológica contra o Batman. E o visual de ambos os vilões parecem tirados direto dos quadrinhos com designs coloridos espalhafatosos bem ótimos até. Mas o que estraga todas essas encarnações tão, aparentemente, leais ao material original?! Exatamente a vergonhosa interpretação caricata e piegas de cada um desses elementos.

O problema nem é querer resgatar o espírito da série original de Adam West, o problema é exatamente por não conseguir capturar-lá em nenhum sentido. Enquanto aquele era um seriado de visão ingênua e proposta focada na diversão, o filme aqui se baseia em ações explosivas carnavalescas e algumas atuações “over the top” intensamente exageradas.

As performances de Jones e Carrey se resumem, basicamente, a gritos estardalhaços e caretas multifacetadas infantilóides. Com Jones parecendo fazer uma imitação das risadas constantes do Coringa de César Romero e das caretas de seu colega Carrey. Esse que basicamente atua como ele mesmo fazendo o seu insano hilário “over the top”. Fazendo dos dois personagens, e de basicamente todas as suas cenas, parecendo um perfeito desenho animado. Se o primeiro filme era um filme do Batman dirigido por Tim Burton e o segundo um filme de Tim Burton estrelando o Batman, Batman Eternamente parece um filme live-action dos Looney Tunes com os personagens do Batman.

Aliás, esse filme era pra ser um reboot dos filmes do Burton certo? Questiono isso pois, até onde parece, o filme se vende sim como uma continuação dos filmes anteriores, apesar de algumas várias incongruências. E nem sequer estou falando da mudança dos atores do elenco. Embora seja bizarro ter visto o ótimo Billy Dee Williams como Harvey Dent no filme original e agora o ver trocado por Tommy Lee Jones, que também é ótimo mas só está passando vergonha aqui. E Kilmer também é um bom ator quando bem dirigido, mas aqui ele se resume a fazer uma imitação fraca do Batman e do Bruce Wayne de Michael Keaton. E sua voz rouca quase que parece um pré Batman de Christian Bale. Com os únicos atores do filme original mantidos até agora sendo Michael Gough com o seu sempre ótimo Alfred e Pat Hingle com o seu Comissário Gordon balofo do bem.

Mas as incongruências que falo se resumem a fazer constantes menções aos filmes anteriores, mas ao mesmo tempo descartar outras. Como por exemplo quando Bruce está falando sobre seus sentimentos para com a Dra. Chase, e enfatiza que nunca se apaixonou antes. Então o que foi aquilo com a Mulher-Gato no filme anterior? Um Bat-Crush?! Falando na tal Doutora, que personagem mais descartável é essa que foram arranjar para Nicole Kidman interpretar?! Que se resume basicamente a jogar charme e seduzir o Batman como uma tarada sexual com tesão, e dar discursos de psicologia e moral de quinta série quando divide a cena com Bruce Wayne.

Se o elenco de ricos personagens fora um dos grandes destaques do filme anterior, nem preciso me alongar em dizer aonde Schumacher errou fracamente aqui. Embora ele até acerte em outras de forma até interessante, no visual. Sua câmera não é lá nada inspirada, se resumindo à ângulos holandeses e algumas movimentações longas mais classicistas, um cisco do bom diretor que ele era em outros filmes.

Mas em outros departamentos, temos um belo filme visualmente falando. Nada que chegue aos pés do visual gótico riquíssimo de Batman: O Retorno, mas mostra vívidas colorações. E mostra um set design bem parecido com a Gotham do primeiro filme e que por momentos lembra a Batman: The Animated Series (quem dera fosse só essa parte que lembrasse um desenho animado). E os efeitos visuais se mostram até bem ótimos, e bem pouco datados. Com destaque para uma boa mistura de miniaturas práticas com CGI muito bem dirigidas até. Até a trilha sonora de Elliot Goldenthal, mesmo não sendo nenhum Danny Elfman, cria um tema principal excitante e aventuresco.

Em meio de tantos erros irritantes e caricatos, é ainda possível tirar boas coisas dessa investida de Schumacher com o Batman. O mesmo infelizmente não pode ser dito do seu próximo filme após esse, que selou o destino outrora mencionado dos filmes dos grandes heróis da DC, assim como foi com o Superman, que recebeu um quarto filme vexaminoso fadado a cair no esquecimento. Enquanto ainda se é possível tirar um resquício de diversão aqui e ali em meio a tantas balançadas de cabeça e bocejos de certo tédio. Uma quebrada diversão da sessão da tarde.

Batman Eternamente (Batman Forever – EUA – 1995)

Direção: Joel Schumacher
Roteiro: Lee Batchler, Janet Scott Batchler e Akiva Goldsman baseado nos personagens de Bob Kane e Bill Finger
Elenco: Val Kilmer, Tommy Lee Jones, Jim Carrey, Nicole Kidman, Chris O’Donnell, Michael Gough, Pat Hingle
Gênero: Ação, Aventura
Duração: 121 min

Especial DC Comics

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