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O segundo episódio da terceira temporada de Better Call Saul traz velhos personagens já conhecidos pelo público, um ritmo que dosa bem entre o investigativo e o cômico, muito bem dividido entre os personagens e ainda avança a narrativa proporcionando ao protagonista um desafio que o deixa desnorteado e faz o público ansiar pelo próximo episódio. A série começa com Chuck a espera ansiosamente de alguém, sempre vigiando entre as cortinas e vidraças de sua casa. Somos apresentados também a um personagem novo, que está na casa de Chuck jogando baralho. O ambiente, com pouca luz e o enquadramento fechado contribui para o suspense no começo do episódio.

Em vez de fazer um corte direto para o protagonista, a narrativa segue para o Mike, a busca da pessoa que o está seguindo. A cena feita, assim como no outro episódio, quase que completa sem fala, apenas com a trilha sonora e o jogo de câmera que desfila pelo ambienta, aproximando e se afastando, brincando de esconder detalhes e revelando em seguida, deixando o público sempre atento ao que virá depois. Alguns minutos depois, somos apresentados a um novo personagem na série. Nem tão novo assim na verdade, mas a apresentação dele, com a câmera distanciando-se de Mike em seu carro, abrindo até enquadrar o logo do restaurante, tomamos conhecimento de quem já seja. Los Pollos Hermanos.

É justamente as cenas que envolvem Los Pollos Hermanos são as mais interessantes na série. Se na primeira cena há uma excelência na direção e fotografia criando um clima de mistério, a segunda sequência envolvendo o restaurante consegue unir o investigativo com o cômico. É exatamente essa característica peculiar de Breaking Bad e também de filmes dos irmãos Coen que permeia o episódio. Estamos diante de uma comédia de erro equilibrada para nos fazer ri e suar frio na mesma cena.

Mike pede ajuda a Jimmy para vigiar um personagem que poderá entregar uma mochila a alguém dentro do restaurante. A dinâmica do próprio personagem, que é uma pessoa comum dentro de uma situação que requer experiência e discrição cria a comicidade da cena. Ver, por exemplo, Jimmy comendo o frango e observando cada pessoa da restaurante com certa inquietação e ansiedade, assim como ver o próprio vasculhando um lixeiro no meio do restaurante a procura de um objeto. Por outro lado, ainda é possível criar expectativas quando, mesmo sob enquadramento desfocado, é possível enxergar um personagem já conhecido da sua genitora. Gus Fring.

O personagem é apresentado em segundo plano apenas pelos detalhes visuais de suas vestimentas, a camiseta amarela com a gravata preta. O comportamento padrão de limpar a mesa, já conhecido do público, alimenta as expectativas para uma ação do personagem ou algum detalhe escondido em sua postura. O aguardado encontro entre o protagonista e Gus acontece justamente quando o advogado vai revirar o lixo no meio da lanchonete, afirmando ter perdido seu relógio lá dentro. Sutil e inteligente.

O que mais me deixa feliz, então, é terem engatado na história de Jimmy McGill e seu irmão Chuck. Em uma cascata de sentimentos, que sai do Ernesto, receoso por contar para Kim sobre o que ouviu da gravação de Chuck, pela estabilidade da advogada, mesmo preocupada, ao contar para Jimmy e, ele por fim, demonstrando não se preocupar, mas corroendo de raiva por dentro, sentimento exposto pela ação de brutalidade que Jimmy arranca pedaços da tintura da parede e sai até a casa do irmão. Cortando para uma cena de maior comicidade fisica, protagonizada por Howard, que sai pulando de casa em casa até chegar na casa de Chuck, pois ele não deveria entrar pela frente para não revelar o plano de Chuck.

E o plano era exatamente esse. Fazer com que Jimmy se exaltasse e fosse até a casa de Chuck, destruindo provas (filmado com uma câmera parada, ao invés de uma câmera tremida que segue o personagem, geralmente usada para representar uma instabilidade emocional) e tendo como testemunhas o personagem até então desconhecido da série e sem explicações e o próprio Howard. Jimmy caiu duas vezes nos planos do irmão, ainda presente uma faceta ingênua, longe do ardiloso Saul Goodman.

É interessante como a série constrói o personagem a partir das tentativas de laços que Jimmy constrói. Seja com a Kim, o Mike ou seu irmão Chuck, Jimmy parece estar sempre imperfeito para eles. E cria uma necessidade de sempre tentar ser o melhor para eles para que haja uma aceitação como reflexo. Tudo isso cai como um peso no fim desse episódio quando Jimmy, enganado novamente, sente aprisionado por seus sentimentos e por suas próprias relações. Fica então a expectativa da desconstrução de Jimmy McGill e aos poucos a construção de Saul Goodman.

A série segue no mesmo ritmo do personagem. Pois bem, que venha Saul Goodman, ficaremos muito feliz com você.

Better Call Saul – 03×02: Witness (Idem, EUA – 2017)

Criado por: Vince Gilligan, Peter Gould
Direção: Vince Gilligan
Roteiro: Thomas Schnauz
Elenco: Bob Odenkirk, Jonathan Banks, Rhea Seehorn, Patrick Fabian, Michael McKean, Giancarlo Esposito
Emissora: AMC
Gênero: Drama

Duração: 50 min

Confira AQUI o guia de episódios da temporada.

Escrito por Filipe Gabriel

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