» Siga o Bastidores no Facebook , Instagram e no Twitter e fique por dentro de todas as notícias! «

É um desafio, para qualquer showrunner terminar a temporada com o melhor episódio, não apenas da temporada, mas de toda a série. Lantern é exatamente isso, há uma erupção de sentimentos por parte dos personagens, movimentos de câmeras mais livres, longe daquelas cenas puramente entrecortadas e fecha a história adequadamente satisfazendo o enredo em si, consciente de seus personagens, mas também o próprio público, por não necessitar manter prolongamentos e retornos desnecessários. Para este final, pretendo desenrolar o texto baseado em quatro personagens.

O primeiro deles é Nacho (Michael Mando). Da metade da temporada em diante vimos o personagem se distanciar de Hector Salamanca (Mark Margolis) e até planejar sua morte. No episódio anterior, seu plano parecia não ter funcionado. Neste episódio, vemos Nacho em sua decadência, ao ver Hector se aproximar do pai e lançar antipatia sobre o mesmo. Michael Mando, assim como foi em toda a série, não transparece os sentimentos à flor da pele em seu personagem. Entende que Nacho não é explosivo e, até quando o momento obriga, vemos uma explosão rápida e não gritante. Em Lantern não foi diferente, no momento que deveria fazer uma escolha, o nervosismo é percebido em sua respiração, assim como nos enquadramentos desfocados e na trilha sonora eletrônica que contrasta com as trilhas usualmente da série.

Better Call Saul poderia ser uma série com qualidade plenamente na atuação. Claro que ela vai além disso, o que é notável nas sequências de Kim Wexler (Rhea Seehorn). Com a mesma lógica de atuação de Michael Mando, Rhea Seehorn não tem uma personagem que requer uma explosão de sentimentos. Kim, em toda a série, repreende seus sentimentos e os excreta, pouco a pouco, por meio de seus diálogos ou, em contexto mais intimista, a câmera enquadra seus olhares ou ações rotineiras. Neste episódio, vemos uma Kim mais livre, solta e espontânea. O acidente sofrido no final do último episódio fez com que a personagem repensasse sua vida e suas prioridades. Ao invés de, durante o retorno à casa, se debruçar entre papéis de seu cliente, resolve ir a uma locadora de filmes e passar o dia assistindo-os, alguns, até mais de uma vez. Essa calmaria em seu espírito é repassado ao público em detalhes, desde sua postura até o enquadramento de seu semblante mais relaxado.

O oposto de ambos é Jimmy (Bob Odenkirk), ou Saul, como queiram chamar. A irreverência do personagem, que Bob Odenkirk sabe lidar bem, é o triunfo nessa série. O desenvolvimento de Jimmy em Saul, mas com o espírito ainda de Jimmy, como vimos neste episódio. Há, aqui, o resquício de moralidade presente no personagem, a qual não imaginávamos que poderia haver, ainda, um senso de empatia em Jimmy. O incômodo em ver as consequências de sua ação a um ser tão inocente e tão delicado ficou presente durante o episódio. Não uma simples representação de humanidade ainda presente em um personagem recheado de caricatura na série Breaking Bad, mas como um pontapé em fazê-lo sentir que suas ações têm consequências que podem afetar prejudicialmente pessoas que não são ruins em sua concepção moral. É o caso da senhora Irene, repleta de energia e felicidade no episódio passado, mas aqui desarmada de amor em seus ombros caídos e seu sorriso fugitivo.

O grande destaque do episódio, por sua vez, fica com Chuck (Michael McKean), um personagem que carrega uma força de ambição e pretensão em seus dizeres e ações. Sempre convencido de que está melhorando sua condição, Chuck engana a si mesmo, em uma sequência maravilhosa, ditada pela excelente edição. Vemos Chuck, angustiado destruindo sua casa com uma marreta (em alguns momentos lembrava até O Iluminado) à procura de um fio solto que poderia estar lhe provocando o desconforto. Para todos, com uma postura convicta, Chuck avisava que estava melhorando, mas, desde o episódio passado, vemos Chuck se deteriorando aos poucos. Há a cena de sua despedida da empresa, logo depois de um falso combate que Chuck achava que poderia vencer (de certa forma venceu, mas não o premio que queria). Nesta cena, há, no personagem, a personificação do desgosto com todos aqueles acontecimentos. Tudo isso acumulado para um final que nos faz pensar o quão forte pode impactar Jimmy e, consequentemente, Saul. Estamos falando de uma consequência, indireta das ações de Jimmy, que poderá não ter voltas para as próximas temporadas.

Assim finaliza a melhor temporada de Better Call Saul. Um episódio que usa bem sua câmera para desfilar entre os personagens, amplifica seus sentimentos e semblantes, possui uma delicadeza com eles. Tem, em seus bons momentos, uma edição afiada, que dá tempo ao público a sentir os anseios de seus personagens, assim como não desbalanceia o ótimo ritmo do episódio. Por fim, um detalhe tão importante como a trilha sonora desse episódio que dá a sensação de personagens mais intimistas, como em Chuck e em Nacho, trilhas bem parecidas e que demonstram um abalo emocional em ambos.

Aqui, não resta dúvidas, Lantern é o melhor episódio da temporada, e um dos melhores da série.

Better Call Saul – 03×10: Lantern (Idem, EUA – 2017)

Criado por: Vince Gilligan, Peter Gould
Direção: Peter Gould
Roteiro: Gennifer Hutchison
Elenco: Bob Odenkirk, Rhea Seehorn, Michael Mandon, Michael McKean, Giancarlo Esposito, Jean Effron
Emissora: AMC
Gênero: Drama
Duração: 55 min

Confira AQUI nosso guia de episódios da temporada

Comente!