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De forma quase transcendental, a HBO nunca nos decepcionou com seu conteúdo original. Navegando entre o complicado gênero cômico e o drama passível de clichês novelescos, suas séries sempre encontraram algo novo para nos entregar – e fizeram-no de forma espetacular. Só nos últimos anos, podemos citar produções como Veep, Magnífica 70, Westworld, entre outros. E agora no ano de 2017, a emissora deu mais um passo em sua ousadia com a adaptação do romance assinado por Liane Moriarty, Big Little Lies.

A história, assim como outras, se resvale em resquícios de outras obras do gênero de suspense: nos primeiros cinco minutos, acompanhamos dois policiais adentrando um baile de máscaras cercado por viaturas e faixas de contenção. Ao que tudo indica, um assassinato aconteceu e agora, como é de se esperar, é necessário encontrar o culpado, mas não da forma convencional. Já neste comecinho do primeiro ato, encontramos a beleza da direção de Jean-Marc Vallée e do roteiro escrito por David E. Kelley. A história se desenvolve em duas montagens paralelas que em momento algum se intercalam ou deixam a desejar no tocante à coesão narrativa: em determinado momento, a cena se quebra e passamos a observar os eventos a partir da perspectiva de uma pessoa desconhecida, com a visão borrada e a respiração ofegante – e, neste caso, a técnica em whip utilizada na gravação contribui para a total aderência do público à atmosfera criada.

Por incrível que pareça, esta não é a trama principal. Diferentemente de produtos audiovisuais do gênero, o uso do flashback e do flashforward não entra aqui como um recurso estilístico próprio da identidade da série. Claro, essa montagem é necessária para indicar o fluxo de tempo e separar passado e presente, mas Big Little Lies encontra outras formar de marcar essa ruptura. Além dos dois pontos de vista apresentados, temos a subtrama que se passa na delegacia de polícia, cujos cortes bruscos e dinâmicos nos apresentam a diversos personagens, e a linha narrativa principal, que segue a história de três mães: Madeline (Reese Witherspoon), Celeste (Nicole Kidman) e Jane (Shailene Woodley).

A série é ambientada na cidade portuária de Pirriwee. Logo, é de se esperar que sua apresentação seja perscrutada por tons próprios de tal paisagem e por planos aéreos. Isso ocorre, mas de forma sutil e cabalística: vemos constantemente sequências que nos apresentam a pegadas na praia, cuja calmaria e estranha morbidez entra em choque quando ondas se quebram de forma impetuosa nas rochas do precipício. Ainda não entendemos completamente o significado disso. Entretanto, podemos prever que os ânimos serão levados a níveis imensuráveis durante o decorrer dos acontecimentos.

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O roteiro preza para que os personagens carreguem a desenvoltura nas costas. Dessa forma, durante a investigação policial, as testemunhas relatam sobre cada uma das protagonistas, iniciando por Madeline. Na série, Witherspoon encarna o que talvez seja uma das personagens femininas mais independentes dos últimos anos, mãe de duas garotas e recém-divorciada, cuja ardente personalidade é alvo de constantes olhares tortos. Para aqueles que cresceram assistindo a Meninas Malvadas ou Patricinhas de Beverly Hills, podemos identificá-la como uma versão mais ousada de Regina George, mas com alguns toques de fraqueza inerente que dão às caras ao longo do episódio.

Sua natureza é puramente manipulativa, como vemos durante a sequência do interrogatório. Todos ali sabiam de suas segundas intenções, com ênfase em seu conhecimento da vida pessoal de todos. Sim, Madeline emerge de cara como a antagonista principal dos habitantes da cidade, mas ao longo dos primeiros 55 minutos vemos que não é muito bem assim que funciona. Ela lida com seus problemas de forma autoritária e sabe muito diferenciar amizade de profissionalismo, assim como carrega consigo o dom de “estar sempre certa”, ainda que esteja equivocada.

E enquanto todos possuem atrito com a personagem supracitada, Celeste emerge como uma de suas poucas amigas. Sua personalidade entra em constante choque com a de Madeline, visto que aquela é bem mais amorosa e apaziguada. Mãe de gêmeos e casada com um homem muito mais novo – o que se torna base para a reafirmação de um tipo de tabloide da cidade. Kidman atua de forma muito mais contida na minissérie, quando a comparamos com outros papéis; porém, é interessante dizer que sua personagem tem traços instantâneos de Grace, protagonista do longa de Lars Von Trier, Dogville. Sua resignação e seu amor pelo próximo são inerentes ao seu modo de agir, mas seu superego por vezes dá margem ao ciúme e à possessão, principalmente com a entrada de Jane na vida delas.

Os eventos se movem com um ritmo bem demarcado, apesar de deslizarem no começo e constituírem um primeiro ato oscilante. Woodley é o elemento estrangeiro que marca uma desestruturação brusca na trama. É nítido o contraste entre sua humildade com a ostentação materialista das outras duas protagonistas: enquanto Madeline e Celeste se banham em mansões pinceladas por tons oníricos de dourado e verde e por uma essencial presença da futilidade, Jane é a construção arquetípica da mudança: ela mora numa casa modesta, com poucos quartos que se fundem um ao outro e com seu único filho – uma versão jovem do icônico Ziggy Stardust (a.k.a. David Bowie). Sua vida, ou ao menos o pouco que conhecemos em Somebody’s Dead, é constantemente tomada por elementos que entram em contraposição, seja no âmbito intimista ou seja pela direção de arte própria de sua linha narrativa.

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De qualquer modo, a chegada desta personagem logo chama a atenção de Madeline, que logo a classifica como sua nova amiga. Celeste deixa transparecer uma pontada de ciúme gradativo e que pode vir a explodir mais para a frente. Qualquer que seja suas relações, a química entre as protagonistas é invejável e logo destoa da massificação dos outros habitantes da cidade, cuja linha de pensamento igualitária os permite a trajar máscaras sociais quando perto delas e a despejar todos os podres atrás das câmeras.

Talvez uma das principais personalidades – e que entre como uma catalisadora importante para o desfecho de Big Little Lies – é a personagem encarnada por Laura Dern. Renata Klein é uma socialite que não aceita “não” como resposta e que se recusa a ser humilhada por Madeline. Em determinada sequência, descobrimos que sua filha sofreu uma tentativa de asfixia dentro da escola e que ela culpa Ziggy por isso. Madeline logo se coloca na briga ideológica a ser iniciada, dizendo que uma averiguação é necessária e que não se sabe se o choque do que aconteceu pode ter algo a ver com a falsa acusação da menina.

O fato é que: ninguém sabe nada sobre ninguém. Não sabemos se nossa amiga de anos pode estar dentro de um relacionamento abusivo, num círculo vicioso de traição, ou até mesmo escondendo alguma história obscura, enterrando-a em um remoto passado. A nova série da HBO pode ter apenas começado, mas já se tornou um mistério digno de ser resolvido.

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Diferentemente de How to Get Away with Murder, série protagonizada por Viola Davis e que tem o mesmo estilo narrativo, as subtramas optam pela irreverência, constatada principalmente pela escolha da paleta de cores. Aqui há uma predominância do verde, cuja principal característica é a transmissão de segurança. Entretanto, vemo-nos, assim como as protagonistas e os personagens secundários, presos num ambiente relativamente hostil e que já indica estar se transformando numa bolha irracional e guiada por instintos de sobrevivência.

Ainda é muito cedo para termos em mente algum suspeito, mesmo com todas as acusações e depoimentos apontando para Madeline. Big Little Lies, entretanto, mostra-se como uma nova aposta narrativa da emissora, envolvendo o espectador desde o primeiro minuto e definitivamente nos mantendo fiéis para os próximos capítulos.

Confira AQUI o guia de episódios da temporada.

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