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Criar uma boa história de suspense não é uma tarefa fácil – e de forma realmente consolidadora, tal feito foi alcançado por poucos. Em Big Little Lies, a nova série da HBO, a própria narrativa parece estar ciente disso e, diferentemente de obras do gênero – tanto literárias quanto audiovisuais – opta por acreditar em seu círculo criativo sem cair nos perigosos antros do pedantismo de superioridade.

Digo aqui que o ritmo frenético do episódio piloto não tem espaço nos últimos dois episódios transmitidos pela emissora. As cartas do jogo já foram dadas por uma sequência quase interminável de cortes bruscos que associava presente e passado, e conhecemos as personagens principais sofreram suas distinções de personalidade, adicionando camadas e mais camadas à própria versatilidade da produção. Em Serious Mothering e Living the Dream, a história adaptada para as telinhas por David E. Kelley adota uma identidade bem mais contida e embebida com sutilezas descritivas que apenas endossam a complexidade dos múltiplos arcos.

Uma das coisas mais impressionantes a serem notadas aqui é o modo como as três personagens principais desenvolvem suas relações umas com as outras de forma inenarrável. Madeline (Reese Witherspoon), praticamente considerada a megera da cidade e a figura que ocupa os holofotes pela maior parte do tempo, construiu laços praticamente fraternais com Jane (Shailene Woodley), a jovem mãe que acabou de se mudar à cidade de Pirriwee. E ao mesmo tempo, mantém um estrito e comovente relacionamento com a introspectiva Celeste (Nicole Kidman), de quem é amiga há anos.

Witherspoon, como já discorrido na crítica anterior, talvez encarne um de seus melhores personagens em anos. Diferentemente do protagonismo levemente estereotipado em Legalmente Loira ou a personalidade rebelde em A Boa Mentira, a impetuosidade de Madeline a transforma no arquétipo básico da anti-heroína justiceira que não mede esforços para buscar a sensatez – ainda que seja sua, e não da comunidade. O contraste entre ela e Jane é notável, seja no modo como se vestem ou como lidam com os constantes obstáculos. Enquanto isso, o misticismo de Kidman em cena casa perfeitamente com Celeste, cujo mistério é gradativamente revelado com longas sequências teatrais minimamente coreografadas, transformando-a num sutil elo que se mostra prestativa perto das companheiras, mas que é lapidada noite após noite num casamento abusivo.

É interessante notar também como as relações de inimizade e antagonismo exacerbado são bem explorados. Diferente de outras séries protagonizadas por mulheres, como Desperate Housewives, o atrito atinge outros níveis, incluindo ameaças verbais e legais entre mães cujo aparente apaziguamento dá lugar a tensões quase milenares. É o caso da relação entre Madeline e seu brusco mergulho na vida alheia e Renata Klein (Laura Dern) e sua constante preocupação com o status da família e com a busca de uma verdade que apenas lhe favoreça. Ambas projetam seus valores nas filhas, mas estas simplesmente vivem com a culpa de não serem “perfeitas” para os padrões de sua família.

Big Little Lies poderia cair nos clichês novelescos de tantas produções contemporâneas, mas a certeira direção de Jean-Marc Vallée afasta o show dos simulacros narrativos. A montagem é subversiva e opta por uma construção não-linear e essencialmente metadiegética. Em um dos ápices do segundo episódio, uma música pop consegue atar várias das subtramas, incluindo uma explosão irracional de Renata, um divertimento cômico de Jane e uma sequência mínima, porém deslumbrante envolvendo Ziggy, Chlöe e Amabella, filhos de alguns dos protagonistas. As sutilezas do roteiro são percebidas com grande atenção, e tudo é perscrutado pelas declarações feitas pela detetive encarregada do assassinato.

Bem como em outras produções assinadas pelo cineasta, como Clube de Compras Dallas, a cronologia é desrespeitada como forma de desviar a atenção da estática sobre o mistério principal e focar no passado sombrio das protagonistas. Madeline talvez possua a subtrama mais aberta e mais conhecida, visto que o lema “falem bem, falem mal, mas falem de mim” faz jus à sua construção e ao seu arco. Ainda não sabemos de seu problema com o primeiro marido e o que os levou ao divórcio, mas as tensões com sua atual família encontraram mais alguns problemas – alguns foram resolvidos, outros apenas começaram.

Celeste e seu marido Perry (Alexander Skarsgard) estão no palco dos momentos mais angustiantes dos episódios, envolvendo uma clara delineação de raiva e abuso físico seguido de coreografias sexuais cruas. O problema, pois, é enfrentado durante uma sessão de terapia que ocupa grande parte do terceiro ato de Living the Dream, em uma câmera estática e em plano conjunto, evidenciando o afastamento e crescente aproximação do casal. Eles se amam – isto está claro; mas não da forma mais saudável possível.

Jane, em comparação a suas amigas, tem o passado revelado de forma brusca: primeiramente, seu filho ainda é alvo de constante observação por ser o principal suspeito do estrangulamento de Amabella, e agora está sendo rondado por Renata e suas ameaças de processo quanto ao abuso sexual presenciado dentro da sala de aula. Além disso, a personagem foi condecorada com os arcos mais viscerais: acontece que o pai de Ziggy não está em cena por tê-la estuprado e então tê-la abandonado: inclusive, as tomadas litorâneas têm total relação com sua linha narrativa.

Em suma, os dois novos episódios de Big Little Lies aprofundaram e endossaram as relações interpessoais e introspectivas entre os personagens principais, dando ainda mais camadas a uma história já complexa.

Big Little Lies – 1×02: Serious Mothering / 1×03: Living the Dream (Idem, 2017, Estados Unidos)

Criado por: David E. Kelley
Baseado em: Pequenas Grandes Mentiras, de Liane Moriarty.
Direção: Jean-Marc Vallée
Roteiro: David E. Kelley

Elenco: Reese Witherspoon, Nicole Kidman, Shailene Woodley, Alexander Skarsgard, Adam Scott, Zoe Kravitz, James Tupper, Jeffrey Nordling, Laura Dern
Emissora: HBO

Gênero: Drama, Mistério
Duração: 55 min.

Confira AQUI o guia de episódios da temporada.