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Madeleine, Celeste e Jane estão com os nervos à flor da pele – e nós também. Seguindo a mesma estrutura narrativa que o episódio anterior, Push Comes to Shove opta por deixar as investigações criminais guardadas na gaveta e focar na interrelação entre as protagonistas de Big Little Lies, uma das sensações do momento da HBO.

Confesso que, apesar do ritmo frenético de sua montagem, a qual é bem firmada na irreverência e no metadialogismo com a própria narrativa, pouca coisa aconteceu nestes novos cinquenta minutos. As tensões entre Madeleine (Reese Witherspoon) e Renata (Laura Dern) ocupam grande parte da trama principal – e já sabemos que suas personalidades impetuosas são alvo tanto de fofoca por parte dos habitantes de Pirriwee quanto de atenção por parte do público. A química entre as duas atrizes rouba o foco até quando não deve – e tais diferenças são acentuadas inclusive com o figurino: enquanto a personagem de Witherspoon é perscrutada por tons de vermelho e de vinho, realçando sua dominância frente à comunidade em que vive, a de Dern é mais contida e mais sutil, resguardando-se ao cinismo e às ocasionais explosões de humor.

A partir desta linha narrativa, outras subtramas encontram espaço, ainda que diretamente relacionadas ao conflito ideológico entre as duas mulheres: Celeste (Nicole Kidman), a qual já sabemos estar mergulhada num relacionamento abusivo com seu marido (Alexander Skarsgard), resolve ditar as regras do jogo de seu modo, ainda que sua atitude não agrade a todos. É notável sua sutil evolução desde o episódio piloto, Somebody’s Dead. Estamos apenas nos capítulos iniciais, mas a desenvoltura do arco desta personagem talvez seja o mais atraente, mesmo que não traga o mistério próprio da identidade da obra.

Ela decide sair de sua aposentadoria e de seu papel como mãe e dona-de-casa para se dedicar ao trabalho – não à sua vida como advogada em si, e sim mais como um favor para Madeline, organizando uma audiência com o prefeito da cidade para conseguir uma liminar para a realização da peça Avenue Q na escola onde seus filhos estudam. Aqui, a obra de Liane Moriarty, adaptada de forma soberba por David E. Kelley para a televisão, encontra mais um nicho social sobre o qual falar: a aceitação do diferente e a extinção do preconceito. Afinal, a peça supracitada tem como temas-base a sexualidade e a comunidade LGBTQ – tabus não muito aceitos por conservadores como Renata e o próprio prefeito.

Apesar deste não ser o foco, o burburinho ao redor da obra teatral – cujos argumentos para a não realização se firmam na “depravação” e na “falta de senso comunitário” – remexe nas feridas cicatrizadas de Celeste, a qual havia interiorizado e reprimido seus desejos para um bem maior. Numa sequência muito bem coreografada entre ela e Madeleine, ambientada dentro de um sedã preto, as duas literalmente gritam sobre o que querem para sua vida e como cansaram de colocar máscaras para agradar a todos. É claro que para a personagem de Witherspoon largar tudo é bem mais fácil, visto que sua independência é bem mais óbvia que a de suas amigas; mas as reviravoltas na vida de Celeste podem muito bem alimentar outros pontos importantes na narrativa – e serem de sumo entendimento para eventos futuros.

Enquanto isso, Jane (Shailene Woodley) lida com um assunto mais delicado: seu filho Ziggy ainda é tachado pela comunidade e pelas crianças com as quais convive de bully. Sabemos que, logo no primeiro episódio, o garoto foi acusado por Amabella, filha de Renata, de tê-la estrangulado e, logo depois, de tê-la assediado. Não sabemos até onde isso é verdade, visto que o diretor Jean-Marc Vallée por vezes escolhe suprir a visibilidade das coisas, utilizando cortes bruscos para mudar de uma subtrama para outra de forma a nos deixar imaginando o que realmente pode ter acontecido. Ainda não conhecemos os personagens a fundo – exceto pelo passado deplorável de Jane – para julgá-los de forma completa, mas o tabuleiro já está quase formado e as jogadas já estão sendo realizadas.

Ela, pois, decide mandar o filho para terapia, tentando descobrir se os traumas de seu passado podem ter afetado a vida do filho de algum modo. Afinal, ela permaneceu desde o princípio escondendo a real identidade do pai e de como ele foi concebido. E, como indicam algumas cenas soltas que gradativamente se unem numa cronologia complexa, Jane pode ter feito mais alguma coisa além da simples “mudança de ares”.

É interessante notar que a paleta de cores adota uma identidade mais sombria neste quarto episódio: os tons esverdeados são substituídos pelo jogo de luz e sombra, principalmente no tocante às feições dos personagens. Madeleine, Celeste e Jane – assim como outros coadjuvantes – ficam com os rostos à meia-luz, indicando que nem tudo é o que parece ser e que suas intenções podem ser as mais dúbias possíveis.

Em geral, Big Little Lies mantém a irreverência de sua narrativa, ainda que deixe de focar nas investigações sobre o crime misterioso do baile de gala. A ausência da trama tripla contribui para o ritmo mais lento, mas também nos deixa ansiosos pela amarração das pontas soltas. Até então, atingimos metade da série: o que podemos fazer agora é idealizar como os próximos capítulos tratarão de seus próprios problemas.

Big Little Lies – 1×04: Push Comes to Shove (Idem, 2017, Estados Unidos)

Criado por: David E. Kelley
Baseado em: Pequenas Grandes Mentiras, de Liane Moriarty.
Direção: Jean-Marc Vallée
Roteiro: David E. Kelley

Elenco: Reese Witherspoon, Nicole Kidman, Shailene Woodley, Alexander Skarsgard, Adam Scott, Zoe Kravitz, James Tupper, Jeffrey Nordling, Laura Dern
Gênero: Drama, Mistério
Duração: 55 min

Confira AQUI o guia de episódios da temporada.

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