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O cinema sempre está antenado com as mudanças na forma de comunicação humana. Desde que o 3D passou a oferecer uma interação maior com o público, ou quando câmeras se tornaram literalmente parte de histórias no gênero found footage, diferentes cineastas têm encontrado formas de usar ferramentas de comunicação para mudar a maneira de construir e conduzir narrativas.

Como a sociedade atual passa grande parte do tempo atrás de uma tela, seja de computadores ou smartphones, o cinema precisa encontrar uma forma de contornar esse bloqueio social. Filmes como Amizade Desfeita e Creep ofereceram experimentos louváveis ao manter integralmente suas narrativas no desktop de computadores, usando chats e Skype para desenvolver a trama e seus personagens. Agora, Buscando… aprimora todas essas ferramentas para criar uma experiência completamente inovadora: é um passo à frente no futuro do storytelling.

A trama é muito simples. Através de telas de desktop, vídeos e outras transmissões de vídeo, acompanhamos a busca de David Kim (John Cho) por sua filha Margot (Michelle La). Após sair para estudar em uma noite, a jovem desaparece sem deixar vestígios, fazendo com que David e a investigadora Rosemary Vick (Debra Messing) iniciem uma caçada nacional que também precisa lidar com o obstáculo de que Margot era uma pessoa muito reservada, com apenas seu laptop oferecendo pistas de sua vida supostamente misteriosa.

Suspense na Era Digital

É uma história básica e não muito diferente de obras desse mesmo viés, com até mesmo os internautas de Buscando… comparando os eventos com obras como Making a Murderer e Garota Exemplar. Mas o que faz o roteiro de Sev Ohanian e do diretor Aneesh Chaganty se sobressair é o cuidado especial da dupla em oferecer uma estrutura exemplar: pistas, informações e foreshadowings são usados com o brilhantismo presente nas melhores histórias de detetive, onde uma segunda visita a Buscando… definitivamente ofereceria uma experiência ainda mais enriquecedora. Pode ser uma narrativa que, sim, acaba soando exagerada em suas tentativas de surpreender, mas que o faz com muita segurança.

Não só pela escrita, mas também pela proposta radicalmente distinta de se desenrolar através de telas. A forma como informações relevantes à trama são exibidas para o espectador é de uma elegância notável, como quando David é apresentado à detetive Kim pela primeira vez, e enquanto escuta as medidas da personagem para a investigação,  o protagonista simultaneamente abre uma aba do Google para pesquisar sobre ela, já oferecendo ao espectador todo o background necessário, dispensando diálogos expositivos de forma orgânica e que corresponde ao nosso cotidiano marcado por múltiplas informações ao mesmo tempo. E é realmente admirável como um detalhe aparentemente descartável como uma capa de Facebook com frase motivacional pode passar de um elemento para construir a confiança de um personagem em outro, para uma assustadora confirmação de seu próprio caráter – novamente, uma aula de foreshadowing.

Dirigindo um Desktop

É engraçado falar sobre a direção de um filme que é todo baseado em telas de desktop, mas Chaganty merece aplausos. Ao contrário de Amizade Desfeita, o diretor toma liberdades mais “cinematográficas” com o uso da tela, trazendo cortes, closes e até trilha sonora não diegética para acentuar a tensão e atmosfera do filme. São recursos que ajudam a tornar a experiência mais urgente, algo que Chaganty faz ao cortar para um close de tela ou até mesmo um “plano detalhe”, e até mesmo formas de expressão de humor extremamente orgânicas, vide o corte de uma discussão intensa entre David e um dos adolescentes suspeitos, até a tela de Excel onde o protagonista escreve “Show de Bieber”.

De forma mais natural, e que se revela como recurso dramático eficiente, temos mensagens de texto para ilustrar dúvidas e estados de espírito. Chaganty também usa dessas ferramentas para manter o espectador completamente grudado à tela. Em um recurso já bem explorado em Amizade Desfeita, vemos personagens digitando mensagens que exploram seus pensamentos e demonstram hesitação, especialmente quando acabam decidindo não enviá-las; algo que gera empatia em literalmente todos nós, e que suporta a forma de exposição sutil da narrativa e até consegue gerar pay offs emocionais poderosos.

Chaganty também usa dessas ferramentas para manter o espectador completamente grudado à tela. Diversas cenas acabam criando verdadeira angústia no espectador, como quando David suspeita de uma pessoa próxima e espalha diferentes câmeras pelo ambiente, ao passo em que vamos esperando a inevitável bomba explodir – algo que só se torna mais intenso quando vemos as reveladoras notificações de seu celular na tela, e quase gritamos à tela para que o protagonista apanhe logo seu aparelho.

Através do uso de noticiários e outros vídeos de internet, Chaganty também mantém a tensão e as expectativas no ápice, especialmente quando conduz a narrativa em direção ao clímax surpreendente. É uma sensação quase voyeurística, a de observar mensagens e gravações destinadas a outras pessoas, quase como se estivéssemos vendo algo por acidente – como o crescente conflito que se inicia durante um vídeo de streaming, e que o diretor sabiamente “trava” o vídeo apenas para demonstrar o controle sobre a narrativa, para desespero do espectador.

Buscando… é um animador vislumbre do futuro. Através de ferramentas modernas e recursos inteligentes, Angeesh Chaganty captura como poucos a forma de comunicação humana no século XXI, conseguindo enxergar possibilidades de drama e suspense no mundano. É uma revolução na forma de se contar histórias.

Obs: Uma salva de palmas para o esforço da Sony Pictures Brasil no trabalho de tradução, que adaptou perfeitamente todas as telas e textos do filme, tornando a experiência o mais imersível possível.

Buscando… (Searching, EUA – 2018)

Direção: Aneesh Chaganty
Roteiro: Aneesh Chaganty e Sev Ohanian
Elenco: John Cho, Debra Messing, Sara Sohn, Michelle La, Joseph Lee, Briana McLean, Erica Jenkins, Ric Sarabia
Gênero: Suspense
Duração: 106 min

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