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Guillermo del Toro sempre teve um apreço pelo macabro, pelo tenebroso e pelo marginalizado. Em A Forma da Água, o diretor conseguiu unir esses elementos em um drama fantasioso de amadurecimento incrível e que merece toda a atenção que está ganhando, e ele repete esse feito em um viés totalmente diferente: uma série de animação que consegue unir o melhor da clássica jornada do herói com uma roupagem modernizada e tragicômica em Caçadores de Trolls, um original Netflix que simplesmente brilha. E se a primeira temporada, lançada no começo deste ano, já foi uma surpresa e tanto para os fãs de narrativas de aventura, os novos episódios representam uma incrível maturação para seus personagens e para seu idealizador

Anton Yelchin, mais uma vez emprestando sua voz antes do trágico evento que tirou sua vida, retorna como o jovem protagonista Jim Lake Jr., um outcast que torna-se o principal protetor do Mercado de Trolls, um macrocosmos escondido da visão humana e que foi subjugado às sombras para preservar a continuidade da espécie. Conforme vimos na primeira leva de capítulos, Jim é visto como um estranho tanto em seu próprio mundo, encarnado como o medíocre adolescente que não pertence a nenhum grupo social, quanto no outro, simplesmente pelo fato de ser humano. É a partir daí que o personagem deve lidar com a dúvida pessoal se merece ter sido escolhido como o Caçador de Trolls, sendo presenteado pelos poderes de Merlin através de um artefato milenar que, como já podemos imaginar, “não erra em suas escolhas”.

O segundo ano traz Jim em um processo de constante amadurecimento, dentro de uma tour de force que o leva a fazer o impensável: abandonar sua família e seus amigos e entrar nas Terras Sombrias tanto para resgatar o irmão de seu par romântico, a sagaz Clara (Lexi Medrano) e impedir que as forças das Trevas escapem de seu exílio obscuro para dominar o mundo novamente. Logo, ele está sozinho, vivendo um dia após o outro em um labirinto nem um pouco convencional como forma de autopunição por ter colocado aqueles que amava em perigo, além de provar para os outros sua capacidade de ostentar o título de guerreiro. É claro que, à medida que a narrativa progride, tudo perde propositalmente a forma fantástica que carregava na primeira parte da odisseia para aprofundar-se nas relações interpessoais de seus personagens e como seus justificáveis erros trazem consequências que devem ser enfrentadas.

Eventualmente, Jim é resgatado. Não ao louvor de uma saída deus ex machina, mas após uma série de obstáculos enfrentados, principalmente na forma do conservador Tribunal liderado pela austera Rainha Usurna (uma aparição mais que bem-vinda de Anjelica Huston), o qual vê o garoto como o principal responsável pela ameaça ao reino que jurou proteger. E logo sua capacidade de persuasão alastra-se para o próprio conselho e para a comunidade troll, permitindo que o constante desprezo pelo garoto abra brecha para uma das maiores viradas da temporada – eximiamente bem construída por uma narrativa redonda e satisfatória.

Mais uma vez, o nosso herói não está sozinho. Ainda que tenha perdido, e por breves momentos, a segurança e a candura Aaarrrgghh!!! (Fred Tatasciore) para uma maldição que o transformou em pedra, Blinky (Kelsey Grammer) retorna com toda a sua sabedoria secular e seus trejeitos de personalidade adoráveis e que são transpostos para certas partes de sua psique não exploradas – incluindo a culpa que carrega pela culpa do irmão desertor, Dictatious (Mark Hamill) e sua necessidade de provar-se muito mais que puro cérebro (essa é a primeira vez que o vemos realmente empunhando uma espada e tomando a linha de frente do campo de batalha). Além de Claire, Toby (Charlie Saxton), o escape cômico da obra, também volta para apoiá-lo como companheiro indispensável e também mostrando ser um soldado muito astuto quando em termos de cuidar de seus amigos.

Muitos podem não se inclinar a favor de Caçadores de Trolls como se reapresenta agora. Não pela falta de originalidade ou pela criação de uma jornada que converse com as inúmeras obras épicas da literatura – incluindo Odisseia e Senhor dos Anéis -, mas sim por afastar-se da exposição essencialmente mágica e entregar-se à humanização do sobrenatural. E como toda boa narrativa, sacrifícios devem ser feitos para que o arco de amadurecimento encontre uma conclusão digna e definitiva – e esse momento da trama vem com a revelação nem um pouco premeditada do penúltimo episódio, numa sequência na qual o ancião Vendel (Victor Raider-Wexler), governante do Mercado de Trolls, encontra sua ruína por acreditar demais na pureza de seus semelhantes. Apesar de acontecer perto do season finale, esse momento é decisivo para as próximas ações do protagonista e de seu grupo de guerreiros.

Jim, assim como os outros, aceita a momentânea derrota, mas não passivamente; ele ainda consegue arquitetar um plano para retirar todos os trolls remanescentes da fúria de Gunmar (Clancy Brown), o qual conseguiu escapar das Terras Sombrias e está transformando seus vassalos em guerreiros impiedosos. Ele até mesmo consegue converter o bruto, porém apaixonante Draal (Matthew Waterson) para o lado das Trevas, retirando grande apoio de seus arqui-inimigos. E Claire, emergindo de sua posição como adolescente para um ato de pura bravura, decide colocar a própria vida em risco para salvar o máximo de trolls que conseguisse utilizando do poder do cajado das sombras, que poderia corromper sua alma e causar danos irreversíveis à sua doce personalidade.

A temporada não alcança sucesso apenas pela atmosfera inebriante e fantástica, mas também por oscilar de modo equilibrado com as questões mundanas enfrentadas pelos protagonistas, incluindo valentões de escola, testes, detenções e a vida amorosa. Em diversos momentos, Jim, Toby e Claire abdicam de sua posição como guerreiros para lidarem com assuntos do coração, que se tornam mais fortes conforme os episódios se seguem, e até mesmo para relembrarem-se dos momentos de paz que compartilhavam antes de atenderem a um chamado divino e irrecusável.

Caçadores de Trolls mantém o seu brilho de forma aplaudível. E além de conseguir arquitetar uma narrativa coerente e com inúmeras possibilidades futuras, dá algumas pistas para a continuação da trilogia Tales of Arcadia, fazendo menções e certos magos e extraterrestres famosos e que provavelmente darão às caras em séries futuras. Mais uma vez, Del Toro prova sua competência sobrenatural – e da forma mais adorável possível.

Caçadores de Trolls – 2ª Temporada (Trollhunters, Estados Unidos – 2017)

Criado por: Guillermo del Toro
Direção: Rodrigo Blaas, Andrew L. Schmidt
Roteiro: Dan Hageman, Kevin Hageman, A.C. Bradley, Chad Quandt
Elenco: Kelsey Grammer, Lexi Madrano, Anton Yelchin, Charlie Saxton, Fred Tatasciore, Jonathan Hyde, Victor Raider-Wexler, Amy Landecker, Steven Yeu, Anjelica Huston, Mark Hamill, Clancy Brown, Matthew Waterson
Emissora: Netflix
Episódios: 13
Gênero: Animação, Aventura, Fantasia
Duração: 23 min.

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