Cada Um na Sua Casa é a nova animação infantil da Dreamworks, um estúdio que ganhou muito respeito nesse gênero graças aos excelentes Shrek, Como Treinar Seu Dragão, Megamente e Kung Fu Panda, porém há um tempo o estúdio tem perdido força. Esse filme é a maior prova disso.

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Oh é um alienígena da raça Boov, muito conhecida por fugir de seus inimigos mortais, os górgons. Em mais uma fuga desesperada, eles descobrem o planeta Terra, um lugar ideal para fixar residência. Em sua invasão, realocam todos os humanos juntos em um canto da Terra, enquanto se hospedam em todas as cidades do planeta. Porém, por causa de mais equívoco do atrapalhado Oh, a nova mudança dos boovs é ameaçada já que seus inimigos têm conhecimento de sua nova localização, retomando a caçada.

Com a sociedade boov em perigo, o líder dos alienígenas, Smek, ordena que Oh seja capturado. Em fuga, Oh encontra uma garota humana que não foi abduzida, Tipolina, e juntos partem em uma aventura, cada um com seus propósitos para firmar a inusitada aliança.

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O roteiro de Tom Astle e Martin Ember, baseado no livro homônimo de Adam Rex, tem diversos problemas, mas o principal deles é a impressão de que você já viu esse filme antes – muitas e muitas vezes. A velha e boa história de um patinho feio que não consegue se enturmar entre seus iguais. Adicionando esse elemento, está o fator do alienígena que descobre o que é amor e amizade com o contato humano. Para citar alguns exemplos, lembre-se do clássico E.T. O Extraterrestre ou Lilo & Stitch. Se deixarmos de lado o fato de Oh ser um alienígena, mas mantendo sua principal essência – a busca pela amizade, reconhecimento ou família, temos mais outra gama de filmes: Ratatouille, Paddington, Wall-E, Como Treinar seu Dragão, Megamente, Meu Malvado Favorito, Uma Aventura Lego, Aviões, Universidade Monstros, Detona Ralph, Kung Fu Panda, Rango, etc.

Enfim, o problema não está em sua origem completamente clichê, mas não fazer bom uso deles. Diversos filmes que listei acima bebem da mesma fonte, mas se sobressaem e introduzem algo novo. Aqui, nada acontece. Tudo é previsível.

Os personagens são extremamente superficiais com conflitos básicos e resoluções mais simplórias ainda. A maior força dele está no fato que tanto Oh quanto Tipolina são dois renegados. Um porque é estabanado e só faz burradas e outra porque é imigrante. Isso é apresentado em uma cena e nunca mais retomado. Desistem de explorar e conferir maior profundidade aos dois. Outro fato que incomoda é a ambiguidade sobre o que Oh entende de amizade – se diz o maior amigo do mundo, mas não entende preceitos básicos sobre a aliança. Além disso, o texto não faz sentido em pontos-chave – principalmente no motivo dos górgons perseguirem os boovs, antes da reunião de paz com Smek e o líder górgon.

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Muitos podem dizer que se trata apenas de um filme bobo de criança, porém esse pensamento não cabe mais quando outros estúdios como a Disney, Ghibli e a Pixar elaboram personagens complexos e carismáticos como Woody e Buzz de Toy Story, Remy de Ratatouille, Marlin de Procurando Dory, até mesmo o mudo Wall-E, entre outros.

A comédia do filme também não supera o básico. Nada de humor inteligente ou algumas piadas para os adultos. São piadas de cunho escatológico, slapstick ou com o uso inusitado de utensílios humanos. Aliás, o personagem dublado por Steve Martin, Capitão Smek, é extremamente parecido com o Rei Julien de Madagascar, também da Dreamworks.

A direção de Tim Johnson também não foge da mediocridade do roteiro. As sequências de ação são maçantes e pouco imaginativas – algumas inspiradas em Esqueceram de Mim. A “justificativa” do uso do 3D consegue ser mais boba. O veículo antropomorfizado de Tip solta bolhas de sabão enquanto flutua pelo ares. Entretanto, o efeito é interessante durante a sequência que se passa em Paris e em uma cena noturna que se passa no oceano atlântico. Ele também sugere uma crítica interessante ao efeito da tecnologia que afasta o contato físico entre os boovs, indicando um presságio para os humanos e seus smartphones – isso já foi melhor explorado em Wall-E.

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Outro ponto que incomoda bastante é a repetição de músicas durante o filme. Seja na composição da trilha original que deve tocar umas quatro vezes e a canção original “Feel the Light” cantada por Jennifer Lopez – melodia e arranjo muito bonitos que perdem seu impacto devido a repetição. As outras canções que compõe o repertório do filme são, em sua maioria, hits musicais da Rihanna que dubla Tipolina na versão original. Muitas vezes, essas músicas destoam completamente das cenas conferindo a forte impressão que se trata apenas de merchandising barato para a cantora. Aliás, o departamento de som para grandes efeitos deixa muito a desejar. Além dos diálogos e alguns efeitos de foley, a mixagem do som parece estar abaixo do normal. Os efeitos soam baixos, impotentes, mesmo com explosões e destruição em massa.

Em suma, Cada Um na Sua Casa decepciona muito e expõe que o departamento de animação da Dreamworks está perdendo força ante a concorrência – uma lástima, visto que o estúdio é um dos mais imaginativos de Hollywood. Utiliza recursos baratos para forçar o riso, como a fala errada de Oh. A animação continua soberba e o design de produção é bom. Os alienígenas são fofinhos, mas muito derivados – claramente inspirados nos minions de Meu Malvado Favorito. Incluindo os cenários das naves que os seres viajam – completamente vazias e sem vida. Porém, um acerto é a mudança de cor que acomete os boovs quando expressam sentimento, ainda que o efeito seja muito literal.

Enfim, a animação diverte durante o tempo de projeção, mas não justifica o preço do ingresso. Talvez, crianças bem pequenas apreciem o filme, mas para as mais velhas, que já viram filmes mais interessantes, a experiência pode ser completamente enfadonha.

Assim como os boovs exclamam “Ohhh” quando veem o hiperativo protagonista, o espectador exclamará “meh” quando o filme acabar.

Nota: ★★

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