As releituras e adaptações audiovisuais das aventuras épicas de Rei Arthur e a Távola Redonda são inúmeras: desde o surgimento e ascensão de meios de comunicação como o cinema e a televisão, o desafio de traduzir em imagens epopeias literárias como as citadas sempre encantou diversos realizadores – e muitas vezes esse encanto foi justamente o principal motivo de não atingirem resultados satisfatórios para um público fervoroso por batalhas milenares e pelo enfrentamento do impossível.

Infelizmente, é isso o que acontece com Camelot, série da Starz em parceria com a TV GK. Fornecendo uma nova perspectiva para um dos contos que mais inspirou obras-primas como O Senhor dos Anéis e Crônicas de Nárnia, o show pega tanto a narrativa da Távola Redonda – ou seja, pela perspectiva heroica do “cavaleiro templário” (Rei Arthur e seus asseclas) – quanto as delineações feministas arquitetadas por Marion Z. Bradley em As Brumas de Avalon, cujo foco são as protagonistas a povoarem o universo arturiano – como Morgana, Morgause, Igraine e Viviane.

O hibridismo, configurando-se como principal característica desta curta obra, é um dos seus pontos altos. Perscrutado com atuações incríveis e que por vezes ofuscam o roteiro falho e os monótonos acontecimentos ao final de cada capítulo, a trama principal começa com Morgana (Eva Green) retornando de seu “exílio espiritual” em um convento para casa, a qual ainda é comandada por Uther Pendragon (Sebastian Koch) e sua nova esposa, Igraine (Claire Forlani). As diferenças da obra original já são perceptíveis aqui, afinal, como sabemos, Morgana era filha de Igraine e do Duque de Gorlois, tendo Uther como seu padrasto após a morte em batalha do legítimo rei de Camelot. Entretanto, a simplificação da cronologia e da genealogia nesta série casa com seu propósito – que é, além da contextualização simbólica destas histórias místicas dentro da História concreta, mostrar que a emissora ainda tem sua carga de veracidade para colocar dentro de produções audiovisuais (vide Roma).

A cena inicial do episódio piloto é justamente a descrita acima – e seu único problema é o tempo curto. É claro, conseguimos sentir o tom dos conflitos a serem construídos entre os personagens principais – principalmente entre pai e filha -, mas um cuidado maior e uma lapidada mais concisa em diálogos supérfluos e expositivos poderia ter um brilho digno do elenco em cena. O grande momento vem numa sequência justaposta – dentro de uma montagem um tanto quanto equivocada – na qual a antagonista envenena sangue de seu sangue para finalmente postar-se como a real e única herdeira do trono.

É interessante notar que o conceito de “jornada do herói” é transgredido em momentos pontuais, mas de exímia importância para o conceito identitário da série. Primeiramente, somos introduzidos ao maniqueísmo do “lado ruim” da história antes de sermos transportados para a ambiência do “lado bom”. Arthur (Jamie Campbell Bower), assim como diversos heróis de epopeias gregas e romanas, é um simples garoto exilado de sua real condição de rei, vivendo em uma fazenda com pais adotivos. Comparando com tramas contemporâneas – apesar dessas concepções terem surgido milhares anos antes da Era Comum – vemos que os criadores da série se basearam franquias de grande sucesso contemporâneo, como Star Wars e Harry Potter, para, ao mesmo tempo, garantir a atemporalidade desta história de cavalaria e aproximá-la da cultura pop. Entretanto, é aqui que as coisas começam a desandar.

Sabemos que a teorização do monomito explanada por Joseph Campbell ao final da década de 1940 implica alguns momentos de pura importância para que o arco do herói ou heroína tenha início, meio e fim e crie uma parábola trazendo e representando os conflitos e amadurecimentos pelos quais passou através de sua viagem sobrenatural de autodescobrimento. Em diversas obras cinematográficas, o tempo real de exposição cênica se mostrou o suficiente para desenvolver todas as subtramas e viradas necessárias – mas Camelot, em seus dez episódios de quarenta e cinco minutos cada, pareceu não ter encontrado um ritmo adequado para que Arthur, Morgana e os outros chegassem a uma conclusão que lhes desse justiça.

Logo no capítulo de estreia, o garoto descobre através de Merlin (Joseph Fiennes), seu conselheiro e guardião espiritual, que pertence à linhagem real e que, após a morte de seu pai, deve voltar para Camelot e restaurar a paz entre seu povo. O protagonista é um bastardo, visto que é filho da segunda esposa de Uther e, por essa razão, é visto com maus olhos pela meia-irmã e por outros duques que fazem parte da aliança inglesa da época – incluindo o impetuoso e cruel James Purefoy saindo de sua estadia em Roma para encarnar o Rei Lot, o qual faz um pacto com Morgana para depor Arthur.

Os eventos que se sucedem são muito rápidos e, incrivelmente, realizados com uma preguiça quase absurda. Não conseguimos nos conectar o suficiente com os personagens para que as viradas sejam impactantes o bastante – em outras palavras, a catarse em constante desenvolvimento pelos roteiristas nunca encontra um ápice, mantendo-se linear e chegando ao ponto de angustiar os telespectadores. Em The Sword and The Crown, por exemplo, temos Arthur numa jornada pela lendária Excalibur. Porém, os obstáculos que ele enfrenta nos livros são deixados de lado e readaptados para uma simplória escalada numa cachoeira – tudo bem, ele enfrenta a morte diversas vezes, mas isso em momento algum traz delineações sinceras sobre as provas que enfrentará durante seu mandato como rei.

Apesar da monotonia que enfrentamos, não posso deixar de ovacionar em pé o grande trabalho de atuação, principalmente de Green. Seu histórico com personagens memoráveis tanto no cinema quanto na TV estende-se até os dias de hoje (como, por exemplo, ao encarnar Vanessa Ives em Penny Dreadful), e o mesmo faz ao dar vida a uma das personagens mais contraditórios da história da literatura. Entretanto, sua perspectiva afasta-se do melodramático romântico de Morgana nas novelas medievais para construir feições e trejeitos mais sombrios. Os próprios traços maleáveis da atriz contribuem para essa veracidade realista em detrimento de diálogos definitivamente mal escritos. Sua química com outros personagens em cena também é digna de nota – e seu desfecho, apesar da temporada única da série, mostra-se palpável e emocionante.

Bower, entretanto, se parece muito mais com um jovem Indiana Jones que com o lendário Rei que cruzou territórios inefáveis para recuperar o que lhe era direito. Sua caracterização irreverente e jovial por vezes não casa o tom da série, mas entra em contraste interessante com o poderoso e definitivamente mergulhado no nonsense de Fiennes como Merlin. Devo dizer que, apesar de cair no ridículo em algumas sequências que demandavam uma atmosfera mais tensa, o grande feiticeiro tem uma performance agradável e digna de equiparação a de Morgana – tanto em termos de arco narrativo quanto em interpretação e presença de cena.

Apesar de seus momentos de glória, Camelot é uma série que não acredita no próprio potencial. O desperdício de um elenco invejável e de locações críveis leva a temporada para a pilha de mais uma releitura desperdiçada das incríveis aventuras da Távola Redonda – implorando para que seja reanalisada e, basicamente, refeita com a atenção que merece.

Camelot – 1ª Temporada (Idem – Reino Unido, 2011)

Criado por: Chris Chibnall, Michael Hirst
Direção: Mikael Solomon, Stefan Schwartz, Ciaran Donnelly, Jeremy Podeswa, Michelle MacLaren
Roteiro: Chris Chibnall, Michael Hirst, Louise Fox, Terry Cafolla, Steve Lightfoot, Sarah Phelps, Thomas Malory
Elenco: Eva Green, Jamie Campbell Bower, Joseph Fiennes, , Tamsin Egerton, Peter Mooney, Claire Forlani, Philip Winchester, Clive Standen, Chipo Chung
Emissora: Starz
Gênero: Drama, Fantasia

Duração: 45 minutos


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