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São poucos os filmes que realmente fazem parte da nossa memória, mesmo que de uma forma indireta. E por indireta, digo que alguns nomes, por mais que nunca tenham se manifestado visual e concretamente para nós, se tornam conhecidos pela popularidade e pela atemporalidade com as quais são tratadas, reafirmando inclusive a sua importância para a História das narrativas audiovisuais – e posso dizer, sem sombra de dúvida, que Cantando na Chuva faz parte desse seleto panteão cinematográfico, ao lado de outros clássicos que soam nostálgicas para inúmeras gerações. Não é nenhuma surpresa, pois, que o musical dirigido por Stanley Donen e Gene Kelly seja reaproveitado até os dias de hoje através de singelas homenagens e readaptações que têm a clara noção que nunca chegarão aos pés desse pontapé inicial.

É até mesmo engraçado analisar a história por trás desta produção, visto que seu lançamento fez um modesto barulho em meio à crítica e ao público – sendo indicado, por exemplo, a apenas duas estatuetas do Oscar à época – e, com o passar dos anos, sendo visto e revisto pelos especialistas até chegar ao inenarrável patamar que ocupa entre os melhores longas-metragens de todos os tempos. E é mais incrível ainda prestarmos atenção a esse pano de fundo se levarmos em consideração que uma das bases narrativas do filme é justamente essas constantes contradições de Hollywood.

A trama gira em torno do famoso ator do cinema mudo Don Lockwood (Kelly), cuja ascensão ao sucesso tornou-se uma aspiração para todos, conquistando, através de seu inegável carisma, uma legião de fãs ao redor do mundo. A primeira sequência do filme já trabalha com grande maestria uma montagem que havia sido explorada primeiramente com obras-primas antecessoras, como Cidadão Kane, optando por uma investida anacrônica e não-linear para construir um cenário conciso para o espectador sem obrigá-lo a deduzir fatos e acontecimentos do nada – e é claro que nada disso seria possível sem o tato artístico do duo de cineastas. Através de um timing cômico muito bem trabalhado e que seria reutilizado e repaginado com o passar dos anos, o protagonista lembra-se de seu “glorioso passado”, sempre relembrando-se do mote que carregava: “dignidade. Sempre com dignidade”.

Esta não seria uma obra de Kelly se as ironias não existissem. Resgatando alguns elementos de Sinfonia de Paris e Um Dia em Nova York, bem como outras produções nas quais estrelou e atuou como produtor, as quebras de expectativa dialogam diretamente com as viradas inesperadas no roteiro – e são tão bem colocadas que a inexistência dramática não é percebida. Afinal, se prestarmos bem atenção, os acontecimentos tem a sua carga trágica em comparação com o escopo maior, mas são levadas sem a seriedade compulsória que o transformaria em uma história maçante. E logo no início do primeiro ato, o arco de superação de Lockwood logo é contrastado com uma sequência dos mais bizarros trabalhos – desde artistas itinerantes até dublês de filme de ação – e não podemos deixar de gargalhar ao vermos o personagem cair de um penhasco enquanto diz com certa imponência que “havia sido escolhido para os melhores projetos possíveis”.

As coisas mudam drasticamente quando o ator amador chama a atenção de um dos maiores produtores da época, R.F. Simpson (Millard Mitchell), o qual o contrata como protagonista de seus épicos mudos, sucessos de bilheteria e de público através dos Estados Unidos e do mundo, cujas falhas definitivamente eram ofuscadas pela presença de uma trilha sonora fabulesca e pelas caixas de texto que quebravam a linearidade dos filmes – e essa atenção aos detalhes permite que a conturbada relação entre Lockwood e a queridinha da América, Lina Lamont (interpretada pela incrível Jean Hagen), cujo gênio é mantido às escuras até o momento em que abre a boca  e revela uma voz estridente e insuportável – razão pela qual o time criativo a impede de fazer qualquer discurso em público e “quebrar a magia” que a audiência mantém acerca dela.

Cantando na Chuva não é apenas uma irresistível comédia sobre alguns dos personagens mais icônicos já criados, mas também uma aula de História – afinal, todas as relações mais intimistas que se desenrolam e se completam durante o filme são respaldadas por um pano de fundo verídico e que causou muita discordância na época: a transição do Cinema mudo para o Cinema falado. Tal acontecimento deu-se em meados da década de 1920 e representou uma mudança brusca no cenário mercadológico do entretenimento. Como reafirmado por Simpson e Lockwood na introdução do segundo ato, ninguém botava fé que a sincronização de imagem e som vingaria – aliás, ninguém cria que realmente era possível aquilo. E não foi até o sucesso de O Cantor de Jazz (que é citado majestosamente durante uma das cenas) que todos perceberam que deveriam se juntar ao fluxo da modernidade.

Mais uma vez, tudo isso é explicado de forma didática e cômica pelo roteiro assinado por Betty Comden e Adolph Green – rendendo talvez um dos momentos mais plenos e icônicos de todos os tempos. Lamont e Lockwood logo passam a estrelar, ou ao menos tentar, projetos muito mais elaborados quando em comparação aos anteriores, e é claro que o resultado não poderia ser diferente. A estreia dessa nova onda de filmes seria até trágica, se não fosse hilária: pense em tudo que pode dar errado com a primeira transmissão de uma peça audiovisual, toda a tensão e a angústia que são carregadas por cada um dos componentes que uniu forças para colocar o projeto em prática, e junte esses fatores em um único lugar – é justamente isso o que acontece aqui.

A trama transita entre a veracidade e o impossível de forma tão homogênea que parece estarmos diante de uma interpretação documentária orquestrada com exímia cautela. Desde as complicadas gravações, que trouxeram à tona o enfrentamento dos diretores e técnicos sonoros e artísticos para manter os gigantescos microfones escondidos nos sets de filmagem, até os problemas de sincronização entre áudio e imagem, passando pelo pífio e superficial roteiro que agora ganhava voz, o catastrófico resultado representa a destruição da reputação do casal mais badalado de Hollywood e da credibilidade de uma das maiores produtoras do mercado – que agora devem correr para recuperar todo o prejuízo que tiveram. E, aliado à mente criativa de Lockwood, abre margens para duas coisas que definitivamente amamos: Debbie Reynolds e musicais!

Reynolds emerge na história como a aspirante à dançarina e atriz profissional Kathy Selden, a qual é cética em relação aos trabalhos no cinema e que tem um encontro não muito agradável com Don durante o segundo ato. Os dois acabam por se reencontrar e traçar uma leve insinuação romântica que ganha força com o alegre número que empresta o nome ao título do filme e alcança o ápice com You Were Meant for Me, uma ode ao amor e à mágica ilusão do cinema. E, enquanto ela representa o par romântico e a rebelde otimista de toda a trama, Donald O’Connor se entrega a uma performance igualmente memorável no papel do escape cômico Cosmo Brown, melhor amigo de Lockwood, que fica responsável por outro número memorável, intitulado Make’em Laugh.

A perfeição pode não ter um significado palpável, mas Cantando na Chuva chega bem perto disso – não apenas por ter uma história cômica e envolvente, mas também por toda a sua desenvoltura estar presente em cada um dos elementos do filme, felizmente afastando-se da saturação excessiva para mesclar inúmeros gêneros narrativos em uma obra-prima clássica e memorável.

Cantando na Chuva (Singin’ in the Rain, EUA – 1952)

Direção: Gene Kelly, Stanley Donen
Roteiro: Betty Comden, Adolph Green
Elenco: Gene Kelly, Donald O’Connor, Debbie Reynolds, Jean Hagen, Millard Mitchell, Douglas Fowley, Rita Moreno
Gênero: Comédia, Musical
Duração: 113 min.

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