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Caraval é um lugar mágico. E sombrio. E apaixonante, mas ao mesmo tempo oculto por segredos inimagináveis. Caraval pode ser considerado uma mistura do misticismo sobrenatural da Terra do Nunca com o inebriante cheiro agridoce das ambições dos parques da Disney – ao menos foi exatamente isso o que se transmitiu no livro homônimo assinado por Stephanie Garber, uma jornada épica que remonta os grandes clássicos da literatura fantástica com maneirismos e toques singelos da cultura pop contemporânea.

A trama principal gira em torno de Scarlett Dragna, uma jovem moça que permaneceu anos e anos tentando receber uma resposta de um de seus ídolos das terras além-mar, o inenarrável Lenda. Este é o idealizador do majestoso evento mágico que empresta seu nome ao título da obra, e nunca foi visto por ninguém. Sua trupe de atores e atrizes tem como principal objetivo garantir a mais inesquecível experiência a seus participantes, visto que este é o único lugar de todo o mundo idealizado pela autora no qual alguém pode chegar perto de tocar a materialidade da Magia.

Ao que tudo indica, Caraval é uma narrativa infantil. Entretanto, essa perspectiva ingênua, apesar de permanecer nos traços superprotetores e puritanos da heroína, logo deixa de existir após o término de um prólogo interessante e baseado nas narrativas epistolares do Romantismo, em meados do século XIX. Scarlett agora deixou seu sonho dar lugar à necessidade de seguir as tradições de sua casa, comandada pelo cruel e tirânico Governador Dragna, uma figura totalitarista cuja visão se restringe às ambições da própria riqueza em decadência e do próprio nome. Já nos primeiros acontecimentos, Scarlett flagra sua irmã mais nova, Donatella, em um momento íntimo com um marinheiro chamado Julian. A partir daí, podemos traçar um paralelo psíquico entre as personagens que iremos acompanhar.

Enquanto a protagonista desenrola-se como uma presença protetora e altruísta, colocando o bem-estar dos outros acima do seu. O ápice de sua personalidade cuidadora vem com o fato dela estar “ansiosa” por seu casamento com um desconhecido conde, o qual nunca viu na vida – tudo para poder sair de sua vida como prisioneira e dar novos votos de esperança para a irmã. Donatella, por sua vez, decide se jogar de cabeças nas pequenas oportunidades que aparecem em seu caminho, principalmente quando estão relacionados aos pequenos prazeres mundanos, como ser cortejada por um charmoso homem. Todavia, seus atos inconsequentes colocam a si mesma e aos outros em constante perigo.

Uma das grandes reviravoltas dentro da monótona vida de Scarlett é, sem sombra de dúvida, quando a irmã decide criar uma situação inventiva de sequestro, dentro da qual a principal vítima é ela mesma. Ao descobrir que Donatella iria fugir com o marinheiro, ela corre até o quarto da irmã para impedi-la, apenas para encontrá-lo totalmente revirado; momentos depois, uma figura desconhecida a dopa e Scarlett acorda em alto-mar, completamente desorientada e acompanhada da irmã e de Julian, ambos realizando seu sonho de finalmente conhecer o maravilhoso Caraval. É claro que o contraste de objetivos e desejos suprimidos, a partir daqui, começam a ser o principal foco de diversas sequências.

A ilha na qual o mágico evento ocorre traz inúmeras referências da literatura clássica, porém com uma dose extra de traços descritivos próprios da autora. Podemos ver elementos metalinguísticos que conversam com obras similares, como Peter Pan e Alice no País das Maravilhas, em se tratando de uma das escolhas narrativas: o tempo. Em Caraval, a contagem dos dias segue um outro ritmo e, por isso mesmo, torna a experiência dos jogadores ainda mais intrínseca e emocionante, levando-os a mergulhar em um território totalmente desconhecido. Os elementos que mais se destacam curiosamente seguem o mesmo padrão distorcido e metafórico da obra de Lewis Carroll: em diversos momentos, as ambiências são detalhadas em formas de relógios de bolso, cartolas ou até mesmo carrosséis, mantendo o lirismo das narrativas fantásticas à medida em que uma atmosfera turva gradativamente toma conta da jornada dos protagonistas.

Caraval é idealizado pelo místico Lenda, uma figura nunca antes vista e que assume diversas formas ao longo do jogo. Seu passado conturbado atravessou os sete mares e sempre foi pincelado com acontecimentos macabros ou trágicos – incluindo a morte de uma participante do jogo que se envolveu demais com a storyline. Em uma jornada à la “caça ao tesouro”, o principal objetivo deste ano é encontrar uma personalidade desaparecida – a própria Donatella Dragna, que aparentemente foi capturada por Lenda e levada para um lugar inimaginável. Scarlett, temendo o pior, mas mantendo uma crescente confiança em seu parceiro Julian, deve encontrar cinco pistas para finalmente chegar ao local no qual a irmã está mantida, para que volte para casa e possa se casar com o Conde. Entretanto, as coisas não são tão simples e seguras quanto aparentam ser.

A narrativa seria um tanto quanto monótona se se restringisse às clássicas saídas dos épicos fantasiosos. Entretanto, Garber opta por incrementar sua obra com traições políticas, reviravoltas inesperadas e conspirações mágicas, tudo enquanto mantém-se fiel à real – ou não – personalidade de seus personagens. Claro, os clichês e as premeditações existem, principalmente no tocante ao romance escandaloso entre Scarlett e Julian que cresce página à página. O interessante é o modo como a autora decide retratar esse arco, polvilhando-o com momentos de ódio, paixão e terror.

O deslize ocorre com o encontro de todos os personagens no início no quarto ato. A saturação é inegável, mas resolve algumas pontas soltas que se alastraram pelo livro desde o princípio. Entretanto, essa sólida e transbordante mistura é logo ofuscada pela capacidade de Garber de brincar com as palavras e criar sentenças sem qualquer lógica gramatical aparente, mas que elevam a tradução de sentimentos e emoções para outro patamar: as descrições com cores como azul-miosótis ou vermelho-escarlate normalmente são associadas ao que os personagens sentem em determinados momentos, adicionando camadas de complexidade para a literatura jovem-adulta contemporânea.

Em suma, Caraval é uma surpresa muito interessante que definitivamente nos deixa sedentos por mais. Afinal, as resoluções estão ali, bem como o final feliz. Mas o epílogo não apenas refuta toda essa ideia burlesca do felizes para sempre, como também indica uma possível continuação ainda mais irrefreável que o original.

 

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