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Em algum lugar do passado, por volta dos anos 1960, um homem assombrado pelas suas ideias macabras e histórias fantásticas resolveu colocar tudo no papel. Foi assim que depois de várias tentativas, seu sexto manuscrito para ser preciso, Stephen King presenteou o mundo com Carrie, A Estranha. Mas não foi após o seu lançamento em 1974 que o projeto gerou um interesse gigantesco nos produtores cinematográficos.

Contado através de depoimentos policiais e boletins dos noticiários, a história percorre os acontecimentos na vida de Carrie White, uma menina que acaba de entrar em sua puberdade. Ela sofre bullyng na escola por ser o patinho feio da turma e de sua, até que em engraçada, inocência. Também sobre os abusos de sua mãe fanática religiosa, que lhe distancia do mundo e de uma comum adolescência: desejo mais profundo de Carrie. É então quando ela tem sua primeira menstruação, e não sabe o que é isso, que sofre um assédio das colegas de classe e repreensão da mãe, que acredita ser um castigo de Deus por algum pecado. Se tudo isso não fosse o suficiente, Carrie acaba descobrindo que sua mente consegue mover coisas apenas com o impulso do querer: o poder da telecinese.

Lawrence Cohen foi um crítico de cinema e tinha ingressado nas produções ao participar de Alice Não Mora Mais Aqui (Alice Doesn’t Live Here Anymore, 1974). Um de seus conhecidos chamou sua atenção para olhar um manuscrito que circulava entre produtores… o de Carrie. A paixão foi instantânea. Depois de ser bombardeado com violência infantil, telecinese e fanatismo religioso em 12 páginas, Cohen seguiu com a paixão de realizar o filme, mas ficou travado pois os direitos já tinham sido adquiridos pela Fox.

No outro lado da história temos um cineasta frustrado com o sistema dos estúdios após perder seu grande projeto O Homem de Duas Vidas para a Warner. Brian DePalma já era um nome conhecido do público pelas suas comédias fantásticas, e pelos produtores pelo seu bom desempenho com baixo orçamento. Em busca de um novo projeto, achou refúgio em um livro que supria suas necessidades de abstrato: Carrie, A Estranha. Mas não seria nesse momento que voltaria a fazer um filme de estúdio, então voltou ao seu cenário independente com Irmãs Diabólicas e Fantasma do Paraíso.

Neste meio tempo de acontecimentos, o romance de King ganhou uma boa repercussão no público e já estava entrando na lista dos mais vendidos. Carrie já estava se tornando uma leitura popular. E a Fox, sabendo da sua propriedade, imediatamente contratou Paul Monash, produtor de Butch Cassidy, para desenvolver o projeto. Paul também tinha outros projetos ativos… um deles com Lawrence Cohen. Em uma conversa entre os dois chegaram à conclusão que agora era a hora para dar início à produção do filme. O único problema é que a Fox não estava confiante com toda a violência infantil nas telas.

Por mais coincidência que seja, a representante que vendeu os direitos de Carrie do King para a Fox, acabou se tornando Vice-Presidente na United Artists. Sabendo do pesadelo que Cohen e Monash estavam passando, ela aceitou o desafio de fazer o filme sob a pretensão de ser um terror de baixo-orçamento. Lawrence aceitou o desafio de transformar o livro de memórias em uma história narrativa e escreveu o seu primeiro roteiro, sem pensar apenas nas partes de terror ou horror, mas um clássico juvenil.

DePalma foi o primeiro a aparecer para a direção, mas o último a ser escolhido. Com seu novo estilo de filme mais dramático e uma antecipação para o seu então inédito Trágica Obsessão, o estúdio lhe entregou a cadeira de diretor e o desafio de fazer um filme de terror ao baixo orçamento de 1,5 milhões de dólares, que acabou inflando para 1,8 no decorrer da produção. Imediatamente pediu ajuda ao seu colega George Lucas para reaproveitar os atores que ele não usaria do teste de elenco de Guerra nas Estrelas. A produção estava finalmente em andamento.

Trazendo boa parte da equipe, DePalma não contava que a decoradora dos seus cenários era uma aspirante atriz e tinha desejo em interpretar o papel principal desde que leu o livro. Abalada de confiança que conquistaria o papel e nervosa por disputar com nomes conhecidos, Sissy Spacek chegou ao seu teste exatamente como Carrie: sem maquiagem, cabelo úmido e tímida. Foi uma resposta imediata para todos da produção, eles tinham encontrado a sua protagonista. Spacek passou duas semanas se encontrando com o elenco e trabalhando junto do diretor para construir as nuances e performances de cada cena que progredia a história de Carrie na trama. Ela se entregou tanto à personagem que até mesmo as cenas perigosas, que exigiam uma dublê, foi ela quem realizou, por conta de sua postura e caracterização. Outros integrantes do elenco dizem que do momento que Sissy entrava na personagem era fácil de se trabalhar, pois a garota que conheciam por trás das câmeras sumia diante dos seus olhos. Tudo isso fica visível logo na primeira cena, na qual Spacek teve que encarar pânico, ação, nudez e ingenuidade mostrando às colegas a sua preocupação em não saber de onde está vindo o sangue do seu corpo – a menstruação. Foi com essa incrível e imersível performance retirada da atriz estreante e pelo talentoso trabalho do DePalma, que rendeu a ela a indicação ao Oscar de Melhor Atriz em 1977.

A produção contatou Piper Laurie, que havia se aposentado do cinema há 15 anos para interpretar Margaret White, mãe fanática de Carrie. Laurie já era uma atriz conhecida e não entendeu muito bem o porquê de realizar um pequeno filme de terror.  Foi quando leu o roteiro com uma perspectiva cômica que percebeu se tratar de uma sátira a filmes de terror – só que não era esse o caso. A atuação que ela entrega na tela é exagerada e chega ao cômico, mas foi exatamente esse ponto crucial que DePalma estava atrás. Ninguém teria uma noção de como é ter uma mãe que só enxerga que tudo além dela é pura e simples representação do pecado. É, por um certo lado, uma coisa cômica. Piper e Sissy tiveram uma química com as suas entregas e liberdade, gerando um desconforto ao assistir as cenas das duas juntas pois parece tão real os momentos de discussão, abuso e ternura. Laurie também foi indicada ao Oscar em 1977, por Melhor Atriz Coadjuvante.

Para completar o time temos Nancy Allen, a última atriz a realizar um teste para o filme. Ele ganhou o papel de Chris, a garota popular do colégio que todos os garotos cobiçam e todas as garotas copiam. Ela se caracterizou o completo oposto de Sissy, com roupas exageradas nos decotes, penteado moderno e muita maquiagem. Assim como Piper Laurie, Nancy achou que o seu papel era o alivio cômico do filme e o interpretou como o tal. Mas combinado com a atuação do então estreante John Travolta, ambos pareciam um casal macabro com um senso de humor negro que nos faz reconhecer alguns rostos da época do colegial.

Reclina sobre Amy Irving o papel de equilíbrio do filme, Sue Snell, que após sofrer uma dura da direção da escola, repara o quão foi desnecessário o abuso de todas as garotas em cima de Carrie e para se sentir bem faz um plano junto do namorado Tommy Ross, interpretado por William Katt como um clichê dos jogadores de futebol americano do colegial. Irving e Katt foram um dos reaproveitamentos de Leia e Luke, provando serem mais uteis aqui do que em Guerra nas Estrelas. Amy é a mais crível de todas as garotas dessa produção, quase que interpretando ela mesma em tela. Katt já teve que se esforçar mais, pois seu jeito mais introspectivo não coube para o que DePalma estava em busca no personagem, mas um trabalho em conjunto com o elenco, ficou bem natural que todos o conhecessem – assim como o seu personagem, o líder do futebol americano da escola.

Em um movimento ousado, Cohen misturou dois personagens para a adaptação do romance. A diretora e a professora de educação física foram personificadas em Sr. Collins, aqui somente como a professora, que tem um vínculo com todas as garotas, inclusive Carrie. Brian chamou sua colaboradora de muito tempo Betty Buckley, mais conhecida hoje por seus papéis em filmes de M. Night Shyamalan como a senhora de Fim dos Tempos e a psiquiatra em Fragmentado. Ela desenvolve um papel intrigante no filme, que mostra o bom senso dentro de uma história cheia de confusões, mas uma visão alternativa para Carrie de uma mãe que ela gostaria de ter. Tanto que as cenas mais bonitas, onde o texto transborda de diálogos esperançosos são entre Buckley e Spacek.

Com 2 meses de produção para uma estreia em Novembro, Brian e Mario Tosi, criaram elaborados storyboards para as sequências, criando assim uma linguagem cinematográfica para o longa. Algumas cenas são memoráveis como a câmera lenta nos créditos iniciais com as garotas nuas, a discussão de Carrie com a Mãe onde atrás delas tem um enorme quadro da Santa Ceia de Leonardo DaVinci, e toda a sequência final que foi filmada com câmeras simultâneas para criar o efeito da tela dividida.

Em uma campanha publicitária tímida, Carrie foi considerado pelo estúdio um fracasso antes mesmo do seu lançamento e se surpreendeu quando rendeu US$33 milhões de dólares de retorno graças ao boca-boca, boa recepção da crítica e dos então fãs iniciais do romance de King. Trouxe também um enorme retorno para todos os seus integrantes: Stephen King conseguiu mais apelo para o seu segundo romance, já garantindo uma adaptação; Sissy Spacek conseguiu papéis maiores na indústria; Piper Laurie saiu da aposentadoria e continua atuando até hoje; Brian DePalma ganhou poder para realizar filmes com orçamentos maiores em estúdios sem muita dor de cabeça e acabou se casando com Nancy Allen, que ganhou papéis de destaque como a policial Lewis em Robocop; Monash continuou a parceria com King e adaptou A Mansão Marsten; Cohen também dedicou um tempo para escrever outra adaptação de King, It: Uma Obra Prima do Medo, que têm um remake previsto para estreia este ano.

Olhando hoje para este filme é possível perceber que todos ali estão entregando o seu melhor, desde a direção à edição orquestrada de Paul Hirsch – outra peça que De Palma dividiu com Lucas, que acabou levando o prêmio por Guerra nas Estrelas. Cada cena tem alguma novidade estética ou até mesmo aquele longo suspense no final, onde acompanhamos tudo que vai declinar no grande clímax do filme, mas em câmera lenta, peça por peça, como um filme de arte. A lição é que nem todo filme de terror precisa contar somente com sustos ou apenas cenas repletas de sangue e um assassino. Basta saber conduzir um bom suspense e criar uma empatia com os personagens em um grau o suficiente para obter um resultado satisfatório ao final da obra.

Carrie, A Estranha chegou a ganhar uma continuação, uma série de TV e um remake, mas nenhum deles chegou a ser tão aclamado como este, que agora pode ser considerado um clássico.

Texto escrito por Herbert Santos

Carrie, A Estranha (Carrie, EUA – 1976)

Direção: Brian DePalma
Roteiro: Lawrence D. Cohen, baseado na obra de Stephen King
Elenco: Sissy Spacek, Piper Laurie, Amy Irving, William Katt, Nancy Allen, Betty Buckley e John Travolta
Gênero: Suspense
Duração: 98 minutos

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