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Em sua didática obra Story, o guru da escrita criativa para cinema Robert McKee cita mais de uma vez a importância de Casablanca para a compreensão de uma boa história, fragmentando seu complexo roteiro em pequenos blocos para analisar de que forma a jornada de Rick e Ilsa consegue se conectar com o público até mesmo nos dias de hoje – analisando coerentemente que um romance de guerra travestido de crítica política, por mais afastado que se mostre das novas gerações, é capaz de nos transportar para um cosmos de aparência específica, mas essência milenar. Não é surpresa que o longa-metragem dirigido por Michael Curtis no início da década de 1940 ainda seja considerado um dos melhores feitos em toda a História da indústria cinematográfica, estando lado a lado com clássicos como O Poderoso Chefão e Cidadão Kane.

À época de sua produção e lançamento, Curtis mergulhou ousou sair do lugar-comum e afastar-se das investidas fílmicas propagandísticas que visavam criar um panorama otimista em meio aos anos mais ferrenhos da II Guerra Mundial – a exemplo de Walt Disney que, com a bruta construção de seu futuro império, realizava animações de “boa-vizinhança” que buscavam polarizar ainda mais uma sociedade movida pelo medo e pela insegurança constantes. Em Casablanca, as coisas tomam um rumo inesperado ao insurgirem como crítica sociopolítica, visando até mesmo ao debate, mesmo que não tão profundo, do que realmente estava acontecendo em territórios de terceiro mundo e que eram excluídos das páginas do jornal e das frequências radiofônicas.

Rick Blaine (Humphrey Bogart) é gerente de um modesto e pitoresco café de Casablanca. Desde os primeiros momentos em cena, o personagem se mostra com uma construção reservada, introvertida, que já passou por poucas e boas e carrega consigo o mote de “não colocar o pescoço em risco por nenhum homem”. É claro que tal amargura não é ocasional e tem origens recentes, cujas consequências são vistas em sua paixão fervorosa pela bebida, capaz de matar seu antigo eu iludido pelo falso amor verdadeiro. Entretanto, essa linearidade que o mantém fora do perigo é colocada em xeque quando Ilsa Lund (Ingrid Bergman) e seu marido Victor Laszlo (Paul Henreid) adentram no estabelecimento com intenções muito mais mortais do que aparentam.

E por que tudo isso é impactante para a vida de Rick? Simplesmente pelo fato de Rick e Ilsa terem uma história tão comovente quanto trágica. Rick era líder da resistência antifascista e conheceu a sedutora expatriada norueguesa Ilsa em Paris. Após terem iniciado um caso, o nome do rebelde entra para a lista da Gestapo e ele arquiteta uma fuga com sua amante para longe da Cidade-Luz, para um lugar onde podem recomeçar do zero. Eles, pois, combinam de se encontrar na estação de trem, mas Ilsa nunca aparece, mandando um mensageiro entregar-lhe uma carta dizendo que o ama, mas que nunca mais poderá vê-lo. Desde então, Rick submeteu-se ao apaziguamento de sua rebelião e vê tudo desmoronar quando os sentimentos reacendem.

Se prestarmos bastante atenção na personalidade do protagonista, é possível deduzir o que irá acontecer em cada um dos atos. Porém, não pense que a trama de Casablanca se move através de convencionalismos narrativos, pois tudo é orquestrado com uma sutileza aplaudível e emocionante, cuja conexão interpessoal (seja com o público, seja entre os personagens) é sua principal força-motriz. A química de Bogart e Bergman é inegável, alcançando altos e baixos que mostram a irreversibilidade de uma chama que nunca se apagou – Rick ainda a ama, e isso se mostra de modo mais claro quando Ilsa o implora para conseguir enviá-los para fora de Casablanca: afinal, Laszlo é um refugiado, também líder de um dos grupos rebeldes, e que está prestes a ser capturado pelo inimigo.

A figura do antagonista é dúbia e pode ser encarada tanto pela superficialidade cênica quanto pelo intimismo microcósmico arquitetado por Curtis e pelo incrível trio de roteiristas formado por Julius e Philip Epstein e Howard Koch. À medida em que introduzem o Major Heinrich Strasser (Conrad Veidt) para tornar a trama principal mais interessante e até brincar com a ideia de gato-e-rato entre a resistência e a repressão, os próprios Rick e Ilsa tornam-se inimigos não entre si, mas para si mesmos: enquanto esta declara novamente seu amor pelo ex-amante e diz que o que sente por Viktor não passa de uma mera ajuda, aquele não consegue acreditar na estória, e a deprecia para se proteger e não se envolver com alguém que quase lhe custou a vida. Mesmo com as negações desenfreadas, a mudança atmosférica é respaldada pelo diálogos que travam em diversos momentos, incluindo numa cena específica.

Toda a premissa é concentrada na cena do Bazar, em que Rick se mostra determinado a conseguir Ilsa de volta: ambos passeiam pelos vendedores ambulantes, adentando o mercado negro em busca de passaportes falsificados que garantirão a saída do casal de Casablanca. Culpa, arrependimento e obrigação movem-nos pelas ruas, até que segredos são revelados – e a própria mulher admite o arrependimento irreconciliável de ter iniciado o caso. Afinal, desde Paris, Laszlo era seu marido – e é justamente essa quadra de palavras que marca o clímax principal, mostrando como Rick, apesar de amá-la e deseja-la com todas as forças, não poderá tê-la por razões muito maiores do que julgou e julga.

O primor fílmico com o qual Curtis conduz a sua obra é impecável: é claro, ele não ousa tanto quanto poderia com a direção, mas faz questão de mesclar sua habilidade fotográfica com estéticas expressionistas e melodramáticas equilibradas, sem ceder a exageros. Não é à toa que, em grande parte das sequências ambientadas no bar, o rosto dos personagens esteja à meia-luz: cada um deles, seja na pluralismo dos inúmeros outros refugiados que buscam se esconder dos comandos nazifascistas, seja na feição dos protagonistas em questão, esconde segredos complicados e que não podem ser revelados sob nenhuma circunstância. Para alguns, o ritmo da montagem e a arquitetura imagética podem parecer monótonos; entretanto, elas são de extrema importância para ratificar o peso dramático e até mesmo histórico do longa.

Casablanca encontra seu fim em uma das cenas mais clássicas do Cinema: o adeus de Rick e Ilsa, na qual a mulher dá adeus ao único homem que amou embarcando em um avião rumo à liberdade. Ela desaparece na névoa, e tal momento é tão simbólico para uma variedade infinita de assuntos, que é muito difícil não se comover. E, parafraseando McKee, essa jornada dramática é crítica e fundamental para compreender não apenas uma importante parte da nossa História, mas também para nos encontrarmos.

Casablanca (Casablanca, EUA – 1942)

Direção: Michael Curtis
Roteiro: Julius J. Epstein, Philip G. Epstein, Howard Koch, baseado na peça de Murray Burnett e Joan Alison
Elenco: Humphrey Bogart, Ingrid Bergman, Paul Henreid, Claude Rains, Conrad Veidt, Sydney Greenstreet, Peter Lorre, S.Z. Sakall
Gênero: Drama, Romance, Guerra
Duração: 102 min.

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