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*Este filme foi visto no 23º Festival Internacional de Documentários É Tudo Verdade 2018.

Poderíamos encaixar dentre os episódios que menos se discute sobre a história do século XX, em particular, da Guerra Fria, este que Margarita Hernández relata em seu novo filme, Che, Memórias de um Ano Secreto. Longe do estrelato, as derrotas do movimento revolucionário interessam bem menos…

Montado a partir de uma variada gama de imagens, desde arquivo, depoimentos e dramatizações, o documentário conta a história das últimas aventuras do argentino que virou a estrela cubana, Ernesto “Che” Guevara – já fora da ilha socialista.

Quando Fidel Castro anunciou a renúncia de Che como Ministro da Indústria, sem a sua presença, suspeitou-se de uma execução, ou de qualquer outra manobra duvidosa. O fato é que Che tinha partido em uma expedição para o Congo, com o objetivo de reforçar as tropas rebeldes que combatiam o domínio belga.

Mas a euforia da época e o sentimento um tanto messiânico dos militantes cubanos não contavam com aliados tão “primitivos” em seus costumes, mais afeitos aos rituais e tradições antigas que à luta armada. A falta de planejamento e organização, fizeram da campanha cubana um fiasco e, como Fidel havia lido a carta de renúncia de Che em público, o militante manteve sua palavra com o afastamento definitivo. Daí em diante, o guerrilheiro é obrigado a se esquivar, em diferentes países, das forças de inteligência em sua busca.

Para auxiliar Che nessa fuga, a ação de Físin, apelido do dentista e protético Dr. Luis Carlos Garcia Gutiérrez. Junto ao Serviço Secreto do Partido Comunista, foi escalado para mascarar Che da melhor forma possível. Não só em relação aos dentes, como aos seus cabelos, óculos, chapéu etc.

O filme consegue dar espaço e, assim, permitir algo memorável para cada um dos agentes secretos que entrevista. Apesar de uma óbvia e esperada simpatia pela figura, não deixam de ser agradáveis os momentos em que tentam reconstruir a personalidade do guerrilheiro, misturando sua seriedade (a preocupação com as ações, a fuga, a discrição rígida…) com momentos de docilidade (como quando pediu para ouvir os Beatles). O problema está no uso do biógrafo Jon Lee Anderson, que deixa o filme mais didática e só dá para a diretora algumas falas que introduzem os capítulos da história.

No geral, os méritos da equipe estão associados a um ótimo trabalho de entrevistas e pesquisa. Há muitas fotos, filmes e, nos últimos momentos, leves dramatizações, com alguns atores posando e recriando breves momentos desse ano esquecido. Em termos de cinema, porém, Margarita Hernández segue o beabá do documentário televisivo, abrindo mão do silêncio e da observação do espectador. Assim como não se propõe a dar um passo além da premissa do “ano secreto”.

A direção do documentário, no entanto, tenta montar um clima de suspense, de investigação, acompanhando a adrenalina da fuga. Mas, feito a todo instante, esse truque de ritmo dá várias brecadas incômodas que prejudicam não só o desenvolvimento, como o início e o fim do filme – ambos bruscos. Uma partida animada demais, como um filme de guerra; e um final pseudo-sentimental, com uma foto de Che quando criança, correndo na praia.

Che, Memórias de um Ano Secreto (idem, 2017 – Brasil, Argentina)

Direção: Margarita Hernández
Gênero: Documentário
Duração: 78 min

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