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Quem ouve o nome de Rob Marshall não tem muitas memórias consideravelmente boas com as quais se deliciar: afinal, o controverso diretor é responsável por alguns dos filmes mais rechaçados tanto pela crítica quanto pelo público, como Nine, cuja adaptação da vida de Roberto Fellini tornou-se um fracasso total, e, mais recentemente, Piratas do Caribe: A Vingança de Salazar, uma improvável e desnecessária “conclusão” para a saga de Jack Sparrow. Entretanto, não podemos nos esquecer de que Marshall também é responsável por levar às telonas algumas releituras interessantes de musicais atemporais, incluindo Caminhos da Floresta e, sem sombra de dúvida, o que podemos chamar de uma das singelas perfeições do cinema contemporâneo com sua obra-prima, Chicago.

Baseado na peça homônima de Maurine Dallas Watkins, a história definitivamente não se assemelha a quase nada que tenhamos visto até hoje, visto que gira em torno de um grupo de mulheres acusadas de homicídio e que agora contemplam as “maravilhas” do Pavilhão Cook County, numa época perscrutada pelos cabarés, pela dança e pelo maravilhoso swing melódico do jazz. E sim, tais informações são de extrema importância por mesclarem-se umas às outras de modo irreverente e dinâmico, mantendo o espectador numa completa imersão fílmica durante suas quase duas horas. E, como centro das atenções, temos a aspirante a vaudevillian Roxie Hart (Renée Zellweger), cujo talento bruto espera apenas pelo momento certo para ser lapidado. Em uma de suas escapadas da vida cotidiana, ela vai com seu amante Fred Casely (Dominic West) até um teatro-bar, pois aparentemente ele possui um amigo que pode colocá-la no centro dos holofotes – mas tudo não passa de uma mentira e, num ímpeto emocional, ela acaba matando-o com dois tiros.

E é exatamente aí onde a verdadeira história começa. Levando em conta que a atmosfera recria a crescente disparidade de gênero da década de 1920 nos Estados Unidos, Roxie tenta alegar legítima defesa. Porém, tentando contrapor-se às palavras da figura masculina da casa, seu marido Amos (John C. Reilly), ela acaba sendo presa e levada para a prisão, dentro da qual irá esperar por um julgamento, o qual nos é premeditado ser contra sua sobrevivência e a favor de uma dura pena de morte – o enforcamento ou a cadeira elétrica. Mas nada disso seria compreendido caso não fosse uma introdução de peso em um dos prólogos mais bem-montados de todos os tempos: a entrada de Velma Kelly.

Catherine Zeta-Jones, em todo seu carisma e talento que resgata de performances predecessoras, dá vida à companheira de cela de Roxie e principal ídolo ao qual a aspirante à dançarina se espelha. Velma é um nome conhecido e, juntamente à sua irmã Veronica, realiza um dos shows mais aguardados da cidade. Quer dizer, isso até ser pega pela polícia e ser acusada de homicídio duplo – mas não antes de nos dar uma pequena palhinha de sua capacidade artística com All That Jazz, um dos hinos do musical. O apreço por esse gênero musical alcança novos patamares aqui e, aliado a uma montagem anacrônica e paralela, serve como modo de aproximação de duas personalidades tão diferentes e que, no final das contas, se complementam.

Marshall marca uma de suas primeiras parcerias ao lado do diretor de fotografia Dion Beebe, com o qual trabalharia em produções posteriores, incluindo Memórias de uma Gueixa. A colaboração entre os dois permite que o filme transforme-se em uma homenagem mimética e de grande respaldo estilístico para a peça original, tornando-se uma construção teatral que não segue os passos do teatro filmado, mas mesmo assim resgata inúmeros elementos que aproximam e distanciam propositalmente o público em um jogo dicotômico necessário para a compreensão da obra como um todo. E não é surpresa que investida em enquadramentos e ângulos mais imóveis venha com o backstory e os desejos psico-inconscientes de cada um dos personagens, sequências durante as quais somos transportados para a ambiência de um cabaré.

A trama tem inúmeros ápices que não deixam a desejar e que permitem que elementos sub-narrativos sejam explorados em prol de um pano de fundo simples, por assim dizer. Afinal, estamos diante do julgamento de Velma Kelly, a queridinha da América, e de, posteriormente, Roxie Hart, tudo arquitetado por um dos advogados mais competentes e conhecidos de todos, o charmoso e egocêntrico Billy Flynn (interpretado pelo incrível Richard Gere). Ele emerge como a única esperança das pobres mulheres, mas não se comporta como o mítico herói que normalmente insurge em histórias do gênero. Billy é complexo, assim como as protagonistas, e tenta roubar a voz de suas clientes como forma de ajudá-las e de endossar sua reputação como o suprassumo do ramo jurídico. Tudo isso é levado na maior irreverência possível, e as coisas ficam mais interessantes quando percebemos que, na verdade, nenhuma das prisioneiras se arrepende do que fez, sentindo-se libertas por finalmente terem se postado frente a seus maridos e amantes abusivos.

O primeiro indício dessa autonomia libertária vem com Cell Block Tango, cujo momento é respaldado em uma routine de tirar o fôlego. Aqui, Roxie conhece as outras detentas de Cook County, que foram presas por assassinato injustamente; as histórias nos são contadas em uma mistura de música e diálogo, com o cenário convencional transmutado em um palco, as personagens trajadas em uma versão dominatrix-tango de seus egos, e as luzes vermelhas conversando com a aparência sombriamente neutra da coreografia on-point. Não podemos tirar o incrível poder e cuidado da direção de arte, cujos cuidados ficam às mãos de John Myhre e Colleen Atwood, optando por tonalidades mais sóbrias e lineares em contraposição à personalidade rebelde dos protagonistas e coadjuvantes.

E por falar nos personagens secundários, é aplaudível ver como cada uma das criações tem sua função – e mais aplaudível ainda saber que o responsável pelo roteiro adaptado é ninguém menos que Bill Condon (o mesmo que, mais tarde, dirigia um dos filmes da saga Crepúsculo). Condon faz um trabalho de exímia cautela para se afastar da unidimensionalidade e, de forma proposital, conferir alguns defeitos para as heroínas de modo a aproximá-las tanto do patamar endeusado quanto do humano. E essa separação logo é amalgamada na figura da matrona Mama Morton (Queen Latifah), a responsável por cuidar das garotas e garantir-lhes alguns mimos em troca de certos favores. Ela é recorrente até mesmo nas situações mais delicadas, quando, por exemplo, uma das prisioneiras estrangeiras é condenada à morte da forma mais cruel possível, conversando com os ideais de guardião.

As dosagens entre drama, humor e música são constantes, e mais uma vez ultrapassam as expectativas com a sequência We Both Reached for the Gun, performadas por Billy e Roxy. Ambos estão no centro de toda a atenção, seja na cronologia real, dentro da qual eles vão a público para falar sobre o infortuno incidente, quanto da linha psicológica, a partir da qual a vaudevillian se torna uma marionete, controlada inteiramente pelo titereiro – e que dialoga com a situação real dos dois personagens.

Chicago não deixa a desejar nem mesmo por seus defeitos – muitos podem dizer que a personagem de Zellweger é irritante, mas Roxy é propositalmente desse jeito; a obra de Marshall é uma das poucas que tangencia a perfeição musical e seus elementos são tão originais que fica difícil encontrar alguma saída formulaica ou clichê dentro de um cosmos inesperado e inteiramente envolvente e satisfatório.

Chicago (Idem – EUA, 2002)

Direção: Rob Marshall
Roteiro: Bill Condon, baseado na peça de Maurine Dallas Watkins
Elenco: Catherine Zeta-Jones, Renée Zellweger, Richard Gere, Dominic West, John C. Reilly, Queen Latifah, Susan Misner, Denise Faye, Deidre Goodwin
Gênero: Comédia, Drama, Musical
Duração: 113 min.

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