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Spoilers!

É estranho que um dos maiores heróis da Marvel tenha uma carreira tão irregular nos cinemas. Desde sua estreia no MCU em 2011 com Thor, dirigido por Kenneth Branagh, o Deus do Trovão sofre com diversas inconsistências, ideias ruins e personagens que simplesmente não funcionavam.

Porém, ao menos contava uma história de origem para o herói que, no mínimo, funcionava. Já com a sequência em 2013, dirigida por Alan Taylor, o jogo fica ainda maior e, sem surpresas, o filme permanece na mediocridade tentando reformular as ideias ruins do original. Mesmo com um espetáculo de ação – é um dos filmes mais competentes nessa área de todo o MCU, a ideia e o vilão não emplacaram, dando a impressão de ser apenas um filler importante para apresentar outra joia do infinito.

De certa forma, agora na tentativa final da Marvel em emplacar um filme solo do Thor, Thor: Ragnarok, se comporta de modo similar. É inegável que o filme seja um grande filler, mas de boa qualidade. Em uma subversão de expectativas tremenda, a Marvel decidiu adaptar o arco do Ragnarok, um dos mais sombrios do herói, em uma comédia espalhafatosa que mais se assemelha com uma paródia dos filmes Thor e de outras obras do MCU.

Raragnarok

Apesar de estamos vivenciando a hora mais escura da história do Thor: a destruição completa de Asgard, o roteiro de Eric Pearson e Craig Kyle está interessado em tornar a jornada em um pastelão de luxo. Já sabendo o que irá encontrar, é bem possível que o filme se torne uma experiência agradável, assim como foi comigo.

Ficar reclamando da natureza da proposta do longa não leva a nada, pois o filme é o que ele é: uma ótima comédia descarada que sofre um pouco quando pretende ser mais do que almeja. Não demora nada para eles estabelecerem uma promessa para o espectador: Asgard realmente será destruída por Surtur.

Exibindo o tom do filme na primeira cena, Thor é capturado por Surtur enquanto ele se aventurava no espaço em busca das joias do infinito. Depois de uma breve conversa e algumas piadas, Thor consegue subjugar a criatura e parte para Asgard a fim de pedir ajuda para Odin. Chegando lá, descobre que Loki está disfarçado de Odin e que seu pai foi banido para a Terra. Finalmente encontrando o todo poderoso deus nórdico, Thor e Loki se despedem de Odin que decide que sua hora finalmente chegou. E, no mesmíssimo instante, Hela aparece para reivindicar o trono de Asgard.

O curioso é que isso toma quase meia hora de filme, pois, como disse, o roteiro é cheio de enrolações desnecessárias. O maior exemplo disso é a inserção do Doutor Estranho no meio disso tudo. Por conta de duas piadas esquecíveis, os roteiristas criam uma problemática envolvendo o destino de Odin que só é solucionada com a inserção de Stephen Strange e seus portais mágicos.

Claro, rende uma dinâmica interessante e mais boas piadas, porém isso é completamente irrelevante para a história. Fora isso, a preparação do contraste de tons é absurda pela pressa. O diretor Taika Waititi tenta criar uma situação emocionante, mas como já não temos vínculo nenhum com Odin e por já termos sacado que o filme não se leva a sério em quase nenhum momento, o esforço é nulo. Logo, um dos momentos que seria um dos mais marcantes da saga, é fraco e flácido. Odin morre e dificilmente o espectador vai ligar.

A introdução apressada de conceitos importantes também não colabora para que o espectador sinta a perda de um personagem poderoso e querido pelo protagonista. No mesmo instante que ele desaparece, Hela sai de um portal e se apresenta – uma introdução para lá de preguiçosa para a vilã do filme. Por ser a primogênita de Odin e irmã de Thor, Hela parece ter mais direito ao trono que o deus do trovão, mas isso nunca entra em discussão de fato.

Aliás, como já virou um clichê de toda análise que se preze desses filmes MCU, novamente temos o parágrafo sobre o antagonista. Ao contrário de outros, Hela parece ter uma motivação impulsionada por um ódio paternal contra Odin, pois ela foi aprisionada por ele depois das conquistas sangrentas que trouxeram glória a Asgard. E, de alguma forma, seu imenso poder está conectado diretamente com o sucesso de Asgard – isso nunca é desenvolvido de fato, apenas apresentam o conceito para poderem derrotar a vilã posteriormente.

Apesar desse potencial bastante denso para a vilã encarnada com muita vivacidade por Cate Blanchett, não vemos nem de perto Hela se tornar memorável. Os roteiristas simplesmente não sabem muito bem o que fazer com a personagem enquanto Thor está se aventurando nas arenas de Sakkar, após ter caído no planeta enquanto viajava na Bifrost.

Logo, o clichê da dominação surge com força e a vilã se ocupa em escravizar todos que existem em Asgard. Fora isso, temos a inclusão muito forçada de Skurge, um asgardiano esforçado em ajudar Hela a manter o poder. Fora isso, as demais reviravoltas são banais e esforçadas para que entendamos que Hela fala a verdade sobre Odin e a violência do passado. Nascida da guerra e da morte, nada mais condizente que a vilã seja levemente superficial. Em uma de suas fracas cenas, temos a origem do exército genérico de mortos vivos para que os heróis desçam a porrada no clímax – assim como já vimos em outros trocentos filmes da Marvel antes.

Porém, mesmo com um núcleo antagonista ruim dividido por Hela e Surtur, ainda mais superficial e de uso narrativo estritamente instrumental para resolver o clímax, Thor: Ragnarok tem seus méritos.

A Divina Comédia

Não há nenhuma dúvida, Thor: Ragnarok é muito divertido e engraçado. Onde os roteiristas concentram seu maior poder de fogo estão nas piadas corajosas que, diversas vezes, buscam parodiar situações de filmes anteriores – algo similar, mas menos ousado, a Deadpool.

Logo, a relação shakespereana entre Thor e Loki é rapidamente substituída por uma dinâmica de irmãos pirracentos com um tentando levar a melhor que o outro. Isso não me incomodou, mas certamente dá uma aura de autoconsciência para o filme que pode tirar diversos espectadores da experiência.

Momentos como Loki comemorando a surra similar que Hulk dá em Thor ou quando Thor tenta fazer o ritual da Viuva Negra para acalmar o golias esmeralda deixam esse sentimento bastante evidente. Mesmo assim, as piadas são certeiras.

Portanto, a maior parte das cenas funciona para inserir novas piadas envolvendo elementos que os espectadores fãs de longa data certamente ficarão satisfeitos. A história só ganha força com a inserção de Hulk e das cenas destinadas para explorar o bromance com o Thor. São diálogos bem desenvolvidos e divertidos, mas que nunca se propõem a aprofundar esses personagens e o terror que Hulk sente, além da longa ausência de Bruce Banner desde o sumiço do herói em Era de Ultron.

O mesmo ocorre com os demais novos personagens. O Grão-Mestre de Jeff Goldblum tem carisma, mas não desperta maior interesse funcionando como um antagonista tapa-buraco. Já Tessa Thompson como Valquíria é melhor construída, revelando um passado traumático de um conflito sangrento contra Hela que gerou seu exílio e perda de fé no ofício da guarda real de Asgard. Mesmo que não haja esforço algum para que haja uma catarse na personagem decidir ir ao socorro de Asgard, a relação entre ela, Thor e Hulk funciona com perfeição tornando a falha menos evidente.

Por adaptar livremente o fantástico arco Planeta Hulk, temos alguns personagens dessa saga como Korg e Miek. Com Korg, a comédia é bastante interessante e praticamente sem freios. O maior efeito cômico surge pela completa ingenuidade do personagem grande e rochoso que também entra em contraste com a voz fina e leve que Taika Waititi usa na dublagem.

A principal razão da existência de Thor: Ragnarok é, além do lucro, mostrar uma nova jornada de autodescobrimento do protagonista. Como Hela destrói o Mjolnir com facilidade, Thor perde seus poderes “elétricos”. Trabalhando com outro clichê muito manjado, Thor descobre que na verdade o poder sempre estava dentro de si e o que o martelo mágico apenas canalizava a concentração de seu potencial oculto.

Através de uma boa montagem simulando pancadas das quais Thor parece não aguentar, Taika usa imagens de Odin intercalando com a ação, até culminar na explosão de poder do herói. Algo tão funcional que ele acaba usando duas vezes ao longo do filme. A questão mais profunda do filme – e que também não funciona por causa da paródia e da interrupção rotineira de piadas em momentos tensos – tem a ver com o Ragnarok, a profecia da destruição completa de Asgard pelas mãos de Surtur.

Surpreendentemente, em uma boa escolha bastante corajosa, o clímax do filme consegue se distinguir consideravelmente de outros filmes Marvel até então. Por um simples motivo: os heróis fracassam. Asgard não é salva, mas sim destruída por conta deles. Para deter Hela e sua escalada crescente de poder, Loki e Thor libertam Surtur com a Chama Eterna para que a entidade demoníaca enfim cumpra a profecia. Aliás, até 70% do longa, vemos como o desenvolvimento de Thor é mal escrito ou elaborado com preguiça. Ao contrário dos filmes anteriores, Thor não é um protagonista ativo. Todo o segundo ato é concentrado em situações que Thor é jogado sem mais nem menos. Mesmo que isso converse bem com a destruição do Mjolnir e da falta de controle do protagonista sobre o seu redor, é um tanto bizarro vem um personagem importante sem muita proatividade enquanto é jogado em diversos cantos. Somente com a chegada em Asgard que finalmente temos o protagonista dando origem a acontecimentos importantes. 

O filme justamente termina com todos lamentando enquanto observam Asgard sendo completamente aniquilada – até suas fundações. Esse já é o segundo filme do MCU que temos os heróis contemplando algo fatídico e pesaroso em sua conclusão – a tendência foi inaugurada por Guardiões da Galáxia Vol. 2. Espero que isso não se torne um novo clichê do MCU, pois todos sabemos quanto tempo que demorou para esses filmes abandonarem a fórmula do clímax de objetos enormes caindo do céu – é só lembrar de Vingadores, Era de Ultron, Soldado Invernal, Guardiões da Galáxia, Homem-Aranha: De Volta ao Lar e Capitão América.

Sobre a questão do filler que apontei na introdução, basta sermos honestos e olharmos friamente as opções da Marvel no futuro. Realmente é preciso uma história de 130 minutos para mostrar Thor dominando o poder completo de sua divindade, perdendo o olho direito, além da destruição de Asgard? Isso seria um estopim maravilhoso para iniciar o primeiro ato de Vingadores: Guerra Infinita, previsto para o ano que vem. Simplesmente não é necessário, pois os eventos encaixariam como uma luva na narrativa do filme evento. Logo, a maior parte de Thor: Ragnarok perpetua o sentimento de filler intenso. Novamente, isso vai variar de espectador para espectador colocar na balança da relevância desse filme dentro do MCU.

Por fim, Ragnarok traz uma história medíocre, com transformações óbvias na jornada que é deveras superficial – facilmente esse filme está entre os mais supérfluos do estúdio até agora. Porém, há uma boa mensagem a respeito dos medos da imigração e sobre o verdadeiro significado de lar. Um final agridoce para um filme tão engraçado. 

A Direção do Imigrante

Taika Waititi é um neozelandês de sucesso. Com o aclamado documentário encenado O Que Fazemos Nas Sombras, acabou entrando no radar de Hollywood, hoje tão carente de talentos novos que aceitem fazer os enlatados mais badalados da indústria.

De certa forma, a sina indie atinge Thor: Ragnarok tanto negativamente quanto positivamente. É evidente que o diretor teve bastante liberdade na inserção da comédia mais ousada do longa e do tom paródico inédito até então. Com tremenda aptidão para o humor, Waititi consegue tirar leite de pedra e tornar quase todas as cenas do filme com esquetes muito funcionais e até mesmo orgânicas – quando não interrompem o drama (pedigree do palhaço milionário Kevin Feige).

Porém, esses filmes não vivem só de piada, mas sim de espetáculo. No que tange o campo da montagem, o uso do teletransporte e da confusão mental no Sanctum do Doutor Estranho é soberbo de tão bem-feito e encaixado. Mas as coisas mudam quando a necessidade de efeitos visuais grandiloquentes surge nas cenas de batalha.

De fato, o duelo entre Thor e Hulk é um dos pontos mais altos do filme. apesar do bizarro CGI de Hulk que parece diminuir e aumentar a cabeça do personagem a depender do ângulo mesmo que os planos capturem as figuras na mesma distância, ou seja, uma questão de perspectiva um pouco bizarra. Já a ação é relativamente bem filmada e organizada, lembrando até mesmo torneios de anime em sua coreografia bem desenvolta. Mas, quando enfim os heróis caminham para lutar com diversos oponentes genéricos, as coisas desandam horrivelmente. Não somente pela organização sem graça das cenas, mas pela qualidade irregular dos efeitos visuais e, principalmente, de exagero coreográfico delas.

Por exemplo, na cena que Hela surge em Asgard e começa a trucidar o exército do reino, não há menor graça dentro da encenação por ser muito genérica. O que destaca, com toda a certeza, é o nível mais agressivo da violência. Mas quando o espectador percebe que os bichos digitais e dublês estão esperando a vez para atacar a vilão ou os heróis, toda a magia e energia da cena se esvaem. É preciso um pouco mais da ação imprevisível de Logan ou de Guardiões 2.

Ao contrário dos irmãos Russo, diretores completamente psicóticos na montagem desequilibrada das cenas de ação – exceto a já histórica  cena do aeroporto, Taika parece ter um refinamento mais elegante e clássico para com a câmera. O filme inteiro não foge da linguagem clássica, com muita ênfase de câmera no tripé, em gruas ou travelling. Ou seja, a imagem é sempre estável, por mais que a situação retratada seja explosiva.

Apesar dessa abordagem muito menos afetada com o principal aparato cinematográfico, Taika não é um diretor caprichoso com suas composições. Apesar de não serem feias e haver uma predileção grande por enquadramentos centrais – para facilitar o compreendimento das cenas de ação também, o visual do longa é relativamente empobrecido, apesar dos grandes esforços do design de produção tentar tornar Sakkar um lugar excêntrico, cheio de cores aberrantes como verde-água e rosa choque.

Há uma inspiração cromática tirada dos filmes dos anos 1980, principalmente de Flash Gordon, mas como a maioria das cenas ocorrem de dia, nunca temos o feeling neon que o design de produção tenta emplacar. Além disso, o problemático retorno do baixo contraste se faz presente deixando o visual bastante estéril e pálido. Simplesmente vemos que as cores eram para ser muito mais vibrantes de como estão retratadas na imagem.

O mesmo ocorre com a trilha musical de Mark Mothersbaugh. Apesar de ser bastante original dentro do MCU, a música sempre é bastante tímida e quieta com seus sintetizadores que deveriam estar explodindo energia assim como ocorre em Tron: O Legado. Voltando para Waititi, é curioso que quando o diretor finalmente adquire recursos para mostrar o poderio imagético do filme, ele acerta em cheio. Claro que estou falando das gloriosas composições inspiradas na arte renascentista durante o flashback de Valquíria e suas companheiras lutando contra Hela – há sim uma vibe de Snyder a la 300 nessas imagens.

Mesmo não oferencendo o pacote completo de um blockbuster, não posso ser injusto com o mérito do diretor com seu elenco. É impressionante o que ele consegue fazer em termos de entrega cômica com Chris Hemsworth e Mark Ruffalo, esbanjando talento cômico. O diretor consegue pensar em contrastes e piadas nonsense que tornam as cenas com os dois personagens em um verdadeiro prazer. Digamos que há certa mistura de estilo e tendência da comédia perpetrada por Larry David e Woody Allen, só que adaptadas para a realidade do estúdio e da censura do filme. O resultado é arrebatador de tão bom. Sem exageros, Thor: Ragnarok é o melhor filme de comédia deste ano.

A diversão do Ragnarok

Quem é fã de longa data do personagem e dos quadrinhos, pode ter ficado decepcionado com a abordagem superficial que a Marvel decidiu adaptar uma das histórias mais densas do deus do trovão. Porém, analisando o longa pelo o que ele é, dá para notar com facilidade que a comédia de erros de Thor é uma experiência divertida e também cheia de falhas.

É evidente que é um filme feito pelas piadas e que elas, infelizmente, também acabam conduzindo a história. Pelo tom paródico, é impossível levar Ragnarok a sério quando o diretor almeja emocionar o público. Com uma ação medíocre e história rasa, a presença de Hulk, o trabalho de elenco estupendo e a comédia gloriosa, acabam tornando a experiência de assistir ao filme bastante agradável e distrativa.

No caso, seria o nível mais puro de entretenimento descompromissado. Diversão, pura e simples.

Thor: Ragnarok (EUA/Austrália, 2017)

Direção: Taika Waititi
Roteiro: Eric Pearson, argumento de Christopher Yost, Craig Kyle e Eric Pearson
Elenco: Chris Hemsworth, Mark Ruffalo, Tom Hiddleston, Tessa Thompson, Cate Blanchett, Karl Urban, Jeff Goldblum, Idris Elba, Anthony Hopkins, Benedict Cumberbatch, Taika Waititi, Clancy Brown
Gênero: Aventura, Comédia
Duração: 130 min

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