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Steven Spielberg, em seu terceiro longa-metragem para os cinemas, advindo do razoável Louca Escapada e do estouro de sua primeira obra-prima, Tubarão, já estava devidamente ciente dos elementos que escolhera e das influências das quais se espelhava para guiar sua carreira pelos próximos 27 filmes que se seguiriam.

Abordando pela primeira vez o terreno da ficção científica, Spielberg opta por uma abordagem única e pouca convencional ao escolher focar nas reações de cidadãos comuns a um evento que se provaria transcendental ao invés da alternativa fácil das ramificações durante um ataque alienígena. Nessa premissa, o diretor revelava uma das maiores marcas de suas filmografia: o espiritualismo e a religiosidade de seus temas e tratos.

O personagem interpretado por Richard Dreyfuss, Roy Neary, representa uma alegoria a Saulo, um homem desequilibrado e desesperançoso, que durante uma passagem na estrada de Damasco presencia um milagre ao se ver diante de uma manifestação divina ultra-iluminada onde suas intenções de perseguição aos seguidores de Jesus eram questionadas por Deus, resultando em uma cegueira temporária. Roy traça um rumo parecido onde é surpreendido pelo brilho luminoso da chegada de seres extraterrestres no meio de uma estrada e é consumido por uma espiral de loucura e obsessão para seguir os sinais voluntária e involuntariamente causados pela manifestação espacial que deixou suas marcas avermelhadas de terceiro grau após o contato.

A busca de Roy pelo fenômeno o deixa em completo estado de caos para com sua vida pessoal onde até mesmo sua casa, virada do avesso e sem cuidados básicos, reflete sua negligência familiar e falta de harmonia em diversos campos de sua vida, antes sem ambição e grandes perspectivas. Após compreendida a alegoria em torno da jornada de Roy, fica visivelmente pré-determinado: o personagem só encontrará a paz na luminescência dos seres responsáveis pelo contato. Não por acaso o lugar escolhido para se estabelecer o clímax, a trama envolvendo o pouso dos seres e a investigação científica em torno do evento – com participação recorrente e inspirada de François Truffaut, o diretor preferido de Spielberg – fora uma montanha.

Se Deus contactou Moisés em uma montanha, é na mesma unidade rochosa que Roy encontrará o que procura.

Onde Spielberg erra talvez seja na escolha do trato de seus personagens principais além da alegoria. Por se tratarem de personagens desgostáveis, que tomam atitudes reprováveis devido ao seu estado mental caótico, o diretor, através de um ritmo lento e cadenciado, evita demonstrações de construção mais ampla e acaba os limitando à busca por seus objetivos, prejudicando a relação entre eles – a de Roy e Jillian é especialmente mal concebida – e a observação de características, se não admiráveis, ao menos mais identificáveis, como as que demonstrou obter total domínio ao lidar com os três personagens principais de Tubarão – a cena do Indianápolis é um exemplo fundamental.

Mas não é só na diegese que Spielberg traça suas marcas autorais e experimenta suas simbologias. Com sua imagética, o diretor demonstra compreender o segredo para um auxílio temático poderoso: a concepção de chaves visuais. Como uma poesia de rondó, Spielberg e o cinematógrafo Vilmos Zsigmond criam rimas e simetrias visuais que complementam a narrativa com um uso de cores confortável – há tons avermelhados, alaranjados e azuis espalhados em diferentes atos do filme – para culminar em uma ênfase total na chegada do branco pela entrada da nave, realçando o maravilhamento dos personagens com as fontes das cores.

Na técnica, ao abraçar a ânsia de se tornar um mestre, Spielberg evidencia suas influências vindas dos maiores mestres de suas respectivas gerações e lugares como os close-ups, planos detalhe, reaction shots e wide shots de John Ford, os planos abertos noturnos geograficamente reveladores de David Lean e a busca pela antecipação de Hitchcock. Para o terceiro ato, o diretor busca dar ao espectador o típico impacto digno de uma experiência sensorial raramente alcançada no cinema. Andrei Tarkovsky e o 2001: Uma Odisséia no Espaço de Stanley Kubrick servem como os grandes expoentes.

Quando o contato da paz surge, surpreendentemente, no lugar de uma ofensiva, uma sucessão de cores eletrônicas se une a um planejamento sonoro de flautas, cornetas e trombones criando composições quase infantis. O impacto é ainda maior pela lógica da trilha sonora composta por John Williams ter obedecido ao longo do filme um crescente melódico de antecipação e suspense – com os clássicos agudos na dianteira se encerrando com os graves – dando lugar a uma inacreditável confluência de tons. Só resta o maravilhamento.

Pela comunicação ser um fator fundamental e determinante do esmero dos temas, a importância da linguagem encerra o filme como um elemento que, para os mais atentos, já vinha sido firmado anteriormente no filme – perceba na quantidade de vezes que os aparelhos de rádios, telefônicos e televisores são evidenciados e seguem sempre presentes. Se A Chegada, de Denis Villeneuve, em 2016, abraçou intrinsecamente a abordagem do tema, o modo de fazê-lo foi deixado à beira por Spielberg com seu Contatos e seus planos médios, de conjunto e gerais em frente à luz.

Mesmo que Contatos Imediatos do Terceiro Grau não seja o melhor filme do diretor, com os dois primeiros atos que não dividem o mesmo peso do terceiro, ao menos é reconhecido como um dos mais engenhosos, esforçados e com uma das concepções mais genuinamente dignas. Não é só a linguagem puramente comunicativa que estamos acostumados a ver e reconhecer mas o uso de uma verdadeira odisseia pelo mundo da imagética conforme e plenamente unida a diegese. Um triunfo causante dos mais profundos e imediatos contatos com quem o absorve e uma ode ao poder alegórico de uma mensagem.

Contatos Imediatos do Terceiro Grau (Close Encounters of the Third Kind, EUA – 1977)

Direção: Steven Spielberg
Roteiro: Steven Spielberg
Elenco: Richard Dreyfuss, Fraçois Truffaut, Melinda Dillon, Teri Garr, Bob Balaban, J. Patrick McNamara, Warren J. Kemmerling, Cary Guffey, Roberts Blossom
Gênero: Ficção Científica
Duração: 138 min

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