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Obs: Este texto contém spoilers.

Quando nos deparamos com uma filmografia “peculiar” como a de David Lynch, é talvez facilmente reconhecível o seu estilo absolutamente autoral, que o segue desde os primórdios sombrios de Eraserhead até o mundo alucinógeno da atual temporada de Twin Peaks. É sádico, único, e, não importa quantas vezes ele se repita, Lynch sempre manteve sua linguagem 99% original, tanto no que se refere à construção de uma narrativa intrigante quanto à criação de um mundo dominado pela insanidade. Mas, talvez, eu esteja me prendendo demais ao estilo que ele emprega em suas mais conhecidas e melhores obras. Só assistam a Cidade dos SonhosEraserhead, A Estrada PerdidaImpério dos Sonhos e outros para entenderem o que falo e serem levados pela jornada surrealista que nos leva por dentro do subconsciente humano.

Claro que Uma História Real ou O Homem Elefante, duas belíssimas obras, podem ser uma exceção a essa “regra”. São estudos de personagens focados 100% nos dramas pessoais que assolam seus protagonistas e surpreendem pelo seu senso de positividade, apesar de possuírem tons pesados e bucólicos. Sendo assim, quando vemos um filme como Coração Selvagem, já sendo familiar ao estilo pessoal do diretor e conhecendo suas escapadas e transgressões, vemos um filme que se encaixa perfeitamente bem no meio dos dois lados da moeda. Atenção! Com isso, não busco enfatizar que o filme se trata de uma obra-prima avassaladora ou sequer o melhor filme do diretor, mas se trata sim de uma obra que merece ser melhor analisada e apreciada. É o filme que  sintetiza as duas vertentes que podemos ter no diretor, tudo refletido na jornada pessoal do seu casal de protagonistas.

 

Diferente, mas o mesmo de sempre = O perfeito Lynch

Um incêndio com um forte senso de beleza explode na tela; logo depois, um assassinato sanguinolento acontece do nada; meses se passam e vemos esse jovem casal de rebeldes apaixonados fugindo pela estrada e sendo perseguidos pela louca mãe da jovem e por tenebrosos criminosos. Logo de cara, você se depara com todos esses elementos e já sabe que está frente a um filme totalmente lynchiano. Sua estranha fixação por fogo, carros e a estrada, e a constante cor vermelha passando pela tela; personagens assustadores e bizarros; o amor proibido entre um casal de jovens; e claro, a trilha sonora nada menos que soberba e variada em suas diferentes tonalidades.

Mas, em vez do diretor seguir o caminho “esperado” dele, fica claro que  o que está acontecendo é a fuga desse casal de apaixonados rumo ao desconhecido, e o filme não os deixa de acompanhar por quase nenhum momento, ao mesmo tempo que não resiste em querer costurar um ar de mistério sombrio significantemente confuso envolta do passado do casal e do histórico criminoso da mãe Marietta, interpretada soberbamente por Diane Ladd. Por que ela odeia tanto o Sailor de Nicolas Cage? Por que Marcelle Santos, de um temível J.E. Freeman, o criminoso contratado por ela, mata seu inocente amante (Harry Dean Stanton) no meio disso tudo sem razão aparente? Quem raio é esse outro mafioso interpretado por William Morgan Sheppard, cercado de mulheres nuas e que age como líder de um culto secreto? Para onde Sailor e Luna estão indo?

São perguntas que se intricam uma em cima da outra e as respostas nunca são claras. Talvez não importem, mas o porquê de Lynch dar tanta ênfase a elas quando a jornada tão divertida e descolada de Sailor e Luna deveria estar sendo o foco principal? É um tropeço narrativo do diretor caindo em seus próprios “exageros”? Não mesmo! O filme é bem comedido. Se não tivesse o nome de Lynch como diretor, esse filme podia passar risco de ser confundindo com um filme mais surreal dos irmãos Coen, não só por algumas bem pontuadas tiradas de um inesperado humor negro, como também algumas personificações como a do clássico Boby Peru, de Willem Dafoe, em seu look mais asqueroso de todos os tempos, e talvez o mais engraçado também!

Um filme tão divertido que se engrena emocionalmente de forma pulsante pelo seu casal principal, com ambos Laura Dern e Nicolas Cage em suas melhores formas. Enquanto Cage parece incorporar sua própria versão jovial rebelde e tão cheia de um flamejante coração digno de um Elvis pós-moderno, Laura Dern é a pura doçura, sensualidade rebelde e a pureza jovial personificadas em uma só pessoa. Facilmente dois dos melhores personagens que Lynch já criou, e um dos casais mais apaixonantes do cinema, com ambos nutrindo uma carinhosa química, sendo tão diferente um do outro, mas se mantendo unidos debaixo da crença de um só sentimento! Então, por que Lynch busca trazer uma tonalidade tão sombria e misteriosa para uma história de amor tão pura e simples?

Porque é uma narrativa movida por personagens encarregados dessa carga bizarra e misteriosa, assim como o grande Veludo Azul, e, coincidentemente, ambos filmes lidam com os temas sombrios deturpando a inocência de formas bem similares. Só que, enquanto em Veludo Azul o seu lado surreal parecia ter algum “sentido” impregnado no desenvolver da narrativa, em Coração Selvagem tudo parece formar um mistério em cima de outro mistério. Esse é seu cinema, o cinema dos simbolismos. Nada pode significar tudo, e o que não tem sentido pode tomar forma de algo talvez brilhante(?!). Basta tentar arduamente ver o que Lynch busca querer dizer em meio de tantos bizarros simbolismos e caracterizações ou será realmente que ele quer dizer algo?

O Mágico de Oz lynchiano

Não é muita novidade para os fãs do diretor e para os fãs do filme o quão notável é sua fixação pelo clássico Mágico de Oz. Suas inúmeras referências e bizarras homenagens podem ser encontradas em quase todos os seus filmes, mas a influência em Coração Selvagem talvez seja a mais estampada e descancarada. Mas, afinal, o que raios pode O Mágico de Oz ter haver com uma história tão bizarra quanto essa? Estruturalmente, talvez, nada, porém, não são só em certas bizarras caracterizações que encontramos as semelhanças e influências da clássica história no filme de Lynch.

O Mágico de Oz, em seu core, é uma história de descobrimento, uma aventura rumo ao que podemos encontrar no outro lado do arco íris de nossas vidas, e talvez Coração Selvagem seja exatamente uma história sobre isso. Assim como Dorothy e sua trupe, Sailor e Luna buscam algo na sua infindável viagem pela estrada. Um lar? Redenção? Apenas continuarem indo pela estrada de tijolos de ouro até serem completamente felizes em seu amor proibido, enquanto são perseguidos pelas sombrias forças do mal do mundo que já engoliram sua mãe e a transformaram na bruxa má do Oeste, e o pior mal que a bruxa do Oeste tem a invocar aqui são os pérfidos sentimentos de inveja, ciúme, fixação e ódio inexplicáveis que ela tem por Sailor e o amor dele para com sua filha.

Até a jornada do casal compartilha certas semelhanças: o tornado aqui pode ser o incêndio que inicia o filme e que mais tarde descobrimos que foi o mesmo incêndio que destruiu a casa de Luna e matou seu pai, e com ele toda sua vida sofrida nas mãos de mafiosos e estupradores, fazendo-a conhecer Sailor, que era o motorista de um deles, o demoníaco Santos; a jovem que eles cruzam no acidente de carro na estrada com um sério ferimento na cabeça pode simbolizar o homem de lata ou o leão que eles não puderam salvar, chegaram tarde demais; o Boby Peru e a gangue liderada por Juana, personagem de uma tenebrosa Grace Zabriskie (que possuí um olho cego assim como a Bruxa do Oeste), podem simbolizar os macacos voadores, escravos do puro mal; e a figura do Mágico de Oz aqui pode tanto ser talvez em Marcelle Santos, o covarde que se esconde por detrás de Marietta e age por trás dos bastidores, ou o Mr. Reindeer, o mafioso sexual que contrata os tenebrosos criminosos.

E Sailor, aqui, pode ser o espantalho, o primeiro amigo, o primeiro amor de Dorothy – Luna. Seu primeiro e único amor e guia em um mundo onde ela só conhecia o mal. E com ele busca encontrar seu lugar para além do arco íris ou a estrada de tijolos de Ouro, enquanto a jornada de Sailor é exatamente encontrar seus sentimentos, seu coração (como o Homem de Lata), que tanto teme assumir as responsabilidades e ter que amadurecer e, talvez, perder sua liberdade individual, simbolizada em seu estiloso casaco de cobra. Ao mesmo tempo que luta com seu lado selvagem, que pode explodir a qualquer momento, um sinal de sua insegurança e auto-depreciação, como o Leão covarde talvez.

E, no final, um dos mais lindos que alguém verá, quando ambos se reencontram, e o universo cercado de carros perigosos e a morte e a violência sempre presente, está o amor entre ambos, simbolizados em seu filho, a pureza, que sempre esteve ali ao lado deles e pouco notaram, como o cão Totó, foi sempre o amor que eles buscavam mas sempre tiveram batendo forte dentro de cada um. E o mundo selvagem, pervertido e insano tentou tirar isso deles.

Uma simples história de amor!

Coração Selvagem talvez possa se resumir de forma forte a isto: é uma viagem rumo ao amadurecimento emocional. Sobre como o que é puro e bom nesse mundo tenta ser deturpado pelo mal que pode estar em qualquer lado e canto. Como Luna diz em um belo momento do filme: “O mundo é selvagem por dentro e tão estranho por fora (…) Queria que você cantasse Love Me Tender. Queria estar em algum lugar além do arco íris.”.

Ao mesmo tempo em que é uma ode de Lynch à música, à juventude e ao amor selvagem, tudo personificado em um de seus filmes mais bizarros e dos mais puros de coração. O que mais você pode exigir dele aqui? Já repararam que esse texto faz muitas perguntas, assim como o próprio filme as levanta. Talvez no final basta apenas aceita-lo do exato jeito que é, que nem Luna aceita Sailor, que nem os fãs aceitam seu grande David Lynch. Não é perfeito, mas assim como seu casal imperfeito, é deveras belíssimo e apaixonante!

Coração Selvagem (Wild At Heart, EUA – 1990)

Direção: David Lynch
Roteiro: David Lynch
Elenco: Nicolas Cage, Laura Dern, Diane Ladd, Harry Dean Stanton, Willem Dafoe, Isabella Rossellini, Crispin Glover, Grace Zabriskie, Sherylin Fenn, Sheryl Lee, David Patrick Kelly, Freddie Jones, 
Gênero: Drama, Suspense
Duração: 125 minutos

 

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