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2017 tem sido um ano, no mínimo, interessante para o cinema. Entregando surpresas atrás de surpresas e, até agora, pelo menos para o crítico que vos escreve, nenhuma decepção, chegou a vez do gênero horror obsequiar seu tributo. E não da forma que você esperava.

Filmes que abordam a temática racista não são novidade em Hollywood. Pelo menos nos últimos 35 anos clássicos instantâneos como A Cor Púrpura, Amistad, 12 Anos de Escravidão foram lançados e outros como Histórias Cruzadas, Mississipi em Chamas e O Mordomo da Casa Branca também obtiveram enorme valor. Entretanto, a maioria dessas obras tratavam o tema de forma a estar ligado ou com a escravidão ou com a busca dos direitos civis nos anos 60 em diante, tendo seus melhores exemplares limitados a um já conhecido terreno. De forma alguma diminuo a importância temática de tais obras mas também reitero em dizer que o tópico pode se dar de forma bem mais ampla, como, finalmente, vemos aqui em “Corra!”

Seria muito fácil para o diretor e roteirista Jordan Peele – novato no gênero e na cadeira de diretor, visto que sua especialidade se concentrava em roteirizar obras de comédia – embutir o longa com o conflito clichê “brancos antagonistas x negro herói” e discurso progressista apostando nos manjados jump scares. Não se engane, o conflito se dá realmente entre essas duas partes, porém fugindo totalmente da zona de segurança hollywoodiana de crítica. É aqui que a obra ganha um valor inédito.

Logo de início, Peele, nos deixando completamente imersos através de um plano sequência com direito a troca de eixo, já nos apresenta a um dos principais pontos a serem enfrentados pelo protagonista ao exibir um diálogo entre um  homem negro em um subúrbio com a pessoa do outro lado da linha telefônica a respeito do seu sentimento de deslocamento e confusão ao andar por aquela região.

É assim que o protagonista, Chris Washington, é apresentado ao ter de fazer uma visita a família de sua namorada, Rose, já presenciando na estrada um acidente envolvendo um cervo – elemento que seria restaurado mais tarde no filme – e um caso de racismo com um policial que para o casal. Chegando na residência, Peele sabiamente enquadra Chris se apresentando para a família com um plano aberto se afastando cada vez mais, com os personagens ao fundo no centro, até estabilizar o quadro com um outro personagem, um dos empregados, em foco. O diretor estabelece duas coisas aqui. Que o início de tudo (a apresentação) terminaria com aquele empregado (como vemos ao final do filme) e que a entrada naquele local significaria o afastamento gradual de Chris de si mesmo.

Um diálogo a respeito de cervos é iniciado quando o casal conta a respeito do acidente na estrada, já reiterando a importância do elemento para Dean e fazendo uma conexão com um acontecimento futuro. O mesmo acontece com Jeremy durante o jantar em uma conversa sobre luta. Peele vai criando, assim, uma onda de mistério por trás de cada membro da família e dos empregados da residência.

Mas é com Missy que o principal fator de virada do roteiro se desenvolve. Durante uma cena de hipnose, Peele aposta no jogo de contrastes ao mostrar Chris sentado confortavelmente em uma cadeira enquanto Missy bate a colher em uma xícara. Todo o ambiente é  acomodador, familiar, iluminado e aconchegante, com a fotografia seguindo dando ênfase em cores mais quente. Já no momento em que Chris entra no estado final da hipnose, é enquadrado dentro de sua consciência se afastando da luz, em um meio totalmente escuro e desolado.

Essa cena em específico, para alguns, pode evidenciar, talvez, a maior deficiência de Peele durante o longa: a entrega de pistas excessivas ou revelações das viradas antes delas acontecerem. Isso se intensifica ainda mais no trecho da reunião com os membros do círculo interno de amizades da família. Não se trata, portanto, de uma técnica que, por exemplo, Shyamalan usaria, de somente revelar as viradas para o público através das descobertas do próprio protagonista, com ambos descobrindo ao mesmo tempo. Tome A Visita, da mesma produtora, como exemplo na hora de analisar a virada principal para entender o que falo.

É no trecho em questão que a crítica social que mencionei no início do texto vai ganhando mais força. Dean já havia mencionado antes que votaria em Obama, presidente eleito pelo Partido Democrata que tomou posse em 2009 nos Estados Unidos, para um terceiro turno. Durante a reunião vemos que o grupo elitista apresenta um discurso politicamente correto que tenta forçar uma premissa de inclusão para o protagonista, em uma falsa simpatia, nunca o tratando com naturalidade, visivelmente o deixando incomodado.

Aqui reservo espaço no texto para elogiar a coragem de Peele para retratar no longa um dos problemas sociais mais graves que vivemos hoje em nossa sociedade. Trata-se de criticar o perfil de pessoas que se utilizam de um discurso esmerado para com as supostas minorais tentando elevá-las, resguardando elogios e os colocando nas posições de vítimas que merecem privilégios para, na prática, mostrarem que as palavras não passaram de meros atos superficiais em prol de um projeto maior de poder. Chris, logo, tenta ser usado como massa de manobra para ser convencido de que está sendo aceito dentre o grupo. Humilde como é, o protagonista se sente cada vez mais deslocado do meio visto que nunca é reconhecido por seu caráter, papo ou simpatia e sim por sua cor de pele. Nunca como um ser humano comum a qualquer outro. E sim como um indivíduo que possui maior concentração de melanina, algo que, inclusive, é mencionado em uma declaração de extremo mal gosto por um dos convidados ao afirmar que a “cultura negra está na moda”.

Arrisco dizer que a elite liberal democrata nunca havia recebido um puxão de orelha tão certeiro e sarcástico em Hollywood quanto este. Um ato louvável e que foge das manjadas críticas e perseguições a figuras conservadoras, quase sempre religiosas, que inundam as produções do meio.

Voltando para o desdobramento da história, as viradas começam a acontecer – todas telegrafadas – para culminar no aprisionamento de Chris. A principal revelação que vem a partir desse acontecimento talvez seja o elemento decisivo para o espectador comprar ou não a história do longa. Podendo ser vista como algo digno de um plano de vilão de um desenho animado ou simplesmente o fato de Peele querer se divertir com o absurdo e o exagero. O transplante de cérebro do indivíduo branco para o negro, seja por seu físico avançado ou, no caso de Chris, por seus olhos servirem de motivação para um dos integrantes cegos.

O que se segue é o esperado callback do protagonista assassinando um por um dos membros da família, após escapar do aprisionamento. Perceba como todos os elementos evidenciados anteriormente para determinados personagens reaparecem na hora de suas mortes. Dean é assassinado através de uma cabeça de um cervo empalhado; Jeremy é assassinado após uma luta; Missy por perder seu meio de controle (a xícara com a colher); a matriarca – que se revelou estar no corpo da empregada – o agredindo fazendo bater o carro e Rose, morta por um de seus ex-namorados.

Depois de toda a chacina, certamente inspirada em Quantin Tarantino, a insegurança do protagonista é posta à prova novamente quando vemos a chegada de uma viatura policial e Rose, ainda sangrando, pedindo ajuda, obrigando-o a levantar os braços para, no final, perceber que se trata de seu amigo da Segurança de Transporte Rod Williams – um alívio cômico eficiente durante o longa – que estava investigando os relatos de Chris sobre a lavagem cerebral em indivíduos negros na casa da família. Só resta ao espectador respirar aliviado com outra cutucada crítica do diretor.

Terminando exatamente onde deveria, o filme me deixou bastante pensativo sobre a perspectiva que usaria para analisá-lo. A intenção de Peele é claríssima e louvável quando o tema é posto à mesa. Seus métodos, entretanto, podem afastar alguns da apreciação pela decisão da vilanização de qualquer personagem branco que aparece em tela, o que, a meu ver, não me gera incômodo algum. Quantos personagens negros foram os primeiros a morrer ou se revelaram como os traidores da história antes de Corra! ser sequer concebido? Quantos foram estereotipados na era do blaxploitation cinematográfico? Não é por serem brancos que o valor da crítica a um determinado segmento político diminui. Afinal, um personagem negro na galeria dos vilões do filme inverteria totalmente a proposta de jogo de inversão da reviravolta final e o absurdo e exagero escapistas presentes do ato final não funcionariam no contexto geral.

Claro que tudo isso seria quase irrelevante não fosse a força de seu elenco. Daniel Kaluuya (de um dos episódios de Black Mirror) faz um trabalho impressionante de expressão facial com o poder do olhar. Seja com desconforto, insegurança, desespero ou confiança, Kaluuya parece tirar de letra o modo de se impor e se expressar, sempre evidenciando os movimentos com os olhos, casando perfeitamente com uma das reviravoltas da história. Allison Williams surpreende ao mudar seu tom e contexto de interpretação de uma hora para outra com absoluta convicção e competência, nunca soando forçado. Já os outros membros da família Armitage, cada um com sua personalidade e funções diferentes dentro do plano, não decepcionam e, sendo representações de esteriótipos ou não, cumprem bem o que lhes foi exigido pelo texto.

Corra! certamente é um filme divisivo. Caso o espectador não esteja disposto a aceitar a simples proposta de Peele de se divertir com o gênero com elegância e olhar de forma mais atenciosa valorizando a crítica social, a obra pode não passar, aparentemente, de um raso e previsível conjunto de clichês que carece de contemplação e uma história mais aprofundada. Entretanto, para aqueles que se encantaram com o conceito e se pegaram imersos antes do desbandar para o escapismo, o longa, além de entretenimento relevante, serve como um exemplo de estudo de manipulação e agilidade de estrutura na tentativa de misturar elementos de gêneros vizinhos com sucesso. Há tempos eu não via uma estréia de diretor fora de sua zona de segurança tão precisa, arriscada e, ao mesmo tempo, confortável. O ano da virada continua.

Corra! (Get Out, EUA – 2017)

Direção: Jordan Peele
Roteiro: Jordan Peele
Elenco: Daniel Kaluuya, Allison Williams, Bradley Whitford, Catherine Keener, Caleb Landry Jones, Marcus Henderson, Li Rel Howery, Stephen Root
Gênero: Suspense, Terror
Duração: 104 min

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