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O grande problema de Crashing é sua execução.

Parece complexo e pretensioso dizer isso, mas o que realmente desejo falar aqui é que, para uma série de comédia ter sua própria identidade, deve se valer ou de fórmulas prontas, tendo em mente a clara intenção de quebrá-las ou usar os clichês a seu favor (vide Unbreakable Kimmy Schmidt e Scream Queens), ou então trazer um formato original que tenha um ponto-chave diferente de tantos produtos audiovisuais do gênero já produzidos ao longo dos anos.

O episódio piloto da nova série de HBO, intitulado Artie Lange, pode ter até uma construção adequada e ritmada para o tipo de história que deseja contar, mas falha na concisão de tal narrativa. A história principal gira em torno de um comediante falido que se vê forçado a encontrar um rumo em sua vida após descobrir que a esposa o está traindo com um professor de arte.

Crashing é criado e estrelado por Pete Holmes, veterano da televisão e do stand-up estadunidense. Seu personagem, que com nenhuma surpresa tem seu nome, é o que podemos classificar do estereotipado perdedor que encontra um incidente incitante para entrar em sua jornada psicoespiritual no lugar onde menos espera: dentro de sua própria casa. Logo na primeira cena, que se passa numa claustrofóbica cozinha, sentimos que algo está errado: seu relacionamento com Jess (Lauren Lapkus) é essencialmente cômico e impossível, muitas vezes chocando ou incomodando um público que talvez não esteja acostumado com tal crueza humorística: afinal, a nudez corre solta pelas quatro paredes e, além da perturbante química entre dois, é possível perceber o cenário adornado com brutos tons de roxo que de alguma forma destoam quando em comparação com outros objetos (como por exemplo, um abajur violeta em contraste com uma parede verde-berrante).

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Momentos depois, vemos Pete correndo de um lado para o outro e tentando ganhar sua vida como comediante, subindo em palcos e tentando contar uma piada ou outra, às vezes entrando em mesma sintonia que o público, às vezes quebrando a cara. Seu emocional está diretamente ligado com o equilíbrio em casa – e tudo indica que Jess é bem mais estável que ele, ainda que o tenha traído. Sua ex-esposa é a personificação da insatisfação, encontrando um escape temporário da realidade ao envolver-se com o professor Leif (George Basil) e declarando guerra contra o comodismo que vê dentro de seu lar: ela provém para Pete há bastante tempo e não vê futuro em sua profissão, tornando-se completamente passiva de adentrar-se numa bolha de autocomiseração.

Como já citei, o grande problema desta história não é sua premissa, mas sim a execução: tudo segue o mesmo padrão de outros shows de comédia e apresentações stand-up que brotam de todos os lados e nos bombardeiam dia após dia. A irreverência própria deste estilo restringe-se à depressão encarnada pelo protagonista após a grande virada do primeiro ato: o que ele deve fazer agora? Continuar vivendo numa mentira ou soprar a poeira dos ombros e lutar pelo que quer?

O roteiro é construído com boas doses de ironia, mas não se afasta da previsibilidade: é possível concluir o término de cada um dos arcos antes mesmo do season finale – a não ser que Holmes e Judd Apatow, um dos criadores de Crashing, estejam preparando uma reviravolta espetacular (e eu definitivamente não me importaria de ver isso acontecendo aqui. Talvez até ajudaria um pouco mais).

O mérito maior vai para a incrível e muito bem-vinda presença de Artie Lange, interpretando a si mesmo. Seus diálogos extremamente pontilhados com doses de sarcasmo ultrapassam os limites da telinha e mantém um nível tragicômico perfeito para a sequência de eventos – que variam entre a tentativa de escapar do guincho e um roubo na estação do metrô. Lange é o arquétipo de um guardião completamente desastrado que cruza caminho com o protagonista apenas para deixá-lo mais confuso e mais perturbado do que já está. No episódio piloto, sua personalidade transgressora é ressurgida com uma naturalidade inefável – e posso até dizer que quero continuar a ver a série por causa dele.

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Outro ponto forte, mas ofuscado por deslizes imperdoáveis, é o figurino. Holmes encarna uma criação sutil e enclausurada em seus próprios sonhos, adornado com peças de cores mais frias em meio a indivíduos que trajam vestidos ou ternos chamativos. E mesmo assim, ele é aquele quem chama mais a atenção, constantemente resguardado por uma quantidade de roupas além do necessário – principalmente jaquetas com enchimento -, conferindo-lhe um ar tão trágico que chega a ser engraçado.

Apesar destes efêmeros ápices positivos, não se pode negar que Crashing é um simulacro cômico. Diversas outras séries lançadas nos últimos anos, como Love e Master of None – ou até mesmo os shows ao vivo transmitidos pelo canal Comedy Central – utilizam-se de uma premissa bem semelhante para tratarem de seus personagens: criações relativamente estereotipadas que são colocadas em situações improváveis. Até mesmo o toque de Apatow falha drasticamente aqui: essas são histórias que já conhecemos e que podem cansar no tocante à repetição excessiva.

Crashing talvez não seja uma das maiores apostas da HBO neste início de 2017. Mas ainda é cedo para firmar uma posição concisa. O que podemos esperar é que a perigosa previsibilidade dê adeus e que a narrativa dê margem para uma exploração completa de seu potencial.

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