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Akira Kurosawa foi um dos maiores diretores da história da Sétima Arte. Os seus melhores filmes tinham estruturas narrativas ousadas, um poderoso conteúdo intelectual e emocional, além de serem muito ricos técnica e visualmente. Obras primas como Rashomon, Os Sete Samurais, Ran e tantas outras são verdadeiras aulas de Cinema. Carregando o peso de ter o mesmo sobrenome, Kiyoshi Kurosawa não tem parentesco algum com o mestre japonês, mas poderia muito bem ser seu filho ou neto, pois, depois de ver a destreza cinematográfica do diretor neste maravilhoso Creepy, fica difícil de acreditar que não haja nenhuma relação de sangue entre os dois.

No filme, depois de uma tentativa mal sucedida de impedir um assassinato, o criminalista Takakura (Hidetoshi Nishijima) abandona o emprego de policial e se muda com a esposa, Yasuko (Yûko Takeuchi), para uma vizinhança tranquila. No entanto, após conhecer Nishino (Teruyuki Kagawa), um dos vizinhos, Takakura se convence de que há algo estranho sobre o sujeito. As suas suspeitas aumentam ainda mais quando o misterioso homem começa a desenvolver um estranho vínculo com a sua esposa. Além disso, um dos seus ex-parceiros na polícia pede que ele o auxilie na reabertura de uma investigação feita tempos atrás sobre o sequestro de uma família.

Adaptado por Chihiro Ikeda e pelo próprio diretor a partir de um livro homônimo do autor Yutaka Maekawa, o roteiro de Creepy divide as atenções na primeira metade do filme entre a investigação conduzida por Takakura e as interações iniciais que o casal e, mais especificamente, Yasuko, tem com o estranho vizinho. Ao adotar essa estrutura, fica óbvio para o espectador que há uma relação direta entre as duas histórias, mas essa previsibilidade não é ignorada pelos roteiristas, pelo contrário, ela é abraçada por eles. De certa forma, é um sacrifício que aceitam fazer em prol do desenvolvimento dos personagens. E, se por um lado, o público consegue enxergar facilmente alguns dos caminhos que serão trilhados pela trama, por outro, ganha muito mais com o rico trabalho feito em cima de Takakura e Nishino.

O primeiro tem um arco dramático circular. No início do filme, quando tenta em vão conseguir o depoimento de um homicida, ele é parcialmente “responsável” pela morte de uma vítima inocente. Acreditando na existência de alguma consciência moral no psicopata que acaba de assassinar uma mulher na frente de várias pessoas, ele é traído por sua própria intuição. Após abandonar o emprego e tentar reiniciar a vida com a esposa noutro lugar, ele enxerga uma possibilidade de redenção na nova investigação que conduz. Já no final do filme, quando tem de enfrentar o sequestrador da família,  ele tem na sua frente a possibilidade de vencer justamente por causa da filosofia moral do criminoso, num desenrolar lógico e simbolicamente muito rico.

Aliás, essa filosofia moral do vilão é um dos grandes atrativos do filme. (Pule este parágrafo caso ainda não tenha visto). Injetando nas vítimas um líquido que faz com elas realizem tudo o que pede, Nishino acredita que não é um criminoso. Quando confrontado sobre as suas ações, ele insiste que todos aqueles que estão sob o seu jugo agem de livre e espontânea vontade, fazendo aquilo que querem e não aquilo que exige que eles façam. E não deixa de ser genial que, ao fazer o público duvidar da fidelidade de Yasuko, os roteiristas coloquem o espectador, mesmo que por breves minutos, na cabeça de Nishino, questionando se Yasuko está realmente traindo o marido com o vizinho ou se é outra coisa que está acontecendo, o que faz um brilhante eco à visão que Nishino tem das ações realizadas pelas pessoas que sequestra (este momento é ressaltado por um close magistral de Kurosawa que, ao mesmo tempo que revela o verdadeiro caráter de Nishino, esconde a agulha que ele injeta em Yasuko).

Dirigindo com a mesma excelência vista na coautoria do roteiro, Kyioshi Kurosawa investe, no início, num clima de suspense que contrasta maravilhosamente bem com o tom mais cômico das interações entre o casal principal e Nishino. Ao passo em que tudo parece bem, o público não consegue deixar de sentir um incômodo com aquilo que está sendo mostrado. Além de ser fascinante e envolver o espectador desde o início, a existência simultânea desses dois tons opostos prepara e não prepara o espectador para a revelação final, pois ao mesmo tempo que a atmosfera mais inquietante o deixa sobreavisado de que algo eventualmente acontecerá, o clima mais ameno proveniente dos momentos mais leves não o predispõe para a explosão de violência física e mental do terceiro ato.

O diretor se mostra igualmente genial na construção de simbolismos. Desde a rima visual envolvendo duas janelas no começo e final do filme (simbolizando o já mencionado arco dramático circular do protagonista), até a constância com a qual o casal é exibido por detrás de grades e barras que lembram uma prisão (um símbolo do aprisionamento que os espera), passando pelo trabalho magistral com o vento, todos os elementos em cena são trabalhados por Kurosawa e sua equipe de forma a fazer com que a jornada dos personagens sejam ilustradas e sonorizadas por todo o ambiente que os cerca.

Aliás, é preciso fazer um destaque especial para a simbolização do vento. Além de ser essencial na criação do suspense, ele é um elemento constante no filme. (Pule novamente as próximas linhas deste parágrafo, eles contêm spoilers). Simbolizando o perigo que Nishino representa para a vida das suas vítimas, percebam como o barulho que o vento produz nas folhas é ressaltado pela mixagem de som todas as vezes em que Nishino interage com Takakura e Yasuko. Notem também como, depois da discussão que o casal tem sobre com quem Yasuko estava falando no celular (era com Nishino), eles conversam na cozinha enquanto a cortina balança suavemente por causa de uma brisa, num claro símbolo da influência negativa que o vizinho tem na vida dos dois. Além disso, vejam como o ventilador que Yakuso carrega para todos os lados e coloca na frente do rosto é uma referência riquíssima às ações que ela realiza por vontade própria em razão do líquido que Nishino injeta nela. E, logicamente, Kurosawa, além de mostrar exaustores e cata-ventos ao longo de todo o filme, não só faz Nishino tirar o ar dos plásticos onde estão contidos os corpos mortos (a vida que se esvai) como usa um lindo plano plongée para enquadrar a morte de Nishino enquanto ao seu redor inúmeras folhas são levadas por um forte vento. Aliás, logo após o falecimento de Nishino, ouve-se, pela primeira vez, água durante a conversa entre Takakura e Yasuko, representando o perigo que foi embora e a esperança de que eles consigam resolver os seus problemas.

Outro destaque que merece ser feito é o ótimo trabalho do diretor de fotografia. Na cena em que uma jovem se lembra do que aconteceu com a sua família, a luz do ambiente apaga enquanto ela caminha pelo recinto, o que faz uma clara referência aos corredores negros da memória que ela tem de percorrer para recordar eventos do passado. Similarmente, ao passo que a apresentação da casa do casal principal é feita com muita luz para representar a bondade de Takakura e Yasuko, logo após conhecerem Nishino, é perceptível que os cômodos estão mais escuros, simbolizando a negatividade do primeiro encontro com o vizinho.

Com atuações soberbas de Hidetoshi Nishijima e Teruyuki Kagawa, Creepy é um dos melhores filmes de Kiyoshi Kurosawa. Profundamente rica e complexa, a obra é um suspense denso, inquietante e perturbador. Kiyoshi pode não ser filho ou neto de Kurosawa, mas que é um dos conterrâneos mais propensos a continuar erguendo a bandeira do mestre japonês, Creepy está aí para provar.

Creepy (Kurîpî: Itsuwari No Rinjin, Japão – 2016)

Direção: Kiyoshi Kurosawa
Roteiro: Kiyoshi Kurosawa Chihiro Ikeda
Elenco: Hidetoshi Nishijima, Teruyuki Kegawa, Yuko Takeuchi, Masahiro Higashide
Gênero: Suspense
Duração: 130 min

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