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Surgido nas creepypastas da Internet – ou seja, em seus locais mais obscuros e perscrutados por contos sobrenaturais e histórias de terror – a figura do Slenderman percorreu os quatro cantos do cenário virtual e inspirou e aterrorizou diversas pessoas, incluindo duas jovens garotinhas a cometer uma das maiores atrocidades dos últimos anos: a tentativa de homicídio doloso de uma menina pré-adolescente.

O evento protagonizado por Morgan Geyser e Anissa Weier tornou-se um dos casos mais bizarros (por falta de outro adjetivo que harmonize o suficiente) a povoarem a cultura dos Estados Unidos – mais precisamente no condado de Waukesha, Wisconsin. Como já dito no primeiro parágrafo, todo o arco começa e termina em uma grande tragédia que permanece aberta e sem explicações palpáveis até hoje.

Primeiramente, precisamos entender que o Slenderman foi o maior mito a ser gerado dentro de um ambiente virtual, e sua “lenda”, por assim dizer, passou pelo mesmo processo da cultural oral e foi transmitida através de sites de redirecionamento e readaptações narrativas que sempre lhe acrescentavam novas perspectivas e releituras. A figura original foi criada durante um concurso de photoshop, no qual Eric Knudsen editou fotos antigas com o acréscimo de uma criatura alta, pálida e sem rosto, cuja deformidade assustadora sempre estava acompanhada de crianças desavisadas e situações do cotidiano.

Sua backstory, apesar de não tão profunda como a de outros personagens muito famosos da contemporaneidade, é pautada essencialmente no desejo de raptar crianças e/ou fazê-las sofrer com alucinações para que se tornem vítimas fáceis. Não se sabe se ele se alimenta da energia juvenil, mas seus alvos não poderiam ser mais claros. Recentemente, uma gama de jogos online e até mesmo fan-fics (contos de ficção publicados online) foram disponibilizadas para o público, gerando uma legião de fãs que sustentam a imagem do Slenderman até hoje – inclusive, os direitos de imagem deste personagem foram também adquiridos para a produção de longas-metragens e franquias cinematográficas.

Quando Irene Taylor Brodsky anunciou que seu próximo trabalho iria se aprofundar nas relações, nas causas e nas consequências do caso supracitado, causou bastante alvoroço por parte dos críticos e do próprio público, por dois motivos principais: idealizar um documentário analítico que envolva mitos de um ambiente virtual poderia se configurar como um “tiro pela culatra”, emergindo como uma produção desnecessária e sem objetivo aparente. Além disso, os eventos envolviam menores de idade, e a participação da família poderia ser revogada pelas autoridades e pela comunidade artística.

Entretanto, retomando suas obras anteriores (como The Final Inch e Hear and Now), sabemos que Brodsky sempre teve uma mão muito firme para projetos complexos e contraditórios, nos entregando produções audiovisuais memoráveis e dignas de citação. E, apesar de seu longo tempo de exibição – quase 120 minutos -, Cuidado com o Slenderman (Beware the Slenderman, no original), é uma ótima análise antropológica e sociopsicológica sobre a influência das mídias digitais na sociedade contemporânea e como distúrbios mentais podem dar margem a corolários terríveis.

É interessante já citar que o filme não procura encontrar um veredicto ou apontas culpados e inocentes: tudo gira em torno dos fatos apresentados e como eles estão relacionados. Obviamente, alguns dos entrevistados acusam as duas garotas – principalmente aqueles que não mantinham contato com elas ou que presenciaram ao massacre de forma passiva e indireta -, e outros defendem seu julgamento como realmente são – crianças. Toda a ambiência é tensa e causa um desconforto crescente no espectador, principalmente por tratar de assuntos delicados com uma profundidade lúdica.

Logo de cara, percebemos que Anissa e Morgan não são tratadas como crianças normais: suas personalidades introspectivas e extremamente devotas à família e aos valores que conhecem as transformaram em pré-adolescentes excluídas dos círculos sociais que frequentavam. A “descoberta” de uma figura como essa não veio com estranhamento, mas sim como a possibilidade de um refúgio para as duas garotas. Afinal, o constante bullying que sofriam na escola pode até tê-las aproximado, mas causou sérias consequências em sua vida psíquica, ainda que não tão aparentes. Brodsky faz questão de, através de uma montagem dinâmica e pontuada com explicações plausíveis e compreensíveis, explicar os motivos que levaram-nas a se conectar tanto com um personagem fictício a ponto de se tornarem suas “escravas”.

O documentário é uma mistura híbrida de ficção com acontecimentos reais, como podemos perceber logo no começo. A primeira sequência é uma gravação em found footage que mostra o encontro de uma menina com o personagem-título – um encontro tão efêmero quanto a certeza de sua existência. Os depoimentos são entrelaçados com recriações e até mesmo vídeos de YouTube que mostraram a aparição do Slenderman em diversas ocasiões. A veracidade de tais clipes não pode ser confirmada – e é questionada por autoridades e especialistas -, mas não podemos nos esquecer de que o principal foco do longa-metragem é analisar a crença e como seu extremismo pode levar a sérias consequências.

Vários estudos deste campo indicam que, quando a energia psíquica emanada pela crença ferrenha em algo ou alguma coisa – por exemplo, uma aparição -, a probabilidade de que ela passe a existir para determinados indivíduos aumenta consideravelmente. E, através destas mesmas análises, é que doenças neurológicas como esquizofrenia ou demência podem ser estudadas com mais afinco – inclusive, Anissa (responsável por esfaquear a vítima do evento) foi diagnosticada com tais problemas e foi levada para um hospital psiquiátrico. E, pelo que podemos concluir com o fechamento do documentário, foi exatamente isso o que aconteceu: as protagonistas se apegaram de forma quase transcendental a uma criatura imaterial, mas muito mais presente em suas vidas que outras figuras – como o pai e a mãe.

Cuidado com o Slenderman é uma das surpresas mais agradáveis de 2017 até agora. Toda a análise sobre mitos da Internet é apresentada com uma estrutura sólida, tensa e que nos leva a refletir sobre nossa própria personalidade e se estamos sujeitos ou não a passar pela mesma coisa que as jovens garotas passaram – ainda que o filme tenha um tempo muito longo e desnecessário de tela.

Cuidado com o Slenderman (Beware the Slenderman, EUA – 2017)

Direção: Irene Taylor Brodsky
Gênero: Documentário
Duração: 117 min.

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