Depois de décadas afastado das telonas – vinte e três anos após o lançamento de O Ladrão do Arco Íris, ou melhor, vinte e quatro depois de Santa Sangre, já que o primeiro é um longa renegado -, Alejandro Jodorowsky volta às telas com a primeira parte da sua série de filmes autobiográficos, feitos à sua moda. Com os pés no palco da realidade, no sentido mais amplo dela, o diretor chileno volta ao seu passado, à memória transfigurada pelo seu imaginário esotérico, colorido e explosivo, e compõe seu carnaval.

Partimos de uma epígrafe encenada pelo próprio Alejandro, falando sobre o dinheiro, refletindo os conflitos que teve com ele pela carreira, para aportamos na cidade da infância de Jodorowsky, em Tocopilla, Chile. Jeremias Herskovits encarna o jovem protagonista, enquanto Brontis Jodorowsky, filho do diretor – o mesmo que apareceu ainda pequeno em El Topo –, interpreta seu pai, Jaime, e Pamela Flores sua mãe. É muito significativa a forma como o mundo do passado é erigido sobre o mundo real. Com uma construção de espaço que abusa de recursos teatrais, sobretudo, em que as ruínas do passado são sobrepostas aos elementos atuais da cidade natal (seja por um papelão que disfarça um trem moderno numa locomotiva antiga, seja pelos figurinos teatrais, ora exorbitantes, ora minimalistas) para conseguir dar vida a algo que só acontece/aconteceu na cabeça de Jodorowsky.

São poucos os momentos em que os artifícios digitais aparecem, como na cena em que o menino irritado “machuca” o mar e é contra-atacado com uma enxurrada de peixes mortos. É um passo em falso, uma dessincronização nesse carnaval com rigorosidade de balé, mas que se justifica pela magnitude, pela força da imagem por si só – que é justamente pelo que Jodorowsky ficou conhecido. Dessa vez, com essas incursões por esse mistério chamado “memória”, o diretor incrusta as transfigurações poéticas na tela, ou, como ele mesmo afirma acerca do livro homônimo no qual o filme é inspirado: “Esta busca que me separou do meu Eu ilusório, me fez fugir do Chile e me impulsionou a buscar com desespero um sentido para a vida.”

E alguma hora alguém há de encontrar? Como certezas são meras ilusões, Jodorowsky reverencia a dúvida para construir esse filme de busca. Da busca pelo esquecido, pelo ignorado, pelo mal resolvido. O pai é a figura totalitária, que vai do stalinismo ao ativismo contra Ibañez, a mãe é uma soprano que canta todas suas falas. Acompanhamos as tensões entre esses polos tão distintos e reconhecemos em determinados momentos várias razões das preferências do diretor, como sua relação com o circo e com pessoas deficientes.

Se em filmes anteriores Jodorowsky interpreta personagens que simbolizavam suas experiências pessoais, já num misto de impulso artístico e terapêutico (especialmente na psicanálise de Santa Sangre), agora ele vai fundo no divã cinematográfico. Paciente e psicólogo, nos resta entreter com essa narrativa cheia de humor e emoção. Não faltam situações estranhas como o funeral de um cachorro conduzido por um corpo de bombeiros, ou uma dança depois de chafurdar na graxa, assim como cenas satíricas em igrejas, bares, na presença de drag queens comunistas, anões e tantas outras figuras.

A Dança da Realidade, apesar de tudo, possui inconsistências narrativas muito claras, especialmente quando para de acompanhar Alejandro e foca na jornada de seu pai. Assim como força a barra para encontrar o máximo de reconciliações possíveis nesse primeiro longa de sua série autobiográfica (medo da morte?). Com exceção do final que apresenta um gancho claro para o que viria a ser Poesia Sem Fim, o filme é muito fechado em si mesmo e nos conflitos internos de Jodorowsky. A Dança da Realidade é o filme em que o diretor finalmente encontra uma unidade, um espaço coerente para diluir seu ego, seus remorsos, seu surrealismo, enfim, sua rebeldia maturada pelo tempo.

A Dança da Realidade (La Danza de la Realidad, Chile – 2013)

Direção: Alejandro Jodorowsky
Roteiro: Alejandro Jodorowsky
Elenco: Alejandro Jodorowsky, Brontis Jodorowsky, Pamela Flores, Jeremias Herskovits, Axel Jodorowsky
Gênero: Fantasia
Duração: 130 min

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