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Dark é uma série como você nunca viu. É claro que sua premissa pode parecer mais um simulacro das inúmeras obras de ficção científica que tem como estrutura principal as viagens no tempo. E é mais que óbvio traçar paralelos entre a primeira produção alemã da plataforma Netflix e filmes imortalizados e relembrados até hoje, como a trilogia de ação e aventura De Volta para o Futuro ou o drama histórico Em Algum Lugar do Passado. A produção até mesmo mantém um dialogismo com o recente sucesso Stranger Things quando pensamos no enfrentamento do desconhecido. Entretanto, a obra criada por Baran bo Odar não emerge como uma investida de gênero, mas uma incumbência híbrida de várias narrativas.

O cenário é conhecido: uma pequena cidade, isolada do restante do mundo e perscrutada pelos próprios valores e regras, é assolada com um acontecimento drástico, algo que muda completamente a perspectiva outrora pacífica. A atmosfera convidativa e nostálgica é tamanha que até mesmo é reforçada por diálogos entre os personagens, os quais divagam sobre sua aparente “inutilidade” frente à escassez de acontecimentos interessantes no vilarejo – é claro, com exceção da abertura da usina nuclear de Winden na era pós-Chernobyl. É a partir de toda essa conjuntura cíclica e à prima vista inquebrável que os eventos consecutivos tornam-se cada vez mais obscuros, fazendo jus ao nome da série.

Após a costumeira apresentação de seus personagens, os quais claramente escondem segredos por trás dos semblantes inexpressivos ou engessados, mergulhamos em uma mitologia um tanto quanto complexa mas que vale-se por suas explicações imagéticas em detrimento de uma verborragia incisiva e saturada. Aqui, já percebemos que o tom da série é mostrar, em vez de explicar: logo, não é nenhuma surpresa que as longas e perturbadoras sequências que prezam por uma simetria muito além de um conforto cênico atinjam um tempo que ao mesmo tempo aguça nossos sentidos para possíveis pistas dentro do mistério principal e nos façam ansiar pela conclusão dos arcos.

Dark mostra sua originalidade ao revelar o mistério em meados da primeira temporada, mais precisamente com as inúmeras revelações do quinto episódio (Truth); o que realmente importa aqui é mostrar a grandiosidade do universo perante às falhas e inúteis tentativas humanas de controlar o seu destino. Como a narrativa discorre acerca do tempo, qualquer investida mais forçada ou mais ousada pode provocar um furo na história que renega a criação de um novo microcosmos – mas o time de roteiristas preocupa-se em fornecer um desenvolvimento maior para seus personagens e deixar que a história entre em seu próprio curso. Afinal, é muito mais fácil aceitar a inexorabilidade do tempo do que tentar mudá-la.

A série não mede esforços para conduzir o espectador através de arcos múltiplos e que conversam entre si das mais diversas maneiras. A princípio, cremos que o escopo terá como foco o desaparecimento do jovem Mikkel Nielsen (Daan Lennard Liebrenz). Inclusive, utilizo-me desse espaço para discorrer sobre uma das sequências mais enervantes e angustiantes dentro do show: o ano é 2019, mas o senso de curiosidade dos adolescentes e crianças parece não ter mudado muito; em determinado momento do segundo capítulo, Mentiras, Mikkel acompanha seus irmãos mais velhos Magnus (Moritz Jahn) e Martha (Lisa Vicari), ao longo do protagonista Jonas (Louis Hofmann) e do melhor amigo Bartosz (Paul Lux) em uma pequena caminhada pela floresta que cerca Winden, em busca de uma grande remessa de maconha escondida perto de uma caverna.

A premissa da série resgata os melhores elementos dos gêneros de crime, mistério, ficção sobrenatural e científica. A atmosfera da sequência supracitada é um dos maiores e mais funcionais clichês que unem essas quatro vertentes em um composé clássico de inúmeras e divergentes obras fílmicas, incluindo E.T. – O Extraterrestre, A Bruxa e It – A Coisa. O enfrentamento do desconhecido e a impotência perante uma força muito maior e inexplicável é o ponto crucial que transforma esses jovens audaciosos e “intocáveis” em personas muito mais cautelosas e traumatizadas. E se sua construção narrativa já preza por isso, as composições imagéticas reforçam-na sem cair na redundância: antes de perderem Mikkel, todos eram banhados por uma luz dura que reforçava sua distinção dos demais, além de estarem inseridos em planos diversos e sem equilíbrio – uma extensão de suas personalidades rebeldes. Após passarem por tamanho trauma, os personagens parecem se fundir ao cenário, tornando-se partes amorfas e desbotadas do cenário, difundidos por uma constante e inebriante névoa.

Talvez um dos poucos que permaneça ainda engajado em seus ideais primários seja Jonas. Ele se sente responsável pelo desaparecimento de Mikkel, e um gatilho sagazmente construído em meados do segundo ato dessa odisseia ativa uma necessidade de encontrá-lo a toda custa. Como já disse, Dark fala sobre as concepções de tempo e sobre um tema “batido”, por assim dizer: os buracos de minhoca. Entretanto, não da forma com estamos acostumados, mas realizando uma ligação tridimensional entre três épocas distintas: 1953, 1986 e 2019. É claro que a construção da usina e o constante uso de elementos químicos e radioativos contribuiu para a existência dessa múltipla dobra no tempo – ou talvez ela sempre existisse. São essas questões inexplicáveis que levam o público a querer entender mais sobre as relações entre os personagens e como todos estão conectados pelo passado, presente e futuro.

Mesmo com a clássica jornada do herói beirando o suspense da série, os jovens protagonistas emergem como introdução para a complexidade dos personagens adultos, principalmente quando falamos do detetive Ulrich Nielsen (Oliver Masucci) e sua esposa Katharina (Jördis Triebel), que têm mais uma vez suas vidas marcadas pelo desaparecimento de alguém da família. Acontece que Ulrich, na década de 1980, também teve seu irmão desaparecido sob as mesmas circunstância que o filho Mikkel; essa corrente de eventos desenvolve dentro do investigador uma necessidade bruta de justiça, que o torna cego perante as pistas mais simples e claras e que o fazem utilizar muito mais do lado emocional e vingativo que o racional e lógico.

Karoline Eichhorn também insurge como um grande nome dentro da série. Seu papel como Charlotte Doppler, a chefe do departamento de polícia de Winden que relembra dos estranhos acontecimentos da cidade quando era uma garota – e que agora estão ressurgindo das cinzas e trazendo ainda mais amargura para uma cidade marcada pela mentira e pela tragédia. Sua personalidade forte é muitas vezes uma máscara para os problemas pessoais que enfrenta em casa, incluindo a sexualidade do marido e de seu possível envolvimento com o desaparecimento de Mikkel e das outras crianças. É justamente seu semblante blasé que lhe confere humanidade, algo tão complicado de ser transparecido que chega a ser surreal.

Dark é crível. Palpável, nostálgico e sua originalidade não vem com o tema principal nem com sua premissa, mas sim com o fato de entregar-se a uma nova perspectiva mais humana em detrimento do escopo da ficção científica. Seus personagens somos nós, pessoas comuns que sofrem com perdas e traumas, desmanteladas com a justiça e cegas pela impotência de não estar apto a fazer nada para mudar o que aconteceu. A investida da Netflix em suas produções pode ter passado por um período de crise, mas definitivamente está retomando o curso com mais essa incrível produção.

Dark – 1ª Temporada (Idem, 2017 – Alemanha)

Criado por: Baran bo Odar
Direção: Baran bo Odar
Roteiro: Baran bo Odar, Jantje Friese, Martin Behnke, Ronny Schalk, Marc O. Seng
Elenco: Oliver Masucci, Karoline Eichhorn, Jordis Triebel, Louis Hofmann, Maja Schone, Stephan Kampwirth, Daan Lennard Liebrenz, Andreas Pietschmann, Deborah Kaufmann
Emissora: Netflix
Gênero: Sci-Fi, Drama, Suspense
Número de episódios: 10
Duração: 45 minutos

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