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É bastante provável que os 20 anos em que esteve afastado do cinema (do final dos anos 70 até o final dos anos 90) tenham moldado a nova forma de fazer cinema do diretor Terrence Malick. Seus últimos filmes têm se mostrado mais abstratos do que seus primeiros trabalhos, ainda que falem de assuntos os quais todos estamos familiarizados: cotidiano, religião, família, amor, sexo. Esses temas abordados em seus últimos trabalhos também são encontrados em seu filme mais recente. “De canção em canção” trata-se de uma história que se passa na cidade de Austin, no Texas, e conta a história de dois casais – os músicos Faye (Rooney Mara) e BV (Ryan Gosling), e do produtor musical (Michael Fassbender) com uma garçonete (Natalie Portman) – perseguem o sucesso através de uma paisagem de rock ‘n’ roll, sedução e traição.

Esse cenário é perfeito para que os personagens colidam com seus sentimentos e realizem escolhas que diversas vezes não coincidem com o que é expressado no texto em tais cenas, quase como um desregramento da lógica que leva a personagem de Rooney Mara a narrar o quanto ama o personagem de Gosling enquanto se entrega à Fassbender. Tal desregramento leva os personagens à fluírem pela vida, colidindo com outros e com convicções acerca de si e também do mundo. Para Malick, existir é estar em conflito, seja com outros, seja consigo. O diretor se utiliza da arquitetura das casas e dos ambientes como recurso para expressar elementos importantes sobre os personagens e seus atuais estado de espírito; cômodos transmitem muito sobre a atual situação dos personagens; quadros, pinturas e fotos (ou a ausência deles) nos informam sobre como os personagens se encaixam naquele mundo em que vivem.

Desde o belissímo A árvore da Vida, o diretor Terrence Malick parece ter direcionado seu cinema para uma tentativa de mimetização da ótica divina voltada para as idiossincrasias cotidianas da solidão de homens e mulheres vivendo em um imenso mundo repleto de escapismos. Malick parece tentar nos fazer enxergar a beleza contida em cada situação que por ventura compartilharmos com os personagens de suas obras. Para tanto, a fotografia executada pelo fotógrafo três vezes vencedor do Oscar Emmanuel Lubezki desempenha o papel mais importante de todos, uma vez que tal intenção pretendida por Malick só seria possível se até mesmo elementos desprovidos de qualquer beleza estética aparentassem harmonia e perfeição, e nisso Lubezki triunfa com maestria. Ao contrário do que a maioria pensa, filmar o cotidiano com tamanha desenvoltura, beleza e naturalidade não é fácil.

Para emular esse prisma divino, por vezes até fantasmagórico, o diretor também optou por registrar grande parcela dos seus filmes recentes com lente grande-angular, aumentando a quantidade de informações dos quadros e distorcendo a imagem à medida em que a câmera se aproxima dos personagens e objetos. Essa escolha se justifica pois transmite através das belas imagens de Lubezki a ótica divina que tudo enxerga e que encontra beleza no ordinário. É por essa razão que a câmera nos filmes de Malick flui entre os corpos e pulsa como estivesse viva, na tentativa de capturar a beleza do cotidiano.

Malick parece ter extrema curiosidade por formas e demonstra adorar o corpo humano. São inúmeras as vezes em que opta por registrar o movimento das mãos, ao invés das expressões faciais dos personagens. O toque parece ser uma verdadeira obsessão do diretor, passando a impressão de que somente através dele é possível preencher o vazio inerente à existência humana. De maneira quase contraditória, Malick afirma em suas obras recentes que existir é estar em conflito e é através desse conflito, que por vezes compromete a própria existência, que cada indivíduo encontra uma solução para o vazio de sua existência. A colisão proporcionada pelo toque funciona como um mecanismo de reconhecimento da existência, é através de tal ato que outros se sentem reconhecidos por nós, independentemente de se tratar de um ato de carinho ou de ojeriza.

Assim como “Cavaleiro de Copas’, Malick não demonstra interesse em desenvolver o pano de fundo em que situa seus personagens e seus filmes, o que realmente importa é o vislumbre de diferentes indivíduos lutando para existirem. Ainda que conte com nomes de peso em seu elenco, é visível que os filmes do diretor não se preocupam em ser festejados, tanto pela crítica quanto pelo grande público. De “A árvore da vida” em diante, os filmes do diretor enfrentarão o teste do tempo e, na opinião deste que lhes escreve, irão servir no futuro como um registro de uma geração inconscientemente melancólica e altamente hedonista, cujos objetivos e desejos mais íntimos se confundiam em meio a inúmeros escapismos. Que venha o próximo filme do diretor.

De Canção em Canção (Song to Song, EUA, 2017)

Direção e roteiro: Terrence Malick
Elenco: Ryan Gosling, Rooney Mara, Natalie Portman, Michael Fassbender, Cate Blanchett, Holly Hunter, Val Kilmer
Duração: 129 minutos.

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