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De todos os símbolos conhecidos do Natal, com toda certeza Papai Noel é aquele que melhor representa a data. A criação dessa lenda foi baseada na figura de um dos santos da Igreja Católica, São Nicolau, arcebispo da cidade de Mira, na Turquia. Nicolau ficou conhecido devido ao grande amor que tinha pelas crianças e devido à ajuda que dava aos pobres. Segundo os relatos, ele costumava deixar moedas de ouro nas chaminés das pessoas mais necessitadas. Foi canonizado depois que vários milagres ocorreram. A imagem do santo começou a ser ligada ao natal na Alemanha e depois se espalhou pelo mundo.

A imagem que conhecemos hoje do bom velhinho com e todos os seus hábitos começaram a surgir no século XIX. A partir de um poema do escritor inglês Clament Moore, chamado Uma Visita de São Nicolau, onde apareceu pela primeira vez a versão que Papai Noel viajava em um trenó puxado por renas e entrava pela chaminé. O visual atual foi uma obra do cartunista Thomas Naster, que trabalhava na revista Harper’s Weekly. As cores vermelha e branca nas roupas de Noel foram impulsionadas pelas campanhas de marketing da Coca-Cola na década de 1931, nas quais a empresa usava o personagem da mesma maneira que Nast desenvolveu.

Papai Noel também foi muitas vezes o personagem principal de diversos filmes cuja temática era o natal. De Ilusão Também Se Vive foi um desses filmes, e se tornou um dos filmes natalinos mais aclamados, tanto pela crítica, quanto pelo público. Acabou por ganhar três Oscar (melhor história original, melhor roteiro original e melhor ator coadjuvante) e ainda foi indicado ao Oscar de melhor filme. Devido à sua importância, foi preservado no National Film Registry da Biblioteca do Congresso Nacional. De fato esse filme tem muita relevância ainda nos dias de hoje, porque nos faz lembrar qual o verdadeiro sentido do Natal e o quanto os sonhos e a imaginação são importantes em nossa vida, tornando ela mais divertida e calorosa.


A trama se inicia dessa maneira. Um idoso chamado de Kris Kingle (Edmund Gwenn) está caminhando pelas ruas da movimentada Nova York, até que passa perto do desfile de Natal da famosa loja de departamentos Macy’s. Ele fica chocado ao perceber que o Papai Noel do evento encontra-se embriagado e avisa a funcionária responsável pelo desfile, Dóris Walker (Maureen O’Hara), que fica desesperada e acaba convencendo Kringle a substituir o bêbado. Kris é tão impressionante em sua performance que acaba por virar o Papai Noel oficial da Macy’s. Quando começa o serviço, o velho surpreende a todos e começa a indicar, para os fregueses, lojas concorrentes quando a Macy´s  não tem os produtos desejados. A ideia espanta, mas logo após os clientes começarem a elogiar a iniciativa, é decidido que todos os funcionários façam o mesmo que Kris, e logo a loja se torna um exemplo. Porém, Kringle começa a afirmar que ele é o verdadeiro Papai Noel e isso preocupa ao psicólogo da Macy’s, que decide internar o idoso. Surge na história, então, o jovem advogado Fred Gailey (John Payne), que se tornou amigo de Kris, leva o caso para o tribunal e está disposto a provar que aquele é o bom velhinho.

O roteiro e a direção da obra ficaram por conta de George Seaton, que no futuro seria responsável pelos clássicos Amar é Sofrer e Aeroporto. A trama é bastante simples e direta na mensagem que quer passar, porém esta é bastante forte, o que torna o filme ainda tão atual, mesmo ele se passando no final dos anos 40. Quando o velho Kringle começa a indicar para os clientes da Macy’s outras lojas que tenham os produtos que eles procuram, ao invés de forçar um outro presente para que a pessoa gaste seu dinheiro na loja, o ancião promove um dos principais valores do natal, que é o ajudar o próximo. Muitos tratam a data como apenas uma época para poder ir às lojas, e comprar os mais variados do presentes. Mas o Natal é muito mais do que apenas essa visão materialista e consumista que alguns tem, é uma época de agradecer, compartilhar, é um estado de espírito, porém muitos se esquecem disso, e o filme de Seaton esta aí para nos relembrar.

Mais do que um filme sobre os valores do natal, De Ilusão Também se Vive é um filme sobre a natureza humana e o seu interior. A personagem de Maureen O´Hara, Doris, cria sua filha Susan, interpretada por Natalie Wood (que no futuro iria ser aplaudida pela sua atuação como a jovem e atraente Judy em Juventude Transviada)  para que não tenha sonhos, imaginação, e nem lhe conta em fábulas ou outras coisas do tipo para que não tenha desilusões, e seja extremamente realista e racional. Por isso Susan acaba se tornando fria e tendo dificuldade de interagir com outras crianças. Seaton nos mostra que é importante fomentar, nos jovens, a imaginação, não apenas para que eles se divirtam, mas também porque através dela é possível desenvolver as capacidades cognitivas das crianças, como por exemplo a criatividade, algo que poderá ser muito útil no futuro. As histórias de fantasia também não devem ser suprimidas, pois muitas delas podem conter ensinamentos valiosos, que os jovens podem levar para a vida inteira. Existe também a parte da convívio, pois, como ja dito, Susan tem dificuldade de brincar com outras crianças por não conseguir compartilhar dos mesmos pensamentos destas, ou seja, a idealização, o ”faz de conta”, mostra-se aqui importante para a interação do jovem com o mundo ao seu redor.


Como já dito aqui antes, a trama tem uma pergunta. Kris é, ou não é, Papai Noel? Porém, a interpretação de Edmund Gwenn, ouso dizer, é uma das melhores da História, quando se trata de filmes natalinos, é tão jovial, otimista, e sua mensagem é tão bonita, que ela sobrepõe a importância de sabermos a identidade real do personagem. Não importa se ele é ou não o bom velhinho, e sim o carinho que ele tem para com o próximo,  principalmente com as crianças, e a sua jornada para que as pessoas sejam altruístas e que o sentido real do Natal recuperado. As cenas de Gwenn com Wood merecem o destaque aqui, pois nos cativam as tentativas do personagem do primeiro de fazer com que a jovem veja a importância da imaginação e da fantasia em nossa vida. Ajuda muito também o fato de que os dois atores tem uma ótima química em cena.

Acredito que não dá para negar que, mesmo sendo mais importante a ideia que Kringle quer passar, do que a veracidade da sua afirmação, ainda temos dentro de nós uma pequena de chama de curiosidade, que deseja saber a verdade, mas o roteiro de Seaton não nos dá uma resposta definitiva em nenhum momento. O diretor deixa a cargo do público decidir se Kringle é ou não Papai Noel, talvez acreditando que esse mistério deixaria o filme mais interessante, o que realmente aconteceu. Mas mesmo assim o julgamento tem um final feliz para o idoso – algo que já era imaginável visto o tom da obra – e devo dizer que a maneira que o diretor encontrou para que tudo desse certo no final foi bastante inteligente e criativa, conseguindo fazer isso sem revelar o mistério que seu filme criou. Aliás, também tenho de falar que todas cenas do julgamento são os momentos de maior humor de toda a trama, até mesmo pelo fato do motivo pelo qual ele está sendo julgado, é uma situação tão inverossímil que o fato de estar acontecendo já nos faz rir.

De Ilusão Também se Vive é um filme com um clima aconchegante, que, ao mesmo tempo que nos diverte, também nos emociona. Poucos filmes conseguiram captar a essência do natal como essa obra, e com toda certeza afirmo que ela nunca ira envelhecer e nunca perderá sua importância, não importa quantos anos se passem.

De Ilusão Também Se Vive (Miracle on 34th Street – EUA, 1947)

Direção: George Seaton
Roteiro: George Seaton e Valentine Davies (história)
Elenco: Maureen O´Hara, Edmund Gwenn, John Payne, Natalie Wood, Porter Hall, William Frawley, Jerome Cowan, Philip Tonge
Duração: 96 min

Texto escrito por Raphael Aristides

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