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O desejo por vingança sempre foi uma fonte farta e lucrativa de inspiração para Hollywood. Apesar de explorado à exaustão nas telas, o tema sempre consegue, ainda que superficialmente, propor visões interessantes sobre os limites da lei, impunidade e vigilantismo. Pairando sobre esses temas que surgiu em 1974, baseado no livro homônimo de Brian Garfield, Desejo de Matar. Traz o clássico astro de filmes de ação trash Charles Bronson no papel do arquiteto vigilante Paul Kersey, que tem sua filha atacada e sua esposa estuprada e morta. Com essa premissa light, o primeiro filme trazia a discussão da vingança com o tom carregado e fortemente político notório dos anos 70, sendo até mesmo taxado de fascista com sua violência brutal e aparente justificação da brutalidade.

Mais de 10 anos depois (e com um filme com mais morte e estupros no meio), Desejo de Matar 3 se afasta da discussão séria e tom mais sóbrio do primeiro, porém acaba inadvertidamente construindo uma visão interessante sobre catarse coletiva. A premissa e o roteiro são rasos, mas montam eficientemente o cenário para o que se descortina em tela: depois da morte de duas de suas esposas e de sua filha, Paul volta a Nova Iorque para visitar seu amigo de Guerra da Coréia, Charley. Ao chegar na terrível vizinhança assolada pelo crime onde mora seu amigo, Paul imediatamente encontra Charley morto por uma gangue de arruaceiros. Após ser preso por estar na cena do crime na hora errada e passar um perrengue na cadeia, Paul é liberado após ser reconhecido pelo chefe de polícia como o “Mr. Vigilante” responsável pelo massacre retratado no primeiro filme, com uma condição: atuar onde a polícia não consegue e fazer o que faz melhor na vizinhança de Charley – exercitar seu Desejo de Matar (desculpe, não resisti).

Produzido no auge da lendária Cannon Films responsável por incontáveis filmes de ação trash dos anos 70 e 80 (tais como a maioria dos filmes de Chuck Norris), Desejo de Matar 3 acerta pontos fulminantes na mente do espectador e faz referência aos exageros e peculiaridades da cultura e política da época. Tem um design de produção oitentista patentemente claro na gangue que assola o bairro: todos com jaquetas de couro e roupas absurdas reminiscentes do clássico The Warriors, cabelos mirabolantes (com destaque para o “moicano invertido” do antagonista principal) e uma maquiagem única. Além disso, os peculiares ângulos escolhidos pelo diretor Michael Winner capturam criativamente as (poucas e fantásticas) expressões de Charles Bronson como o senhorzinho-assassino-em-massa Kersey, e são interessantemente acompanhados pela trilha sonora assinada por Jimmy Page (!), mas que na verdade é um rehash da trilha do segundo filme.

O que faz deste filme um clássico, no entanto, é o retrato dantesco da escalada de violência e o efeito que esta causa nos habitantes dessa maldita vizinhança no leste de Nova Iorque. Desde os primeiros minutos do longa, a violência perpetrada pela gangue de Fraker (o cara do moicano invertido) é completamente over e surreal. A mera quantidade de facadas, espancamentos, estupros, mortes de esposas e janelas quebradas (sério, tem uma a cada 15 minutos) faz a ultraviolência de Laranja Mecânica parecer um passeio no parque. Os pobres residentes do prédio onde Kersey se instala, em sua maioria velhinhos como  Charles Bronson, enxergam em Paul Kersey a única luz e esperança nessa Sarajevo onde vivem, já que a todo momento o filme traz a tona que a polícia é completamente ineficiente e retratada como um obstáculo à Justiça. A reação na eternizada e clássica cena da “Morte do Risadinha” dão um indício do estado mental da população. Não é a toa que mesmo reconhecendo Paul como um assassino em massa, o chefe de polícia decide soltar a sua coleira.

Essa escalada de violência culmina com o que é a verdadeira pérola do filme: a orgia de balas e explosões que é o terceiro ato. Farto da situação e empregando seu arsenal construído com armas absurdas encomendadas pelo correio (?), Paul Kersey traz o Inferno na Terra sobre a gangue nos últimos 20 minutos do filme, ao fazer peneira de criminosos portando uma ridiculamente desproporcional Browning calibre .30. A gangue chama por reforços que incendeiam, destroem e matam tudo que veem pela frente de forma completamente irracional e bárbara, dando o empurrão que faltava para a catarse completa da população encurralada. Homens, mulheres, velhos, jovens e crianças (isso mesmo) partem pra cima da gangue com porretes, coquetéis molotov, revólveres, vassouras e bombas. Pra compensar o que não consegue há anos na região, a polícia chega quebrando tudo.

O povo explode de alegria enquanto Kersey e o chefe de polícia dispensam justiça em forma de chumbo quente, e chegam à apoteose catártica quando Paul explode o chefe da gangue com um lança-granadas. A vitória do povo, enquanto os arruaceiros fogem, seu líder uma poça de sangue em chamas! Libertação total para o povo! O vigilante caminha por entre as chamas, sobre si a gratidão das pessoas e do espectador. O terceiro ato de Desejo de Matar 3 vale o ingresso do cinema duas vezes, com os 20 minutos de ação mais over-the-top e intensos que já vi, que com toda certeza influenciaram os filmes de ação e videogames que o sucederam.

Em tempos de acirramento de ânimos, polarização politica e social e de uma escalada surreal da violência na sociedade, este filme permite um vislumbre distante do ponto caótico a que podemos chegar quando as instituições falham, e a descrença no Sistema toma conta da população. À sua maneira, a saga de Paul Kersey por Nova Iorque traz uma mensagem latente de alerta, e nos lembra da responsabilidade individual de cada um de nós de empreender as mudanças que queremos ver na sociedade. De preferência, sem o emprego de um arsenal de guerra.

Não permita que o roteiro semi-inexistente, os diálogos hilariamente peculiares, as atuações rocambolescas e os 3% do Rotten Tomatoes o impeçam de experimentar a catarse coletiva que Desejo de Matar 3 proporciona. Certamente este clássico merece ser visto com Outros Olhos.

Desejo de Matar 3 (Death Wish 3 – EUA – 1985)
Direção: Michael Winner
Roteiro: Don Jakoby (sob o pseudônimo Michael Edmonds)
Elenco: Charles Bronson , Deborah Raffin, Ed Lauter, Martin Balsam
Gênero: Ação
Duração: 92 minutos

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