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Cuidado: spoilers à frente.

Querido leitor,

Há poucas coisas que chamam tanto a atenção como a tragédia. Ainda que venhamos a nos comover copiosamente sobre a jornada de desventuras de alguém ou de um grupo de pessoas, não podemos negar que cada um de nós carrega um apreço pelo desastre e por ver “o circo pegar fogo” – não é nenhuma surpresa, pois, que os noticiários sejam carregados de notícias pesarosas em uma constância muito maior do que deveríamos prezar, alimentando um sentimento de empatia que tristemente permanece adormecido em nós até que seja tarde demais. E é absurdo pensar que é essa série de eventos infelizes é um dos principais motores que permite a esse mesmo público discorrer sobre uma efêmera e mascarada compaixão que é tão verdadeiro e puro quanto uma perna-de-pau.

Não é surpresa que essa contraditória e aversa paixonite tenha chamado a atenção de nomes bastante misteriosos – e um desses nomes certamente faz soar uma vaga e estranhamente acolhedora memória em nós, leitores e espectadores: Lemony Snicket. Snicket, ou Daniel Handler, como prefiram chamá-lo, percebeu que o jeito mais fácil de envolver certa massa de pessoas era usando uma coisa que chamamos de psicologia reversa, induzindo-a a fazer exatamente o oposto do que se espera. Não é nenhuma surpresa que sua fabulosa e conhecida franquia de romances intitulada Desventuras em Série traga um narrador-onisciente pautado no excessivo pessimismo para mantê-los vidrados da primeira à última página, discorrendo sobre as infelicidades de três órfãos cujas vidas não passam de uma bola de neve de horrores: Violet, Klaus e Sunny Baudelaire.

O sagaz trio perdeu os pais em um misterioso incêndio e desde então foi obrigado a lidar com as mortais investidas de seu primeiro e mais próximo tutor, o ardiloso Conde Olaf, que mais parece ter tido sua caracterização arrancada das páginas de romances sobrenaturais que de qualquer outra perspectiva realista. Sua des-jornada também é constante e, não importa o quanto tentem escapar ou o quão cruéis os eventos ao redor dela sejam, aquele que lê cada uma das páginas minuciosamente escritas não consegue desviar a atenção e chegue até mesmo a se sentir mal por causa disso. E o que acontece quando essa mesma embriaguez expande-se para o meio audiovisual?

Bom, ainda que carregada de inúmeros deslizes e até mesmo algumas perspectivas mais suavizadas para não chocar a audiência de forma tão impactante, a primeira temporada da série homônima, realizada pela gigante do streaming Netflix, definitivamente cativou uma quantidade muito considerável de pessoas e as deixou ansiosas para as próximas adaptações televisivas – e qual foi nossa surpresa quando descobrimos que a nova iteração não adaptaria apenas quatro, mas cinco dos próximos livros assinados por Handler. E dizendo isso como fã dos romances e do longa-metragem, posso dizer que também fiquei animado, mesmo com a mediocridade de seu ano de início; afinal, teríamos uma perspectiva que nunca antes havia sido retratada e que poderia funcionar muito bem – ou tornar-se um belo de um fracasso.

Felizmente, Barry Sonnenfeld, retornando como o showrunner do seriado, parece ter aprendido com deslizes passados e tentou, na medida do possível, manter-se fiel à estética do humor negro e ácido criado pelo autor, canalizando suas incríveis metáforas e sacadas narrativas para uma versão mais estilizada, por assim dizer – mesmo que não abandonando alguns irritantes trejeitos.

SOFRIMENTO NO COLÉGIO INTERNO

O novo ano de Desventuras em Série clama por mais infortúnios. Isso já é claro desde o princípio e tornou-se ainda mais claro com o estúpido gancho da season finale, no qual nossos injustiçados heróis cantam uma ode de desesperança àqueles que os acompanharam até agora. E, de novo, somos reintroduzidos ao cosmos idealizado por Handler através da sempre bem-vinda aparição de Patrick Warburton como Snicket, ou o narrador, ou o todo-poderoso que na verdade tem como função explanar para o mesmo público sedento por tragédias todas as infelicidades que acometem os órfãos Baudelaire – partindo de sua entrada na Escola Preparatória Prufrock.

É de praxe dizer que, bem como a iteração anterior, o show retorna com uma promessa interessante de melhorar as coisas, sejam os porcos efeitos de CGI, seja a manutenção de uma estética mórbida que poderia ter sido emprestada e homenageada do longa-metragem de 2004. Aqui, Violet (Malina Weissman), Klaus (Louis Hynes) e Sunny (Presley Smith) se veem pela primeira vez bem longe da conturbada mente de seu primeiro tutor, sentindo-se ao mesmo tempo protegidos e impotentes dentro das fortificadas paredes da instituição educacional – isso é, até encontrarem-se com uma das figuras mais irritantes e desprezíveis dentro do universo desventuresco: a arrogante e excessivamente doce Carmelita Spats (Kitana Turnbull), a “queridinha” do vice-diretor do colégio que não faz nada além de infernizar os nossos protagonistas.

Sua construção é on point, não apenas ao resgatar suas reais intenções por trás do doce e tétrico semblante pueril, mas também por fazer bom uso de elementos estilísticos mal colocados em episódios anteriores; um deles, por exemplo, é a utilização da cor rosa como vestimenta-base, cuja cor havia sido já escolhida de modo equivocado para Violet em Mau Começo. O adorno fabulesco certamente conversa com a personalidade contraditória de Carmelita, aumentando sua complexidade, enquanto a outra garota retorna para um estado melancólico do cinza, do azul e do vinho – seguindo um forte padrão junto a seus irmãos.

Este é apenas o começo de seu sofrimento, visto que as coisas continuam a piorar com a entrada do hilário Roger Bart como o Vice-Diretor Nero, cuja caracterização também é impecável. O problema, aqui, reside em outro aspecto: seus trejeitos e maneirismos. Levando em consideração a obra de Handler, que também fica responsável por se autoadaptar às telinhas, seria óbvio procurar uma certa mescla entre terror e drama dentro de seus personagens, visto que o escape cômico permaneceria encoberto por uma névoa dúbia de outros antagonistas. Entretanto, não conseguimos levar nenhuma das ameaças de Nero, seja pelas expressões faciais do ator ou por sua repetitiva quebra de expectativa – indicando um problema que foi carregado desde o ano passado: o uso da comédia em detrimento do trágico.

Esses deslizes, entretanto, são brevemente ofuscados pela entrada de outros três personagens importantíssimos para a desenvoltura do arco dos Baudelaire. Um deles é a carismática bibliotecária que atende pelo nome de Olivia Caliban (Sara Rue), cuja aparição simplesmente não existe dentro dos livros originais, mas que torna-se um elemento-surpresa muito curioso e interessante. Ela, aliado à dupla de ex-trigêmeos Duncan (Dylan Kingwell) e Isadora (Ava Lake) Quagmire, é um dos poucos momentos de esperança que surgem no caminho dos protagonistas e talvez um dos poucos amigos que realmente se tornam valiosos para sua proteção – e tais coadjuvantes também servem como brecha para analisar o segredo envolvendo a família Baudelaire, os incêndios criminosos e as misteriosas peças de quebra-cabeça que volta e meia aparecem.

Entretanto, não estamos falando aqui de uma trama de mistério como qualquer outra, e sim uma marcada por erros. Muitos erros. Não apenas propositais, mas alguns que poderiam ser evitados e mesmo assim aparecem mais frequentemente do que o necessário ou permitido – e nesse caso menciono a primeira aparição de Neil Patrick Harris como o antagonista Conde Olaf. Mais uma vez, o vilanescos homem utiliza sua trupe e um de seus risíveis disfarces para se aproximar dos Baudelaire e de sua fortuna, encarnando o bizarro Treinador Genghis que logo toma conta de toda a história. O problema é basicamente o modo como o ator resolver se entregar ao papel: confiar em seu charme excessivo e múltiplas quebras narrativas para envolver aqueles que o assistem (de novo).

De qualquer forma, a primeira dupla de episódios tem uma estética aplaudível quando pensamos no escopo geral. Temos o resgate de um cenário em completa decadência – que se mantém pela temporada inteira e cuja saturação entra em uma curva crescente gradativa e proposital – e uma das rendições mais fiéis aos livros: a caracterização do complexo escolar como um gigantesco cemitério, desde os prédios em forma de lápide até as planícies secas e mortas que causam calafrios até mesmo no mais cético dos espectadores.

A ESTÓRIA ERSATZ

Sonnenfeld dá às graças de se afastar da cadeira de direção e colocar um nome inesperado para a adaptação de O Elevador Ersatz: o responsável pelo design de produção da série, Bo Welch. O artista é conhecido por seu trabalho em inúmeros filmes como Edward Mãos-de-Tesoura e Beetlejuice – então ainda que ele não honrasse os livros com sua direção, ao menos teríamos um deleite cênico para os olhos. Felizmente, Welch consegue superar várias expectativas e permite até mesmo que Handler tenha uma liberdade criativa ainda maior dentro de sua própria criação, focando em pontos mais desejados e respaldando o crescente suspense acerca do mistério principal.

Eventualmente, Olaf escapa pela quinta vez das mãos das autoridades – e parece que seu representante máximo, o canastrão Sr. Poe (K. Todd Freeman), precisa ser mais conciso na hora de prendê-lo e chamar oficiais reais ao invés de fazer justiça com as próprias mãos -, levando consigo os irmãos Quagmire e tirando, de novo, qualquer resquício de esperança dos Baudelaire em encontrar respostas. Desse modo, uma patrulha citadina é instaurada em busca do vilão enquanto Violet, Klaus e Sunny são entregues às mãos de outro distante tutor – o casal Squalor, que habita o último andar do sinistro edifício localizado na Rua Escura, 667. Ao perceberem que tal ambiência não é nada como os que já visitaram, visto que é fortemente marcada por aquilo que está na moda ou fora dela, os três são obrigados a subir quarenta e seis andares de uma sinuosa escada “porque utilizar elevadores está out” até chegarem ao apartamento em questão.

E é só então que somos introduzidos ao otimista Jerome (Tony Hale) e à sua esposa, Esmé (Lucy Punch), dois personagens que conseguem nos envolver desde o primeiro momento. Enquanto Jerome busca uma interação mais protetora acerca dos novos protegidos, sua esposa preocupa-se apenas com o fato de que “ter órfãos está super na moda” – e isso é tristemente cômico e episódico até mesmo para uma criação de Handler.

Sem sombra de dúvida os novos capítulos valem muito mais a pena por sua incrível preocupação imagética que pela história em si. O plot principal gira em torno dos Baudelaire se reencontrando com Olaf, agora disfarçado do personal stylist e “amigo” do casal Gunther, e percebendo que os raptados Quagmire podem estar escondidos no mesmo prédio em que se encontram – e é a partir disso que o roteirista/autor delineia uma narrativa baseada nas ambíguas imagens que cria; ersatz, afinal, é uma palavra alemã que significa “substituído” – e garanto que durante as duas partes desse bloco, somos apresentados a diversas mentiras.

Note a padronização nas linhas e nas figuras geométricas que nos relembram de um cela de prisão, conversando com a situação em que os Baudelaire se encontram.

Entretanto, permita-me elogiar repetitivamente o trabalho de Welch ao canalizar uma rendição teatral única para a série, utilizando muito bem de suas habilidades estéticas com a paleta de cor vermelha. Diferentemente de outras peças audiovisuais que trazem a mesma presença marcante desse tom, aqui ele é utilizado com um propósito único e que funciona de cabo a rabo: seja em sua tradução para o salmão ou até mesmo para alguns filtros mais pastéis, a atmosfera criada não é da costumeira paixão ou da ardência sentimental, mas sim de um apreço pelo perigo que chega a ser doloroso. Ainda que em alguns momentos o preto e o branco propositalmente ofusquem-no, o vermelho aparece em pequenas pincelas para indicar a iminência explícita do perigo (Olaf) e de máscaras que, mais cedo ou mais tarde, irão cair (como a revelação da real identidade de Esmé).

A construção de cada um dos cenários também é pensada com exímia inteligência, trazendo para todos os enquadramentos linhas uniformes e padronizadas, além de figuras geométricas em uma overdose orgásmica muito bem colocada. A intercalação de colunas pretas e brancas ou até mesmo da opção por um soalho que nos relembre de um tabuleiro de xadrez clássico permitem que o espectador entenda a seriedade do “jogo” no qual os Baudelaire estão envolvidos e como suas vidas estão para sempre atadas a serem perseguidas por forças externas e nada escrupulosas.

Nem tudo são flores, querido leitor, e também faço deste modesto texto uma crítica às desnecessárias investidas da série em explorar uma versatilidade que todos nós já conhecemos acerca do incrível elenco. O nome de Patrick Harris é conhecido sim nos palcos da Broadway e em diversas produções musicais – então por que forçar uma entrada tão artificial quanto uma sequência de dança e canto que não apenas nega a natureza psicótica de Olaf, mas o torna estrambólico? E talvez o pior seja essa falta de percepção e a repetição do mesmo erro alguns capítulos mais à frente com O Espetáculo Carnívoro.

A CIDADE DA ESPERANÇA PERDIDA

Caso o leitor ache que O Lago das Sanguessugas representou um declive em Desventuras em Série, provavelmente não se aventurou nas graças desses próximos dois episódios: é quase inegável que você possa encontrar alguma crítica ou resenha que dê certo aclame para a adaptação de A Cidade Sinistra dos Corvos – ainda mais se procurar em alguns sites estrangeiros e mainstream, visto que qualquer história meia-boca que fale de superação e fé causa uma comoção coletiva; mas esqueça qualquer elogio de grande peso a partir deste parágrafo e até o final desta seção. É praticamente impossível encontrar alguma coisa boa nessa pequena, porém valiosa e desperdiçada fatia de decepção que a Netflix nos entregou.

O sétimo livro da franquia é um de seus mais mórbidos, ainda que permaneça em uma zona de conforto monótona – a começar por seu símbolo principal: o corvo. A ave negra sempre foi utilizada como mau agouro, e dentro de um escopo essencialmente inclinado à tragédia, não poderia ter um tratamento muito ornamentado. Entretanto, Handler habilmente consegue transformá-la, ao menos nas páginas, em um arquétipo mensageiro de grande valia para nossos órfãos – ainda que ceda a investidas do estilo deus ex machina (uma expressão utilizada com bastante louvor e didática pela série). O problema é como essa história é contada em meio a tantos absurdos e erros imperdoáveis.

A começar pelos efeitos especiais.

Acho que não foi desde Once Upon a Time que um show trouxe uma preocupação duvidosa e questionável acerca do trabalho em CGI, preferindo poupar recursos e mão de obra em prol de uma narrativa mais impactante e importante que a “mera” busca pela verossimilhança. Entretanto, ao contrário da série de fantasia em questão, este show não tinha nenhum motivo para não trazer o mínimo de cuidado às telas, ainda mais levando em consideração seu estilo teatral e com diversas homenagens a Wes Anderson ao longo do caminho, incluindo a marcante paleta de cores e o apreço exagerado e justificável pela simetria cênica. Mas de que adianta toda essa bagagem cultural se o que observamos tem como pano de fundo uma literal miscelânea não editada e não finalizada de fundo verde e efeitos toscos? Ora, é quase possível enxergar o chroma key estourando diante de nossos olhos – e até agora não consigo entender quem Sonnenfeld pretendia enganar ao criar o amanhecer e o alvorecer mais falsos e incogitáveis dos últimos anos.

A história também não envolve mais uma vez pelo excesso de canastrice. Um dos personagens introduzidos ainda nesta temporada, o charmoso espião, taxista e voluntário – como são chamados os membros da organização secreta que move a trama principal – intitulado Jacques Snicket (soa familiar?), é completamente desperdiçado e encontra uma ruína odiosa nas mãos de Olaf e de sua mais nova comparsa, Esmé. Nathan Fillion pode ter feito um trabalho imenso ao trazer ares de Casablanca e …E o Vento Levou, mas seus esforços parecem ter encontrado uma barreira ao adentrar um arco insosso até mesmo para os fãs mais assíduos da série – e que chega a ser vergonhoso, por falta de outro adjetivo.

Nem mesmo a caracterização da vila é aprazível o suficiente. Podemos notar com certa curiosidade um isolamento proposital da cidadela em relação ao resto do mundo, cujos valores medievais conversam com a ideologia amish e são traduzidas em vestimentas bem pensadas, mas cada um dos personagens pertence uma massa amorfa que sai de lugar nenhum para chegar a nenhum lugar – isso sem falar da completa perdição do tutor Hector (Ithamar Enriquez), tão memorável quanto um pedaço de cascalho. Ao menos as coisas terminam bem para os Quagmire – coisa que não podemos dizer do vicioso ciclo de desgraças dos Baudelaire.

O REQUINTE HOSTIL

Violet, Klaus e Sunny parecem ter um desolado imã para o perigo e para o caos. Em um tempo relativamente breve, eles passaram de pobres órfãos que lidavam com a perseguição interminável de um homem com monocelha e tatuagem de olho no tornozelo para três assassinos responsáveis pela morte nada acidental de um homem inocente que agora tentam encontrar seu caminho no meio do nada. Chega a ser doloroso observá-los lutar contra tanta adversidade – mas atire a primeira pedra quem não morreria para vê-los em mais uma desventura.

E é do modo mais escabroso e inimaginável que o trio de sofridos heróis finalmente chega ao decadente Hospital Heimlich, estranhamente localizado no meio do nada e que não parece contar com o mínimo de infraestrutura para manter seus pacientes e sua equipe de médicos. Logo nos primeiros minutos do sétimo episódio, a série parece ter se comprometido um pouco mais com os efeitos especiais e criado uma arquitetura palpável dentro de suas limitações – e que mais se assemelha a uma gigantesca tumba vertical que qualquer outra coisa. Até mesmo a fachada está caindo aos pedaços, e a segunda instalação do edifício permanece inacabada e prestes a desmoronar ao sopro de uma ventania mais forte.

Pelo menos eles acreditam estar a salvo de Olaf. Acreditam, veja bem. Pois se há algo que Handler nos ensinou ao longo de treze mórbidos livros e adaptações para o cinema e a televisão é que o mundo sempre dá voltas e aqueles que nos desejam o mal sempre estão à espreita e prontos para dar o bote quando menos esperamos. Ainda que não esteja premeditada dentro do itinerário Baudelaire, o grupo de crianças encontra abrigo em meio a uma comissão excessivamente feliz de voluntários – não os mesmos que pertencem à organização secreta, mas outros – que têm como missão levar um pouco de felicidade aos pacientes internados nas facilidades médicas, mesmo que suas condições sejam irremediáveis. Aqui já notamos um contraste muito mais elaborado que o visto em iterações anteriores, principalmente pelo jogo de cores: enquanto esses personagens descartáveis ganham uma profundidade cênica pelas cores vivas e complementares entre si, o Hospital mergulha cada vez mais na frieza do azul-esverdeado, reafirmando uma atmosfera depressiva e nem um pouco convidativa.

As releituras de O Hospital Hostil definitivamente representam uma melhoria em relação aos dois episódios predecessores, seja em termos estéticos, seja na mobilidade narrativa. Allan Arkush assume a cadeira da direção e brinca com algumas identidades que ainda não foram vistas em Desventuras em Série, resolvendo retratar o cenário principal como um palco dos clássicos do terror. E não é à toa que ele consegue arquitetar uma homenagem interessante com sequências de crescente suspense, quebrando a densa atmosfera com algumas piadas muito bem-vindas e uma atuação de Patrick Harris que se afasta dos convencionalismos do personagem canastrão que criou – tudo bem, Olaf é canastrão por si mesmo, mas não há necessidade de levá-lo para um nível acima. Aqui, o ator consegue abraçar um pouco mais do drama, ainda mais respaldado pela loucura e insanidade de Esmé, e ganha complexidade ao invés de se fundir aos estereótipos vilanescos.

O arco dos irmãos Baudelaire também encontra brechas para ser melhor analisado e aprofunda as questões familiares que foram mantidas durante tanto tempo em segredo – incluindo a revelação chocante de que um dos membros da família não morreu no incêndio criminoso e está à solta, escondendo-se por aí. Analisando de uma perspectiva externa, podemos encarar essa virada de modo ocasional; todavia, o modo como essa informação chega ao espectador e até mesmo aos personagens é construído com tanta fluidez que os eventuais problemas são deixados de lado – e não podemos nos esquecer do incrível cliffhanger que nos é deixado ao fim da primeira parte.

O respeito com o qual a obra de Handler é tratada é o ponto-chave para que o terreno seja preparado para investidas inovadoras, se pensarmos no uso e no abuso de estilos diferenciados para a arquitetura principal da série. Em determinado momento, Klaus e Sunny se disfarçam para salvar Violet de uma possível craniotomia – e a sequência é pautada em um drama muito necessário para se afastar da ambiência estilizada. Arkush até mesmo constrói enquadramentos simbólicos e que prezam pelo plongée absoluto, aumentando a extensão do olhar para a sala de operações em forma de arena e ressignificando seu diálogo com a ideia de um lugar marcado pela opressão e pelo espetáculo. E, como se não bastasse, até mesmo as construções finais alcançam certa inovação ao colocar os Baudelaire a literalmente centímetros das garras de Olaf em sua trupe com a conclusão desse bloco.

ESPETÁCULO DO SACRIFÍCIO

Desventuras em Série é uma obra oscilante, por assim dizer – palavra que aqui significa “algo que transita entre o bom e o ruim, cheio de altos e baixos que podem confundir o espectador em certos níveis”. Ainda que seja predominantemente satisfatório e que tenha conseguido trazer o nome por trás de todo o cosmos único e envolvente para trabalhar diretamente com a adaptação, tal show parece se recusar a abandonar certos extremismos e vícios de linguagem – incluindo uma abordagem simplista e infantiloide que por vezes renega toda a característica depressiva e angustiante de seu material original. E isso se repete nos dois últimos capítulos dessa nova temporada, mesmo que se reencontre nos momentos finais para uma conclusão que beira o épico.

Em O Espetáculo Carnívoro, temos uma leve pausa no jogo de gato-e-rato entre as duas partes da história principal, visto que o antagonista se vê enfrentando um dilema muito maior: o fato de um dos pais Baudelaire estar vivo e ameaçar todos os planos que tinha de roubar a fortuna da família e sair vitorioso após uma série de crimes. Encontrando refúgio em um quase abandonado circo chamado Caligari – e que faz menção a um dos clássicos do expressionismo alemão, O Gabinete do Dr. Caligari -, ele busca respostas com a vidente Madame Lulu, cuja personagem é interpretada novamente por Sara Rue sob a máscara de Olivia que vestiu anteriormente. É interessante analisar como sua construção não nos permite adivinhar quem realmente é até o momento certo, adicionando mais camadas de agradabilidade narrativa a quem assiste.

Basicamente esta é a única subtrama que realmente importa dentro do último duo de capítulos; claro, podemos também levar em consideração as pequenas manifestações dos comparsas de Olaf acerca de seus problemas pessoais, ou a incessante e insuportável busca de Esmé por um açucareiro desaparecido, ou até mesmo pelo time de aberrações que habita o circo. Mas nada isso importa pelo fato de não ter desenvolvimento necessário para criar qualquer tipo de vínculo com o público; tudo converge para as tentativas dos irmãos de encontrar mais respostas e delinear um plano para encontrarem o pai ou a mãe – ainda não se sabe qual dos dois sobreviveu ao incêndio. Desse modo, qualquer outra subtrama torna-se ofuscada.

As aproximações imagéticas também são um problema; ao invés de manter o contraste entre os inúmeros microcosmos que carregam cada qual uma característica própria, a ambiência principal é uma mistura da Cidade dos Corvos com o Hospital Heimlich, além de evocar elementos que se referem a cenários já utilizados – até mesmo o tempestuoso casebre de O Lago das Sanguessugas. O resultado final, porém, é apenas o mesmo do mesmo, não ousando como poderia e reintroduzindo algo que foi mencionado e que deveria ser abolido o mais rápido possível – os números musicais. Por Deus, Patrick Harris já é a voz que lidera a introdução, não é necessário mantê-lo cantando o tempo todo.

O brilho do roteiro fala mais alto conforme nos aproximamos do final. Em uma saída orquestrada tanto por Olaf quanto por Esmé, Handler percebe que pode fazer jus ao que criou ao não nos poupar dos sacrifícios, por mais tristes e sangrentos que sejam. Felizmente não optando por uma autoexplicação excessiva como a vista durante a morte de Tio Monty ou de Tia Josephine na temporada anterior, aqui permanecemos com a incrível insurgência de um foreshadowing que é completada pelos poéticos monólogos de Snicket, deixando que as peças se juntem pela imaginação e pela capacidade lógica do espectador. É uma forma literária de brincar com alguns elementos cinematográficos e que não é usada com a frequência que deveria.

Outro ápice que se mostra necessário ter o devido reconhecimento é o gancho para a terceira e última temporada. Quando temos a certeza de que mais um círculo se fechou, o destino brinca cruelmente com os órfãos Baudelaire e dessa vez os separa do modo mais sarcástico e trágico possível, colocando Violet e Klaus em uma prisão sobre rodas e à beira de um penhasco literal: desde o princípio, a ardilosa mente do vilão havia percebido que estava com suas mãos na família, porém manteve-se cético até os momentos finais e conseguiu fazer o que bem queria: livrar-se dos obstáculos maiores – aparentemente.

ÚLTIMA CHAMADA

É assim, querido leitor, que essa mais nova desventura encontra sua conclusão: nossos heróis embutidos em outra jornada marcada por infelicidades, perdas e desesperança – cujos elementos são refutados por grande parte dessa epopeica série que tanto deixou a desejar ano passado.

Chega a ser admirável o modo como Sonnenfeld e Handler lidaram com grande parte dos erros, acreditando em um potencial que havia sido perdido e que, magicamente, foi resgatado através de entradas mais concisas e palpáveis para uma impossibilidade cênica que já se tornara marca do show. Mesmo com erros imperdoáveis – incluindo a maldição que aqui lanço sobre Cidade dos Corvos -, o segundo ano de Desventuras em Série é satisfatório.

Entretanto, mais do que nunca percebemos o apreço que carregamos pelo trágico. Como explicado nos primeiros parágrafos desta análise, são os infortúnios tão dolorosamente explícitos e constantes que nos deixam vidrados, correndo-nos por dentro e vívidos pelo próximo capítulo. Uma sociedade do espetáculo que tristemente necessita dessa infeliz satisfação para se comover – e cuja luz no fim do túnel na verdade não passa de chamas de um passado traumático.

Desventuras em Série – 2ª Temporada (Idem, EUA – 2018)

Showrunner: Barry Sonnenfeld
Direção: Barry Sonnenfeld, Bo Welch, Allan Arkush, Loni Peristere
Roteiro: Daniel Handler, baseado na série de livros do pseudônimo Lemony Snicket
Elenco: Neil Patrick Harris, Patrick Warburton, Malina Weissman, Louis Hynes, K. Todd Freeman, Presley Smith, Usman Ally, Matty Cardarople
Episódios: 10
Duração: aprox. 42 min. cada episódio

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