É de se gerar imensa curiosidade e um divertido respeito por uma obra que constantemente clama para que seu interlocutor abandone-a, seja através de livro ou obra audiovisual. Tal niilismo em relação a si mesmo é um dos maiores charmes da série de livros Desventuras em Série de Lemony Snicket, pseudônimo de Daniel Handler, que fez um trabalho literário tão bom que seria apenas uma questão de tempo até que Hollywood tomasse nota. Com isso, em 2004 tivemos a adaptação cinematográfica de Desventuras em Série, onde Brad Silberling entregou um dos filmes mais subestimados da década passada.

A trama se concentra nos três primeiros livros da série: Mau Começo, A Sala dos Répteis e O Lago das Sanguessugas, nos apresentando aos irmãos Violet (Emilly Browning), Klaus (Liam Aiken) e Sunny (Shelby e Kara Hoffman) Baudelaire, que subitamente perdem seus pais em um misterioso incêndio que destruiu toda a sua mansão. Auxiliados pelo banqueiro Sr. Poe (Timothy Spall), as crianças são enviadas para viver com seu novo tutor legal, o maligno Conde Olaf (Jim Carrey), que secretamente planeja roubar a exorbitante fortuna que aguarda os Baudelaire em sua herança.

Ainda que a ideia de se adaptar três livros em uma narrativa de duas horas pareça insanidade, é a melhor opção possível para a história, que torna-se fluida e envolvente graças à boa adaptação do próprio Handler. É uma estrutura assumidamente episódica, onde os órfãos escapam do Conde Olaf e tentam convencer seus subsequentes tutores (aliás, que gigantesca conexão os Baudelaire tinham) de que o Conde está disfarçado de alguém próximo a eles e planeja matá-los. É algo que pode tornar-se repetitivo, mas que também sempre dá fôlego para as crianças e suas histórias, ao passo em que boa parte dos adultos são ignorantes e desacreditados, e o envolvimento com os personagens é forte o bastante para que o espectador tenha vontade de gritar em seus ouvidos para que escutem as crianças.

É uma história que habilidosamente balanceia sua natureza sombria com um senso de humor peculiar, o estilo difícil que Tim Burton simplesmente desaprendeu como fazer em seus últimos filmes. É preciso talento para ter, na mesma história, um adulto covardemente estapear uma criança após ela lhe preparar um jantar e uma piada recorrente com o medo irracional de corretores de imóveis; e o fato de que ambas as cenas funcionam em seus respectivos contextos é a prova de que Handler e Silberling acertaram o tom da adaptação. Ajuda também que tenhamos protagonistas absolutamente carismáticos e inteligentes, do que tipo que oferecem soluções engenhosas e evitam cair nos clichês típicos desse tipo de narrativa.

E,claro, a charmosa narração em over de Lemony Snicket, que surge com a voz e silhueta de Jude Law. Na melhor tradição desse dispositivo narrativo, temos um narrador que participa da história e oferece os melhores comentários e complementos possíveis, e é ainda mais fascinante quando temos conhecimento de que o próprio Snicket é um personagem que segue os Baudelaire e sua trágica desventura. Tal execução é tão metalinguística e segura, que o filme sofre uma brusca interrupção quando a fita do datilógrafo de Snicket emperra, tornando a imersão ainda mais verossímil e divertida.

Já para a direção de Brad Silberling, novamente trago a comparação com o estilo perdido de Tim Burton. O universo visual de Desventuras é estilístico e peculiar, ainda que mantenha um pé no realismo. Parece ser contemporâneo, mas constantemente temos influências de uma Londres vitoriana nos cenários, na paleta de cores e nos figurinos estranhamente retrógrados dos personagens. Há um aspecto gótico e sombrio que marca a fotografia espetacular de Emmanuel Lubezki, sempre mantendo a escala sombria e o céu predominantemente cinzento: mesmo quando os órfãos têm um breve momento de felicidade (marcado por um flare da luz do sol), logo são engolidos de volta às trevas quando Olaf retorna em suas vidas.

Além dos maravilhosos cenários desenhados pelo designer Rick Heinrichs, Silberling é muito eficiente na construção de sequências elaboradas que envolvem tensão. A cena em que os órfãos estão presos dentro de um carro estacionado aos trilhos de um trem que se aproxima é uma aula de enquadramento e montagem (assinada por ninguém menos do que Michael Kahn), que agilizam as tentativas dos personagens de terem uma ideia e efetuá-la antes de serem despedaçados – e a fantástica trilha sonora de Thomas Newman aumenta a percussão para deixar o espectador no limite. De maneira similar, a fuga de uma casa em colapso durante um furacão e a tentativa de resgatar um bebê de uma gaiola são igualmente intensas e bem construídas, seguindo essa brilhante combinação de direção, montagem e música.

Outro elemento acertadíssimo da produção é seu elenco. Antes de estrelar filmes como Sucker Punch: Mundo Surreal e Beleza Adormecida, Emily Browning despontou como a inteligente Violet Baudelaire, a mais madura e sensata do grupo, ao passo em que Liam Aiken acerta o tom sóbrio e quase apático de Klaus, ainda que ele perigosamente beire a inexpressividade em certos momentos – como sua reação ao quase ser atacado por uma serpente. A bebê Sunny é um alívio cômico dos mais divertidos, e o desempenho das gêmeas Kara e Shelby Hoffman é engraçadíssimo.

Mas claro, quem definitivamente rouba todas as cenas em que aparece é Jim Carrey. Raramente vemos o maior comediante da década de 90 assumindo um papel antagonista, e Carrey não se entrega completamente às sombras sob a maquiagem caricata de Olaf; o que é uma decisão sábia considerando a persona charlatona e trapaceira do personagem. Seu timing cômigo e as caretas icônicas estão ali, com o ator aproveitando os elementos teatrais do personagem e abraçando o cartunesco sem medo durante os dois disfarces de Olaf: Stefano e o Capitão Sham, onde temos expressivas mudanças no seu timbre de voz e na expressão do olhar. E ainda que seja uma figura engraçada, Carrey é eficaz ao trazer os momentos assustadores de Olaf, como a já mencionada agressão e a cena em que sussurra aceleradamente uma ameaça para os órfãos.

E com um elenco protagonista já muito forte, é de se espantar com a quantidade de talento encontrada nos papéis coadjuvantes. Meryl Streep está perfeita como a medrosa e hipocondríaca tia Josephine, enquanto Billy Connolly transforma o tio Monthy em uma figura calorosa e simpática, ao mesmo tempo em que preserva suas excentricidades (em particular o cavanhaque). Mais contido, Timothy Spall oferece ao Sr. Poe as melhores intenções do mundo, mas preserva seu caráter burocrata e robotizado, enquanto Catherine O’Hara surge excepcional na pele da bondosa juíza Strauss. E vale destacar que todos o elenco segue um método de atuação consciente de que este não é um universo realista. É a perfeita linha do cartunesco.

Desventuras em Série é um filme que implora para ser redescoberto. Seja pelos personagens inteligentes, a trama que habilidosamente escapa de clichês ou o maravilhoso universo visual criado pelos realizadores, é o tipo de aventura infanto-juvenil com o potencial de agradar a todos os públicos. Com a chegada da nova série da Netflix, espero que o filme de Brad Silberling enfim tenha o reconhecimento que merece.

Comente!