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É inegável dizer que a Globo tem um apreço por suas produções originais, principalmente no tocante às novelas de época, desde a sutileza de Chocolate com Pimenta até o estrondoso sucesso de Cordel Encantado, que tornou-se uma das obras épicas mais vendidas para o mundo inteiro. Mas é claro que, em se tratando de uma soap opera, as limitações de orçamento são claras, ainda que sempre prezem pela correlação às grandes obras literárias e audiovisuais hollywoodianas com um toque de brasilidade claros, principalmente quanto ao desenvolvimento de seus personagens. Em Deus Salve o Rei, essa preocupação se mantém de forma impressionante e até mesmo dá uma abertura realizações futuras.

Se o capítulo piloto deu as regras do jogo e preparou a audiência para uma narrativa essencialmente nova quando comparada com espetáculos anteriores, a segunda iteração se mostra um tanto quanto superior, seja em termos narrativos, seja em estéticos. O primeiro frame é típico da transição entre um acontecimento de grande peso para o arco de um dos personagens e as consequências dessa irreversibilidade – e para aqueles que não se recordam, as intransigências pacíficas entre os dois Reinos principais da história (Artena e Montemor) entram como principal base para cada uma das tramas conseguir se desenrolar.

Ao que tudo sabemos, o príncipe herdeiro de Montemor, Afonso (Romulo Estrela) foi protagonista de uma emboscada nas florestes próximas à Artena, sofrendo ferimentos graves que o deixaram inapto de retornar para seu lar ou até mesmo buscar uma salvação. Porém, em se tratando de um conto medieval, uma força superior, representada pela mortalidade de um ser humano, deveria entrar em ação para impedir sua morte – e tal fato é encarnado pela altruísta e sonhadora Amália (Marina Ruy Barbosa). Sabe-se que sua condição como plebeia é um elemento imprescindível para o escopo principal – a paixão proibida entre dois jovens de classes distintas (o clássico toque shakespeariano à la Romeu e Julieta) -, e esse primeiro encontro é exatamente o que precisávamos para dar início ao romance.

A facilidade para se embeber com os clichês de tais tramas é quase tentadora, incluindo o “amor à primeira vista”; mas não estamos lidando com uma adaptação das novelas de cavalaria ou dos livros românticos de época, e sim com uma perspectiva contemporânea dentro do cosmos épico – seja na crise hídrica, nos casamentos arranjados e até mesmo na abissal diferença econômico-social entre as pessoas. Como Deus Salve o Rei é um entretenimento puro e barato, é quase impossível mergulhar com profundidade em alguns desses temas, incitando o time criativo a buscar por outras alternativas para aumentar a complexidade de seus personagens.

Talvez uma das sequências que mais chame a atenção dentro do escopo total é a subtrama de Catarina (Bruna Marquezine), um arquétipo ainda não lapidado de uma princesa que não deseja se casar e seguir os valores endossados de sua família tradicional, lutando para alcançar objetivos completamente reversos aos defendidos pelo pai Augusto (Marco Nanini), rei de Artena. A personagem de Marquezine é uma das mais complexas, mas que pode cair no equívoco de ser desperdiçada em meio ao romance de Amália e Afonso – uma necessidade quase óbvia para a construção de laços entre as criações televisivas e o público. É claro que ainda estamos no início da narrativa e, considerando a encomenda de aproximadamente 150 episódios, bem como a desenvoltura rítmica lenta das soap operas, há espaço para aprofundar-se naquilo que se mais desejar. Catarina é a mais condecorada com diálogos sutis, mas dotados de solilóquios próprios da figura da femme fatale que irá utilizar-se de sua beleza e de sua condição para arquitetar golpes e mais golpes para finalmente ter o que quer (mesmo que isso esteja escondido nas sombras que geralmente acompanham as suas construções cênicas).

Além do evidente corte de gastos, a novela é, em sua maior parte, ambígua: as sequências de drama são acompanhadas por uma melodia melancólica e quase tétrica, enquanto os momentos de alívio de tensão, protagonizados pela figura de Rodolfo (Johnny Massaro) e o aproveitamento de suas mordomias e lascívias, são respaldados pelo acompanhamento caprichoso do piano e do violino. Normalmente, as trilhas sonoras servem como reafirmação atmosférica, mas a bruta transição entre as cenas, ainda que não siga a frenética montagem de produções anteriores, contribui para uma infeliz fragmentação da trama. E até mesmo a mudança do arco dos personagens – incluindo o supracitado Rodolfo no final do último ato – ocorre de forma jogada, ainda que permita um aprofundamento das relações emocionais, psicológicas e até mesmo políticas entre os protagonistas – incluindo de Massaro com Rosamaria Murtinho no papel de Crisélia, Rainha de Montemor.

De qualquer modo, o segundo capítulo de Deus Salve o Rei é ligeiramente superior ao piloto, mesmo que poucas coisas realmente importantes ganhem um avanço considerável dentro da trama. Entretanto, precisamos nos lembrar de que essa produção é uma soap opera: utilizar-se dos acontecimentos de forma rápida é um péssimo negócio, seja para a continuidade de sua narrativa, seja para o crescente mergulho no público dentro de uma mitologia que tem um potencial interessante e de amplitude exploratória quase infinita.

Deus Salve o Rei – Capítulo 02 (idem – Brasil, 10 de janeiro de 2018)

Direção: Fabrício Mamberti
Roteiro: Sérgio Marques, Angélica Lopes, Dino Cantelli, Cláudia Gomes, Péricles Barros
Elenco: Marina Ruy Barbosa, Rômulo Estrela, Bruna Marquezine, Johnny Massaro, Ricardo Pereira, José Fidalgo, Tatá Werneck, Vinicius Calderoni, Marco Nanini, Caio Blat, Vinícius Redd, Fernanda Nobre, Débora Olivieri, Giulio Lopes, Marina Moschen, João Vithor Oliveira
Emissora: Globo
Duração: 43 min.

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