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O segundo capítulo da novela Deus Salve o Rei nos deixou com dois cliffhangers bem definidos. De um lado tivemos a descoberta, por parte de Crisélia, que seu neto, Afonso, está morto. De outro, Virgílio Salazar chega à porta da casa de Amália, surpreendendo a todos, gerando, é claro, o temor desse pretendente da personagem interpretada por Marina Ruy Barbosa descobrir que Afonso está sendo abrigado ali. São tais pontas soltas que definem o caminho a ser trilhado nesse terceiro episódio, que foca, prioritariamente, no desenvolvimento do arco romântico, no possível casamento de Catarina e na doença da rainha de Montemor.

Naturalmente que não podemos esperar o desenvolvimento do capítulo de uma série aqui. Por se tratar de uma novela com (previstos) cento e cinquenta capítulos, exigir maior pressa por parte do roteiro seria um tanto quanto ingênuo. Isso, no entanto, não quer dizer que a trama tenha estagnado já aqui na primeira semana, muito pelo contrário. Ainda que os personagens permaneçam quase na mesma situação do dia anterior, muito ocorreu em termos de aprofundamento  e construção de cada um deles. Bom exemplo é o arco de Rodolfo, que encara a necessidade de se tornar rei, além da preocupação em relação à avó. A saída de Rosamaria Murtinho, que vive a rainha Crisélia, está mais do que anunciada, mas é gratificante enxergar como o texto simplesmente não dispensou a personagem de uma hora para a outra, utilizando-a para lidar com o crescimento de Rodolfo e os ânimos da população de Montemor.

Nesse sentido, falta um pouco mais de ênfase na escassez da água no local. Sim, o acordo entre os dois reinos garante o fornecimento desse recurso, mas, ainda assim, era de se esperar que sentíssemos os efeitos do inevitável racionamento nos ânimos dos cidadãos do reino. Ao contrário disso, tudo o que ouvimos foram elogios (além das fofocas sobre a saúde da rainha) por parte dos camponeses e cozinheiras, na intenção clara de enaltecer a figura de Afonso, a contrapondo ao seu irmão. Claro que isso tudo pode mudar, já que a incerteza sobre o futuro dessa nação permanece alta – constantemente sendo realçada pelo medo de Rodolfo, que, por enquanto, funciona como o típico alívio cômico, fator deixado bem claro, também, pela trilha sonora, que ainda causa nítidos estranhamentos na transição do drama para a comédia.

Do outro lado, Afonso, ainda enfermo, se aproxima cada vez de Amália e o texto acerta em manter a história resumida à casa da camponesa – ao menos nesse capítulo – dialogando com o esquecimento do mundo afora por parte dos personagens – Amália deixa de lado o pretendente, enquanto o príncipe quase se esquece do seu reino. Aliás, antes que tal esquecimento por parte do (talvez) futuro rei começasse a gerar estranhamento, o texto garante um surto de sanidade ao nobre, que, naturalmente, deixa de levar em conta seus recentes ferimentos. A partir daí era natural que o beijo acontecesse, ao passo que o roteiro utiliza o temor de Amália de vê-lo indo embora (seja pelo seu estado físico, seja por simplesmente querer que ele continue ali) para motivar o ato, que é introduzido de maneira bastante orgânica.

Por outro lado, não tão orgânica é a melodia tocada durante a cena, quebrando toda a linguagem estabelecida pela trilha até aqui, que, até então, utilizava sons mais condizentes à época retratada, como em uma deliciosa falsa diegese. Fora isso, e as já citadas transições entre o drama e humor, a trilha mais que cumpre seu papel, a esse ponto mesclando melhor com a imagem, não nos distraindo como fora o caso do episódio inaugural. Aliás, ousada a escolha de manter uma trilha original durante a maior parte das cenas, algo que facilmente poderia dar errado, por não permitir que certos diálogos se sustentassem por si só – ao invés disso, as melodias garantem uma camada a mais, funcionando, inclusive como elemento de imersão nessa época tão diferente da nossa.

Virando nosso olhar para a família real de Artena, Catarina se mantém como a personagem mais enigmática dessa novela da Globo até agora. Sua recusa em se casar com o Marquês, claro, é o que permite o desenrolar de sua história, mas, fora isso, não sabemos muito sobre suas intenções acerca do reino, ou até mesmo sobre sua personalidade. O caminho óbvio seria vê-la como futura vilã, mas, no presente momento, ela está inserida em seu próprio drama, até bastante desconexa do restante dos eventos, não fosse o acordo entre as duas nações. A chegada do Duque, claro, já garante um novo frescor à essa subtrama e a narrativa nos guia a torcer por essa união em razão da mais que exagerada personalidade do Marquês. O que gera certa ruptura em nossa imersão é a interpretação de Bruna Marquezine, que, embora acerte no olhar, acaba exagerando nos diálogos, trazendo uma falta de naturalidade não compartilhada pelos outros atores da obra – há uma formalidade maior, que pode ser, claro, fruto da educação da personagem, mas que provoca estranheza.

A mencionada distância entre subtramas de Catarina e das demais, felizmente, tem seus efeitos minimizados pela montagem, que intercala entre os arcos na hora certa, chegando a, em certos pontos, fazer uso de diálogos para justificar a transição – recurso bastante comum, mas que evidencia a preocupação da equipe em não criar algo demasiadamente fragmentado. Aliás, é preciso comentar sobre a utilização das transições, durante uma das sequências de Rodolfo, para constituir o humor da cena, mais uma medida bem típica, mas que funciona plenamente dentro do que fora proposto aqui – por mais que o alívio cômico ainda não esteja assim tão bem inserido dentro do contexto geral da novela. O que não vem como surpresa, já que a doença de Crisélia, como já foi dito, é um dos focos aqui.

Tratam-se, no entanto, de deslizes pontuais, que, no âmbito geral não prejudicam o desenvolvimento das diversas subtramas. Esse terceiro capítulo de Deus Salve o Rei, pois, sabe desenvolver seus personagens, enquanto, gradual e calmamente, tira todos de suas zonas de conforto. Com possíveis conflitos em iminência e muito a ser enfrentado por todos os principais indivíduos retratados, que devem arcar com o peso de suas escolhas, não podemos deixar de permanecer curiosos sobre o que está por vir.

Deus Salve o Rei – Capítulo 03 (idem – Brasil, 11 de janeiro de 2018)

Direção: Fabrício Mamberti
Roteiro: Sérgio Marques, Angélica Lopes, Dino Cantelli, Cláudia Gomes, Péricles Barros
Elenco: Marina Ruy Barbosa, Rômulo Estrela, Bruna Marquezine, Johnny Massaro, Ricardo Pereira, José Fidalgo, Tatá Werneck, Vinicius Calderoni, Marco Nanini, Caio Blat, Vinícius Redd, Fernanda Nobre, Débora Olivieri, Giulio Lopes, Marina Moschen, João Vithor Oliveira
Emissora: Globo
Duração: 43 min.

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