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É quase impossível não associar a Rede Globo aos vários estigmas audiovisuais que compões o panorama identitário geral da televisão brasileira, incluindo a endossada padronização de novelas de época e até mesmo as famosas obras da faixa das dez da noite. Com o grande marketing que precedeu Deus Salve o Rei, era de se esperar que sua estreia e os episódios consecutivos mudassem esse engessamento com o qual o público está muito acostumado, levando em conta principalmente o design muito bem pensado e o orçamento investido nessa produção, que chegou a ser comparada, à prima vista, à grandiloquência de séries como Game of Thrones, da HBO. Entretanto, ainda que os primeiros capítulos tenham entrado com certa força, não podemos negar que o time criativo por trás dessa novela já parece estar perdendo a mão.

A narrativa segue o que pode ser previsto desde os minutos iniciais da épica saga acerca dos Reinos de Montemor e Artena: o episódio anterior nos deixou com um cliffhanger que ganhou forma até muito cedo, considerando que a obra terá por volta de 150 capítulos. O romance entre Amália (Marina Ruy Barbosa) e Afonso (Romulo Estrela) alcançou seu ápice – a consumação do beijo – de forma corrida, mas que até teve seus momentos de glória. E é claro que, para dar início a uma das subtramas adoradas pelos dramaturgos dos estúdios, o prometido à mão da protagonista, Virgílio (Ricardo Pereira). Primeiro, é necessário levar em conta que o nome de seu personagem, Virgílio Salazar, não foi escolhido à toa; ambos os nomes referem-se a tiranos ditadores, ainda que de épocas diferentes, que representam maus agouros em seu significado mais intrínseco até hoje – então sua flagra perante os “amantes” (se é que podemos considerá-los assim) é de extrema importância para desenvolvimento do arco.

Furos são imprescindíveis em qualquer produção audiovisual, e em estilos narrativos como soap operas, prevenir todos é uma tarefa impossível. Entretanto, esses furos podem vir em hora muito boa para construir arquétipos que fogem às convenções literárias que permeiam tramas medievais, como o amor romântico que poderia ditar o destino dos personagens principais. Manter-se em uma posição original é uma sacada até mesmo brilhante; porém, tudo o que é bom dura pouco, e ao final do segundo ato, Amália e Afonso encontram-se em um momento bucólico e paradisíaco em seus próprios termos para firmar um relacionamento que terá consequências para todos à sua volta – incluindo um impactado Virgílio.

Uma das grandes frustrações desse capítulo é a personagem Catarina, herdeira do trono de Artena, interpretada por Bruna Marquezine. Ela traça tantos paralelos com Cersei (Lena Headey) que chega a ser doloroso observar o desperdício de potencial que ela traz nas construções cênicas: a cada esparsa faísca de explosão catártica, a atriz mantém-se na defensiva e no conformismo e não se permite fundir-se à fluidez que a princesa carrega até mesmo em sua caracterização. Talvez a chegada do Duque Constantino (José Fidalgo), uma figura tão envolvente quanto assombrosa, consiga despertar em seu suposto coração tradicionalista e esnobe um desejo por manter a superioridade de seu Reino em relação aos “inimigos”.

A trilha sonora também é algo a ser analisado com um atento pesar. Afinal, como essa produção de trata de uma ode às novelas de cavalaria e às cantigas medievais que tanto povoam o imaginário popular, a manutenção às vertentes celtas – que utilizam a flauta, o pandeiro e a harpa estilizados – deveria ser de suma importância para manter o público preso à milenar diegese. Entretanto, há investidas estranhas e quase bizarras dentro do episódio, que estendem seus temas contemporâneos até mesmo para as escolhas criativas: a presença de baladas melódicas do pop moderno e até mesmo do indie rock aparecem várias vezes através da narrativa e não de forma transgressora, como visto em Maria Antonieta, por exemplo. Elas apenas contribuem para a saturação excessiva e, mais uma vez, a tão temida ambiguidade.

O desperdício de ousadia pode até fugir aos olhos dos mais desatentos, mas para aqueles acostumados a obras do mesmo tipo – como as produções internacionais – essa falta de tato para o tratamento imagético também é complicado. Em diversas sequências, o diretor opta mais uma vez pelo conforto e pela fórmula do campo-contracampo, prezando pela câmera estática sobre determinado personagem, intercalando conforme a duração de cada diálogo. Pouquíssimas são as vezes em que os planos deslizam através dos cenários, até mesmo para mostrar a arquitetura de época e que é pensada com bastante cautela. A fluidez, podendo estender-se em uma conversa com a própria trilha sonora como base extra, dá lugar a uma construção tensa, monótona e cansativa, ainda que não saia do mesmo enquadramento.

Apesar do pouco tempo de cena, a presença de Rosamaria Murtinho como a debilitada rainha Crisélia é de grande aproveitamento, levando em conta sua condição – que, de forma poética, tem o gatilho ativado pela metafórica presença do beija-flor – e suas expressões faciais. Ainda que os monólogos não contribuam muito, ela geralmente é embebida por uma luz difusa e forte que insurge apenas quando “abdica” involuntariamente da condição como regente de um povo fadado à ruína.

Deus Salve o Rei sofreu um declínio considerável em seu quarto capítulo. Seja pelos cortes frenéticos ou pela rapidez dos acontecimentos – que fecham em momentos estranhamento íntimos entre os protagonistas -, a Globo poderia optar por uma homenagem direta à série que a inspirou e beber um pouco das águas de uma criatividade em potencial.

Deus Salve o Rei – Capítulo 04 (idem – Brasil, 11 de janeiro de 2018)

Direção: Fabrício Mamberti
Roteiro: Sérgio Marques, Angélica Lopes, Dino Cantelli, Cláudia Gomes, Péricles Barros
Elenco: Marina Ruy Barbosa, Rômulo Estrela, Bruna Marquezine, Johnny Massaro, Ricardo Pereira, José Fidalgo, Tatá Werneck, Vinicius Calderoni, Marco Nanini, Caio Blat, Vinícius Redd, Fernanda Nobre, Débora Olivieri, Giulio Lopes, Marina Moschen, João Vithor Oliveira
Emissora: Globo
Duração: 43 min.

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