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É inegável dizer que a Rede Globo é uma das emissoras mais ambiciosas da televisão brasileira. Além de ter produzido inúmeras minisséries e novelas que se tornaram sucesso mundial e faturaram várias estatuetas do Emmy internacional, ela parece ter se espelhado na grande influência narrativa e estética difundida pelo canal HBO no tocante a criar histórias de época e que conversem com uma mitologia fantástica e medieval – ou pelo menos um desses aspectos. E ainda que esteja se mantendo em um nível dialógico monótona e essencialmente dramático, próprio da caracterização das soap operas, Deus Salve o Rei ainda carrega consigo um proeminente potencial que, conforme os episódios se seguem, permanece na zona de conforto.

Se o capítulo anterior finalizou alguns arcos e algumas subtramas, não espere que as consequências dessas revelações permaneçam por grande tempo no mais novo capítulo. Rosamaria Murtinho encontra a ruína da personagem que encarna, a Rainha Crisélia, que já sofria com sua crescente demência e de forma poética põe um fim à miséria com a qual lidava, libertando-se de seu posto e deixando seus dois netos à mercê de uma liderança prematura. O grande problema desse arco foi não permitir que essas duas outras figuras tivessem um desenvolvimento maior acerca de uma suposta morte: como sabemos, Afonso (Romulo Estrela) esteve no reino de Artena durante todo esse tempo, e a falta de notícias sobre seu paradeiro levou sua família a lhe declarar como morto. Isso não apenas abalou as estruturas de um regime decadente, como colocou seu irmão Rodolfo (Johnny Massaro) como o herdeiro legítimo do trono após a morte da Rainha.

Entretanto, sabemos que esse conflito de personalidades – um sendo muito mais perspicaz e outro servindo como escape cômico para o escopo medieval – teria tudo para ser uma das subtramas mais bem exploradas da novela, principalmente levando em consideração que Afonso havia encontrado um pedacinho do paraíso ao desenvolver uma rápida relação romântica com a camponesa Amália (Marina Ruy Barbosa), a qual o enxerga como ferreiro e não como Príncipe e futuro Rei do território vizinho. Apesar disso, ele recebe as notícias em questão e decide retornar para casa para lidar com todas as questões em aberto – e tudo isso ocorre apenas no capítulo anterior.

Nessa sexta iteração, vemos as consequências das decisões precipitadas que giram em torno de Amália e Afonso, agora separados por uma força maior que os deixa totalmente abertos e vulneráveis a ameaças externas e até mesmo internas. Uma delas emerge na figura do ex-prometido da heroína, Virgílio Salazar (Ricardo Pereira), que, após lutar com seu novo amor, percebe que ele não é quem diz ser e tenta influenciá-la a descobrir mais sobre o homem que acolheu. A outra e talvez mais perigosa esteja em um círculo social quase inalcançável e que pode representar uma ameaça iminente e de potencial quase infinito: a Princesa Catarina (Bruna Marquezine).

Como já falamos em textos anteriores, Catarina é uma das figuras mais desperdiçadas dentro de Deus Salve o Rei, e o problema talvez esteja na caracterização feita pela atriz e em sua investida mais blasé para os discursos bélicos que tenta proferir com tanta convicção. Suas falas permanecem em uma linearidade dialógica que seria ótima para alguém que não tivesse um sotaque tão demarcado. Entretanto, em termos narrativos, seu arco começa a se desenrolar, deixando claro as intenções que carrega conforme as cenas de reafirmação de laços amigáveis entre Artena e Montemor são construídas. Ainda que Afonso e o atual Rei do Reino vizinho, Augusto (Marco Nanini), prezem pela paz, Catarina aproveita a oportunidade de visita para conhecer mais sobre o exército do território aliado, crente que muito em breve eles entrarão em uma batalha mortal contra outras províncias.

Ela é extremamente inteligente e ardilosa, e inclusive utiliza de seu charme para se aproximar da Família Real e ter acesso a números valiosos. Catarina não compreende o “coração de manteiga” de seu pai e a destinação de matéria-prima como o minério de ferro para construções arquitetônicas e não para a forja de espadas e escudos para autodefesa; de forma quase visceral, ela defende a corrida armamentista e acredita piamente que esse é o melhor modo para reafirmar a superioridade militar.

Apesar desses esparsos brilhos, sabemos que a novela é um veículo de entretenimento, mantendo-se mais uma vez na zona de conforto quando poderia mergulhar de cabeça em algo mais profundo e intimista. No geral, a sutileza com a qual os eventos se sucedem é imperceptível pela maior parte do público, mas notável para aqueles que têm um olhar um pouco mais apurado – e parece que até mesmo as construções cênicas estão se permitindo mais a ousadia ao invés de permanecer nos comodismos práticos das soap operas.

Um dos grandes deslizes do sexto capítulo é a repetição – e essa constância cíclica é algo que definitivamente desvia a atenção do telespectador para qualquer outra coisa, menos para a narrativa. Se no episódio anterior a parceria entre Catarina e o Duque Constantino (José Fidalgo) encontrou uma ambiência poética dentro do labirinto do Castelo (um microcosmos que chega até a ser sedutor), aqui o roteiro usa e abusa dessa nova condição encontrada mais de uma vez: tudo bem, pode-se entender que a Princesa se vê numa condição de maior liberdade quando afastada e acobertada pelas dezenas de cercas-vivas e pela companhia de seu suposto aliado, mas o que poderia ter sido um momento único transforma-se em uma saída saturada e já previsível.

Deus Salve o Rei tem uma melhora considerável dentro de suas perspectivas estéticas e narrativas. Ainda há muito a ser explorado – e por enquanto não há nada a se fazer a não ser esperar que esse medo de mergulhar de cabeça no mundo medieval e até mesmo na saudosa fantasia épica finalmente deixe de existir.

Deus Salve o Rei – Capítulo 06 (idem – Brasil, 15 de janeiro de 2018)

Direção: Fabrício Mamberti
Roteiro: Sérgio Marques, Angélica Lopes, Dino Cantelli, Cláudia Gomes, Péricles Barros
Elenco: Marina Ruy Barbosa, Rômulo Estrela, Bruna Marquezine, Johnny Massaro, Ricardo Pereira, José Fidalgo, Tatá Werneck, Vinicius Calderoni, Marco Nanini, Caio Blat, Vinícius Redd, Fernanda Nobre, Débora Olivieri, Giulio Lopes, Marina Moschen, João Vithor Oliveira
Emissora: Globo
Duração: 43 min.

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