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Contém spoilers!

O fenômeno que Game of Thrones se tornou inevitavelmente acabou gerando a necessidade, por parte das concorrentes da HBO, de criar conteúdos capazes de competir com a popular série de fantasia. Inúmeras tentativas foram surgindo ao longo dos anos, canais que tentaram criar seu próprio seriado medieval aos moldes da adaptação da obra de George R.R. Martin, mas nenhuma, de fato, conseguiu alcançar o grau de popularidade atingido por aquela na qual tentavam se espelhar. Com o iminente fim do seriado, no entanto, o cenário se alterou: a busca agora é por algo que preencha a lacuna a ser deixada por ele – vide a vindoura série baseada nas obras de Tolkien, da Amazon e a própria tentativa da HBO em emplacar spin-offs de sua maior propriedade intelectual atual.

Aproveitando-se desse momento, a Globo decidiu realizar sua própria obra de fantasia medieval, talvez até tardiamente – já foram produzidas obras anteriormente do gênero, mas nada aos moldes da estrangeira série de sucesso -, considerando a falta de investimento nesse lado pouco explorado da televisão brasileira (de memória, só vem à mente uma produção da Record). Deus Salve o Rei claramente é a resposta nacional para o grande sucesso da série de David Benioff e D.B. Weiss e o pesado investimento da emissora demonstra a importância dessa nova novela das sete para o canal.

A obra nos apresenta dois reinos que vivem em harmonia: Montemor e Artena. O primeiro depende da água do segundo e consolidou esse duradouro acordo comercial através do minério que tem à disposição para troca. Esse cenário, contudo, está prestes a se alterar, visto que os governantes de cada reino já estão em idade avançada e, em breve, poderão deixar os reinos para seus herdeiros. Do lado de Montemor, temos o príncipe Afonso (Rômulo Estrela), honrado e preocupado em manter a paz entre os dois reinos. Do seu lado, seu irmão impetuoso, Rodolfo (Johnny Massaro), que parece mais interessado em festas, mulheres e bebidas – desde já demonstra certa pré-disposição para entrar em guerra com o outro reino. Já do lado de Artena conhecemos a princesa Catarina (Bruna Marquezine), que se almeja se aproveitar da fragilidade de Montemor para fortalecer o seu lado da relação comercial, à contragosto do seu pai, rei Augusto (Marco Nanini).

Esse primeiro capítulo da novela claramente tem o intuito de oferecer uma visão mais geral, apresentando cada um dos personagens e seus respectivos reinos. Não há muita preocupação em se livrar da previsibilidade e, de fato, para um projeto tão ambicioso seria muito fácil errar a mão caso quisessem inserir um twist logo cedo. O grande problema está na lentidão do desenvolvimento – como já sabemos mais ou menos tudo o que irá acontecer nesse primeiro momento, não há muito, por parte do roteiro, que nos prenda à narrativa. Toda a jornada de Afonso, seu ferimento, já era esperado, especialmente considerando a personalidade de seu irmão e o clichê do mau-presságio ignorado. O único ponto que, de fato, soa inesperado (para quem não leu nada sobre a novela, claro) é o fato de ter sido encontrado pela camponesa de Artena, Amália (Marina Ruy Barbosa), algo que soa um tanto quanto forçado, mas que cumpre sua função dentro da narrativa, iniciando um óbvio romance entre os dois.

Mesmo nesse meio de eventos previsíveis alguns pontos merecem nossa atenção. A fuga de um discurso extremamente formal é muito bem-vindo – trazer um português mais arcaico às falas dos atores quebraria a naturalidade. Por se tratar de um mundo fantasioso não se faz necessário tamanho cuidado com o discurso, algo mais descontraído cai bem para esse universo, similarmente ao que vemos em Game of Thrones. Para nos habituar nesse universo, os próprios cenários e figurinos já dão mais do que conta do recado.

Aliás, todo o figurino da novela é de se encher os olhos, não devendo anda a produções internacionais. Claro que, alguns desses, poderiam demonstrar uma aparência mais surrada, gasta, passando a impressão de um universo vivido, mas nada que, de fato, quebre a nossa imersão enquanto assistimos. O que provoca essa ruptura, por outro lado, é a presença de batom nos lábios de Ruy Barbosa, algo que não condiz minimamente com sua personagem, de origem humilde. A atriz, felizmente, cumpre seu papel, embora não se destaque, mas isso é mais fruto do pouco tempo em tela da personagem nesse primeiro episódio.

Ainda no departamento da arte, os cenários externos certamente capturam bem a essência de cada reino. Montemor lembra mais o arquétipo clássico do castelo medieval, algo refletido nas armaduras e vestimentas dos personagens ali dentro. Já Artena, ao menos a morada do rei, traz certos paralelos com Versalhes, com seus grandes jardins, o que, de fato, condiz com a abundância de água no reino. Curiosamente, a desigualdade das moradias do governante e população somente é evidenciada no lado de Artena, como possível tentativa de vilanizar a figura de Catarina – mas saberemos mais sobre isso adiante, afinal, não foi definida uma verdadeira personagem antagônica ainda.

Esse cuidado com o visual externo, infelizmente, não se estende para os interiores, que mais dão a impressão de corte de gastos. Os cenários internos dos castelos dos dois reinos são extremamente similares, a tal ponto que causam certa confusão em trechos pontuais – bom exemplo disso são duas sequências que vemos, em uma, a rainha de Montemor e, na outra, a princesa de Artena, ambas próximas à janelas de formatos similares ou iguais (somente retornando à cena para ter certeza). Uma diferenciação mais contrastante seria bem-vinda, especialmente para evidenciar as diferenças entre essas duas nações. Mesmo com tal defeito, contudo, não podemos desconsiderar  a qualidade dessas construções, sejam as físicas ou digitais – tanto em tomadas internas, quanto externas a utilização do chroma key nos convence do início ao fim, tirando pontuais momentos (como o travelling externo ao castelo de Artena), nos quais o diretor foi mais infeliz em sua decupagem.

Aliás, é um grande alívio que a direção não tenha se apoiado incessantemente nos planos e contraplanos, excesso cometido na maior parte das produções da Globo. Claro que isso pode ser algo exclusivo a esse capítulo inaugural, mas já nos livra de revirar os olhos com closes pulando de personagem em personagem por praticamente uma hora. Esse aspecto, aliado à hábil montagem, que sabe intercalar entre os diferentes focos, sem causar grande fragmentação narrativa, permite que o capítulo flua de maneira mais orgânica, permitindo maior engajamento por parte do espectador.

Engajamento, esse, que acaba sendo golpeado repetidas vezes e quase estilhaçado quando chegamos perto do fim do episódio. Todo o cuidado da direção até então vai por água abaixo quando entramos na sequência de ação final, uma verdadeira tragédia que supera, e muito, a tristeza provocada pelos ferimentos sofridos por Afonso. Planos curtos, câmera tremida, foco pulando de personagem em personagem, tudo isso faz com que não entendamos absolutamente nada do que está acontecendo. Não temos a menor noção de espaço e de como os personagens se movimentam ali, o que é piorado, ainda mais, pela péssima coreografia, que já não é ajudada por um trabalho preguiçoso de mixagem e edição de som.

Mixagem que, por sinal, falha repetidas vezes ao longo da exibição, tornando a música muito mais alta do que deveria, dificultando o entendimento dos diálogos. Por si só a trilha mais do que merece nossa atenção, sendo composta por instrumentos que remetem à época retratada, mas nada que justifique tal quebra de naturalidade e supremacia sobre os efeitos sonoros e diálogos. É preciso notar, também, como algumas das melodias não refletem o momento dramático que se desenrola em tela, como se o músico responsável estivesse mais preocupado em criar uma melodia memorável do que, de fato, intensificar o que sentimos em cada sequência.

Trata-se, porém, de apenas o primeiro capítulo e tanto os altos, quanto os baixos estão sujeitos à grande mudanças conforme avançamos na novela. Mesmo com seus defeitos, Deus Salve o Rei abre espaço para o que pode provar ser uma fascinante história – resta torcer para que os deslizes cometidos aqui não voltem a aparecer futuramente e que a previsibilidade abra espaço para uma trama capaz de nos envolver a todo e qualquer momento.

Deus Salve o Rei – Capítulo 01 (idem – Brasil, 09 de janeiro de 2018)

Direção: Fabrício Mamberti
Roteiro: Sérgio Marques, Angélica Lopes, Dino Cantelli, Cláudia Gomes, Péricles Barros
Elenco: Marina Ruy Barbosa, Rômulo Estrela, Bruna Marquezine, Johnny Massaro, Ricardo Pereira, José Fidalgo, Tatá Werneck, Vinicius Calderoni, Marco Nanini, Caio Blat, Vinícius Redd, Fernanda Nobre, Débora Olivieri, Giulio Lopes, Marina Moschen, João Vithor Oliveira
Emissora: Globo
Duração: 50 min.

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