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E é oficial: Deus Salve o Rei finalmente abraçou seu status como mais uma das mil novelas de época da Rede Globo – o que é triste, considerando o gigantesco orçamento e todo o potencial desperdiçado que tinha tudo para ser explorado ao máximo e ter emergido como uma perspectiva completamente para a identidade narrativa endossada da emissora. Por outro lado, entretanto, esse retorno às raízes é até compreensível, considerando tanto o público, acostumado a produções do gênero, e a faixa-horária na qual a obra está inserida. Deve-se levar em conta todos esses aspectos para entender essa brusca mudança, mas também deve-se ter em mente que toda escolha vem com consequências.

Diferentemente de outras séries e shows televisivos que tenham como escopo geral uma ambiência medieval e fantasiosa, incluindo Game of Thrones, Outlander e Camelot, a soap opera em questão, como já dito em outros textos, finca-se em uma zona de conforto que funciona até certo nível, mas que não abre margem para novas ofensivas. Não é surpresa que os arcos narrativos mantenham-se em um nível mais pessoal e intimista e em pouquíssimos e esparsos momentos abrem as asas para abraçar uma mitologia que definitivamente deveria ser mais explorada pelo time criativo. Ao invés de uma história que permeie todos esses aspectos, os roteiristas mais uma vez escolhem seus protagonistas e os tratam como onipresentes e oniscientes, criando microcosmos individualistas e superficiais, tão caprichosos quanto a incrível direção de arte.

Não posso dizer que o capítulo não se inicia de forma interessante, porém: temos uma das poucas cenas de ação que realmente tem uma preocupação estética, até mais que a pequena batalha travada no piloto. Os eventos giram em torno da quase morte de Amália (Marina Ruy Barbosa), que participa de uma das clássicas cenas dos filmes de aventura em que um animal descontrolado a leva para a beira de um precipício e é resgatada momentos antes de encontrar seu fim pelos fortes braços de um cavaleiro. Essa saída aos moldes da donzela em perigo não é apenas utilizada em produções audiovisuais, mas serve como base para o primeiro encontro entre dois personagens que estão fadados a se apaixonarem e a encontrar inúmeros obstáculos ao longo dessa jornada.

Ao contrário dos convencionais clichês das tragicomédias românticas, que costumam funcionar na maior parte do tempo, a novela peca ao não utilizar esse momento específico antes do primeiro encontro entre os dois. Caso a ordem dos acontecimentos tivesse seguido outro caminho, talvez a aceitação e a construção de laços com o público encontrasse um endossamento mais forte e um tanto quanto menos monótono – mas infelizmente não foi exatamente o que aconteceu. De qualquer forma, é possível ver grandes referências a obras que também reverenciam essa parte mais aventuresca das narrativas de época, incluindo momentos muito conhecidos de Once Upon a Time e da comédia infanto-juvenil Uma Garota Encantada.

É engraçado analisar como Deus Salve o Rei tenta equilibrar as doses de comédia e de drama, mas ao final do dia inclina-se muito mais ou para o melodrama excessivo, principalmente no tocante aos arcos de Amália e Afonso (Rômulo Estrela), ou nas constantes quebras de expectativa que se refugiam na figura caricata do outro príncipe, Rodolfo (Johnny Massaro), o qual de modo mais que claro não tem a aptidão necessária para governar um Reino tão extenso quanto o de Montemor, nem para fazer jus à continuidade do governo de sua falecida avó, interpretada pela inesquecível Rosamaria Murtinho. Brincar com esses extremos e uma possível amálgama seria algo muito interessante para refutar os parâmetros maniqueístas das soap operas e permitir a insurgência de criações muito mais complexas – contudo, sempre se faz necessário retornar às raízes para manter a fidelidade de uma audiência que também não preza muito pela saída da bolha à qual está acostumada.

Mesmo com todos os deslizes, é sempre agradável termos o pequeno arco do flerte dentro de qualquer narrativa, principalmente quando ela traz em foco dois adolescentes tão carismáticos quanto Marina Moschen e Giovanni Di Lorenzo encarnando Selena e Ulisses. Ambos são personagens tímidos que se veem alheios ao mundo ao qual pertencem: Selena está fadada a permanecer como uma cozinheira, e encontra um refúgio com o jovem desengonçado Ulisse, que de modo gradativo sai da concha na qual se esconde. E essa subtrama também funciona como uma base interessante para questões acerca de orientação sexual que, ainda que sutis, já são mais perceptíveis, principalmente pelas conversas entre os austeros pais do garoto.

Deus Salve o Rei nos entrega mais do mesmo – e fica até complicado não cair na repetição de análises a essa altura. De qualquer forma, já não é possível ficar mais decepcionado: já se espera que essa linearidade superficial se mantenha pelo menos até metade da novela, infelizmente.

Deus Salve o Rei – Capítulo 10 (idem – Brasil, 19 de janeiro de 2018)

Direção: Fabrício Mamberti
Roteiro: Sérgio Marques, Angélica Lopes, Dino Cantelli, Cláudia Gomes, Péricles Barros
Elenco: Marina Ruy Barbosa, Rômulo Estrela, Bruna Marquezine, Johnny Massaro, Ricardo Pereira, José Fidalgo, Tatá Werneck, Vinicius Calderoni, Marco Nanini, Caio Blat, Vinícius Redd, Fernanda Nobre, Débora Olivieri, Giulio Lopes, Marina Moschen, João Vithor Oliveira
Emissora: Globo
Duração: 43 min.

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