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Na crítica do nono capítulo da nova novela das sete da Globo, Deus Salve o Rei, cometi certa injustiça com a obra. Disse que, no ritmo atual assumido pelos episódios, bastava assistir o início e final de cada um para que o espectador entenda tudo o que se passa na novela. Ao dizer isso, contudo, esqueci de levar em conta os capítulos de sábado, que, ao menos até aqui, provaram trazer um desenvolvimento consideravelmente maior que nos restantes. Não que nesse décimo primeiro o programa tenha alcançado a ideal velocidade – longe disso – mas, ao menos, trouxe um pouco mais do que estamos acostumados a ver nos outros dias da semana.

Bom exemplo disso é todo o arco de Montemor, que inclui Rodolfo e seus casos com mulheres casadas, os incidentes nas minas e a chegada do príncipe herdeiro. A demasiadamente prolongada subtrama do marido querendo justiça pela traição de sua esposa demonstra maior agilidade aqui, ao passo que Rodolfo arranja uma desculpa para mandá-lo preso, somente para que esse seja solto pouco após, em razão do Dia do Perdão. Toda essa veia cômica da novela continua soando desconexa do restante dos eventos, mas, ao menos, o que vimos aqui ajuda a pintar o retrato do governante que Rodolfo será, se seu irmão acabar abdicando do trono (e tudo parece caminhar para essa direção).

O irmão caçula claramente abusa de seu poder, adotando atitudes não muito diferentes de um tirano. Aliás, importante observar a óbvia mensagem passada através da cena de sua pintura – ele pede para que seja retratado como um deus, menção direta ao absolutismo monárquico, que pode acabar sendo o rumo a ser tomado durante o seu reinado. Claro que seus dois conselheiros almejam controlar o monarca, mas, considerando a impulsividade de Rodolfo, não é certo se isso será possível. O que preocupa, mais uma vez, são as doses de humor, tão deslocadas no meio de todo o contexto. Lembremos que estamos falando de um reino em crise e raramente enxergamos isso, de fato, na novela. Não há conflito, não há insatisfação popular, transmitindo uma grande artificialidade para toda essa construção.

Enquanto na subtrama falada sobre acima vemos uma progressão maior, não podemos dizer o mesmo do arco de Amália. Sim, ela, enfim, deixa Artena e descobre quem é Afonso na realidade, mas somente após considerável enrolação por parte do roteiro. O capítulo rapidamente cai na mesmice quando, repetidas vezes, o casal cai na mesma discussão, que sempre termina com Afonso dizendo que precisa levá-la a Montemor para que ela acredite em quem ele é de verdade. Bastaria uma sequência com uma conversa assim, para que, algumas cenas após, os víssemos chegando no reino vizinho. Ao invés disso, o que ganhamos é um trecho desnecessário dos dois conversando frente à fogueira, que apenas constata o que já sabíamos, como se os roteiristas meramente precisassem preencher o horário integral da novela – sim, algo que tenho repetido nas críticas, mas que, na realidade, é um problema recorrente de Deus Salve o Rei, que acaba prejudicando, visivelmente, seu ritmo.

Ao menos, quando chegam em Montemor, tal subtrama avança a mais largas passadas, com a já mencionada descoberta de Amália, a preocupação de Afonso em relação à situação de seu reino e, claro, sua decisão de casar com a mulher de Artena, algo que pega todos de surpresa. Talvez até mais importante que isso, nessa sequência de Afonso, Rodolfo e Cássio conversando na sala do trono, seja a fala do príncipe herdeiro “eu sou o rei”. Até então não escutamos o personagem transmitindo tal mensagem dessa forma – é a verdade, sim, mas a maneira enfática como ele diz claramente gerou certo desconforto em Rodolfo, o que pode levar a uma briga ou desavença menor entre os dois irmãos, especialmente agora que o caçula se acostumou um pouco com a ideia de governar. Vale lembrar que, não muito tempo atrás, ele questionou o porquê dele não ter um retrato de si – a inveja tem aparecido com cada vez mais constância, possivelmente profetizando esse conflito.

Já o arco de Catarina continua a chover no molhado, enquanto a personagem continua em sua briga discreta com Demétrio, que, por sua vez, tenta abrir os olhos do Marquês, em mais uma demonstração de como o humor não tem funcionado na novela. São momentos de vergonha alheia, que passam a imagem de um marquês estúpido da maneira mais artificial possível. A grande questão é que a personagem de Marquezine continua nesse mesmo dilema desde o início da novela, sendo negada o necessário desenvolvimento. Continuamos, pois, no mesmo ponto de sempre e sem qualquer esperança de progressão.

O décimo primeiro capítulo de Deus Salve o Rei, exibido no sábado (20/01), portanto, trouxe a tão almejada progressão em alguns arcos, mas falhou miseravelmente em outros. Mesmo que o ritmo tenha sido levemente mais acelerado, aqui, do que nos outros capítulos da semana, não podemos deixar de sentir como se a novela estivesse simplesmente chovendo no molhado, desperdiçando muito de seu potencial, enquanto a mesmice de sempre é exibida.

Deus Salve o Rei – Capítulo 11 (idem – Brasil, 20 de janeiro de 2018)

Direção: Fabrício Mamberti
Roteiro: Sérgio Marques, Angélica Lopes, Dino Cantelli, Cláudia Gomes, Péricles Barros
Elenco: Marina Ruy Barbosa, Rômulo Estrela, Bruna Marquezine, Johnny Massaro, Ricardo Pereira, José Fidalgo, Tatá Werneck, Vinicius Calderoni, Marco Nanini, Caio Blat, Vinícius Redd, Fernanda Nobre, Débora Olivieri, Giulio Lopes, Marina Moschen, João Vithor Oliveira
Emissora: Globo
Duração: 43 min.

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