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Um dos notáveis problemas que abalaram a nova novela das sete nessa sua semana de estreia foi a falta de desenvolvimento da trama geral. Evidente que foi demonstrada a preocupação em desenvolver cada um dos personagens separadamente, aprofundando suas relações uns com os outros, além de fazer com que o espectador se habitue com eles. No entanto, o cenário geral da novela pouco se alterou, o que não foi uma surpresa, para falar a verdade, visto que toda a obra tem previsão de durar por volta de cento e cinquenta capítulos. Com a exibição de um episódio que traz mais acontecimentos de destaque, que podem alterar o status quo dos reinos de Montemor e Artena, contudo, fica evidente o quanto poderia ter acontecido ao longo dessa semana de estreia.

Iniciando de onde fomos deixados no Capítulo 4, Deus Salve o Rei nos mostra Afonso descobrindo que todos o tem como morto, fator que, enfim, o motiva definitivamente a retornar para o seu reino. Amália, que permanece em casa, deve lidar com a desconfiança de seu pai em relação a esse misterioso “ferreiro”, ao mesmo tempo que Virgílio busca se vingar do homem que “roubou sua mulher”. Enquanto isso, Rodolfo é surpreendido pela ordem da rainha de Montemor de preparar o exército para a guerra – questão que se complica ainda mais quando ela ordena que eles marchem contra Artena, sem qualquer motivo aparente – como a tradição dita que o príncipe deve liderar as tropas, Rodolfo se vê em uma situação bastante desesperadora. Já em Artena, a situação, ironicamente, não é muito diferente, já que Catarina almeja um futuro mais bélico para seu reino, já que a amizade entre os dois reinos principais da novela foi firmada pelos pais e avós dos príncipes e princesas e não por eles próprios.

Com tudo isso ocorrendo simultaneamente, o capítulo mantém o espectador com a constante sensação de que tudo pode dar errado a qualquer momento. É criado um grande clima de instabilidade dentro da trama, questão que já vinha sendo pontuada pelos dramas da família real em Montemor. Essa ênfase mais dramática, aliás, transparece na quase ausência de cenas cômicas envolvendo Rodolfo, acompanhadas pela melodia descontraída fora de lugar. Ainda temos uma cena dessas, mas ela é consideravelmente mais curta e menos intrusiva que a dos capítulos anteriores, se encaixando melhor com a trama geral, com o alívio cômico não deixando de desenvolver a narrativa principal.

Claro que não poderia ser diferente, considerando que testemunhamos, aqui, a morte de uma importante personagem, a rainha Crisélia, que se joga da sacada, ponto que, convenientemente, resolve os problemas apresentados nesse mesmo episódio. Já era algo esperado, mas é deixada certa dúvida acerca desse fato ser inserido justamente aqui, especialmente quando, no capítulo anterior, tivemos uma cena praticamente idêntica – questão que apenas explicita a escolha de dilatar os eventos transcorridos nessa semana, adiando os pontos chave para esse episódio de sábado.

Naturalmente que a própria prolongada permanência de Afonso na casa de Amália já é mais que suficiente para denotar essa enrolação. Não que a construção da relação entre os dois não seja importante, mas nada que uma montagem mais ousada, acompanhada de um roteiro mais ágil, não dariam conta. De fato, se olharmos para trás, poucos foram os diálogos, de fato, profundos entre os dois – todo o desenvolvimento desse relacionamento ocorreu através de trocas de olhares e afins, o que não pedia que quatro capítulos inteiros fossem gastos para tal. Aqui devo evidenciar o momento mais desnecessário desse quinto capítulo: a repetição, pela terceira vez, da cena do beijo, algo que já vimos nos dois episódios anteriores, medida que mais parece ter sido utilizada para garantir o tempo integral de exibição – o pior de tudo é que a mesma música, que quebra totalmente a diegese, retorna nas três ocorrências da cena, quase nos fazendo torcer para que esse relacionamento não dê certo.

Esse fator, no entanto, empalidece perto da desconfortável interpretação de Bruna Marquezine como Catarina. Ainda que a atriz tenha se saído bem em pontuais momentos dessa semana, o que vimos nesse episódio de sábado só nos faz arquear as sobrancelhas. Seu discurso é completamente robótico, como se lesse o texto colocado à sua frente e as expressões exageram no drama, tirando qualquer naturalidade da cena – uma verdadeira pena, considerando a importância dos eventos transcorridos nesse capítulo. Sua linguagem extremamente formal ainda contrasta nitidamente com as falas do Duque, que tem um jeito mais “malandro” – antítese intencional, claro, mas que requer mais naturalidade por parte de Marquezine.

Claro, não poderia deixar de comentar o duelo de espadas entre Afonso e Virgílio, que não ousou muito na coreografia, mas que, na direção, experimentou diferentes enquadramentos que, no fim, acabaram não funcionando. Tratando-se de cenas de ação nos dias atuais, o mais comum é encontrarmos uma câmera tremida e planos curtos. Ainda que isso esteja presente (de forma mais controlada, felizmente) na sequência em questão, o que prejudica nossa imersão são os planos zenitais, que nos distanciam mais do que deveriam da luta, quebrando nosso envolvimento, fazendo tudo parecer como um videogame. Não bastasse isso, a sensação de urgência já é prejudicada pela nossa completa noção de que ninguém ali, de fato, irá morrer. No fim, temos um duelo vazio de emoção, mas que cumpre sua função para desenvolver a trama.

Por fim, mas não menos importante, temos a apresentação de uma senhora ligada ao misticismo, o que pode significar que veremos aspectos mais fantásticos dentro da série, como magia e afins. Trata-se de algo muito pontual, mas que pode alterar completamente a maneira como enxergamos a história. O que soa um tanto forçado é o encontro de Afonso com essa personagem, parecendo mais como um artifício do roteiro do que qualquer outra coisa.

Não podemos, porém, deixar de permanecer com certa percepção positiva do capítulo como um todo, mesmo com os problemas levantados acima. Foi apresentado, aqui, o desenvolvimento que faltou aos outros episódios dessa semana, evidenciando que Deus Salve o Rei seria uma obra consideravelmente melhor se ousasse assumir um ritmo mais acelerado, o que, claro, não a tornaria perfeita, mas ajudaria bastante.

Deus Salve o Rei – Capítulo 05 (idem – Brasil, 13 de janeiro de 2018)

Direção: Fabrício Mamberti
Roteiro: Sérgio Marques, Angélica Lopes, Dino Cantelli, Cláudia Gomes, Péricles Barros
Elenco: Marina Ruy Barbosa, Rômulo Estrela, Bruna Marquezine, Johnny Massaro, Ricardo Pereira, José Fidalgo, Tatá Werneck, Vinicius Calderoni, Marco Nanini, Caio Blat, Vinícius Redd, Fernanda Nobre, Débora Olivieri, Giulio Lopes, Marina Moschen, João Vithor Oliveira
Emissora: Globo
Duração: 43 min.

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