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A franquia Diário de um Banana talvez seja uma das mais indecifráveis da história do cinema hollywoodiana – mas não, não estou falando de um plot complexo ou de personagens bem construídos, e sim da necessidade dos produtores executivos em continuar o legado do protagonista Greg Heffley para iterações e mais iterações. Na quarta “odisseia” de um garoto constantemente bombardeado pelos obstáculos da infância – incluindo uma família desequilibrada e uma sequência de reviravoltas impossíveis -, o diretor David Bowers, por incrível que pareça, nos entrega um produto essencialmente infantil e que, apesar do desnecessário excesso escatológico, consegue arrancar algumas risadas.

O filme é baseado na série de livros assinado por Jeff Kinney, e está passando por seu primeiro reboot. A decisão dos estúdios 20th Century Fox em trocar o elenco completo vem em boa hora, considerando que os personagens principais estão presos em um microcosmos e precisam manter as mesmas características físicas e psicológicas através dos inúmeros romances. Jason Drucker encarna Greg e consegue entregar, ainda com sua inexperiência cinematográfica, uma perspectiva própria do universo pueril – a pseudo-maturidade da transição para a adolescência, a qual cega a criança perante à realidade em que vive e à sua idade, colocando-o num patamar de pura crença adulta e negação de sua posição. Apesar da coerência em relação ao público-alvo, esse fator restringe-se à superficialidade e não precisa de aprofundamento. Afinal, este não é o ponto da obra.

Ele, sendo o herói da narrativa e um símbolo de perseverança, tem o objetivo claro de conseguir viajar até a convenção de videogames, tirar uma foto com seu ídolo youtuber e conseguir livrar sua reputação de “mão de fralda”, a qual viralizou através da internet, deixando-o conhecido por motivos embaraçosos. Já conseguimos perceber mais uma conexão feita por Bowers e pelo co-roteirista Adam Sztykiel, os quais conseguem estabelecer um paralelismo cronológico entre a obra de Kinney e a contemporaneidade, adicionando elementos da cultura do agora (como “memes”, o exponencial crescimento das redes sociais e a efemeridade da internet) e ainda mantendo uma relação sólida com sua audiência: as crianças, que já nascem inseridas em um mundo materialista e tecnológico.

Como este é um filme voltado para uma parcela específica, não espere que tudo siga uma lógica pura. Há elementos do fantástico disfarçados pelas saídas formulaicas do acaso – e a primeira delas é a estranha coincidência entre o desejo de Greg e o fato da família estar saindo em uma viagem que tem como parada momentânea a mesma cidade da convenção. A trama principal é uma grande road trip; desse modo, seguindo os padrões do gênero, temos a comédia escrachada como o principal ingrediente para a sucessão de eventos, a resolução de arcos e o crescimento dos personagens. À medida em que Greg narra a partir de sua visão o que aconteceu, somos apresentados às particularidades de sua família, dentro da qual cada integrante emerge na forma de um estereótipo diferente.

O choque entre idades, por exemplo, vem entre o personagem principal e seu irmão Rodrick (aqui interpretado por Charlie Wright). Um se encontra na fase de transição, enquanto outro mergulha de cabeça em seu momento rebelde e de constante desaprovação por parte dos pais. O principal problema é a falta de química entre os atores. Wright permanece em nuances exageradas, enquanto Drucker tenta manter a sanidade de cada uma das sequências montadas. É claro que, no fundo, os dois se amam: mas isso pode ser premeditado ao extremo, e os diálogos de superação, perdão e até mesmo vingança são extremamente previsíveis, até mesmo para as crianças – transformando Diário de um Banana em um desperdício em live-action e que repete o mesmo erro de outras narrativas semelhantes.

Talvez Alicia Silverstone seja a que encontra seu melhor lugar dentro do universo do filme. Encarnando a mãe Susan, ela consegue parecer o mais transtornada possível, utilizando-se de trejeitos pessoais como suas múltiplas expressões exageradas para colocar em tela a personificação de uma mãe superprotetora que constantemente tenta manter sua família unida. Mais uma vez, o ínfimo brilho é ofuscado pela falta de química com seu principal parceiro de cena, Tom Everett Scott (interpretando o patriarca Frank) que traz qualquer coisa, exceto uma boa performance. É claro que o casal funciona como paródia para os inúmeros pais que são vistos como vilões na perspectiva dos filhos e, apesar de algumas risadas espontâneas, eles simplesmente não funcionam.

A nova continuação dessa franquia é, como supracitado, estritamente infantil. Logo, não espere profundidade em seus temas principais, mas sim algo que permita às crianças uma perspectiva própria de seu mundo. O grande problema é estrutural e finca-se ao roteiro: cada virada é, por falta de outro adjetivo, estúpida, e se vale muito de elementos crus e escatológicos para fornecer o mínimo de movimento a uma viagem tão monótona quanto um passeio à igreja.

Mais uma vez, a previsibilidade de resoluções fala mais alto. Os problemas se resolvem; os personagens encontram uma maturidade emocional suficientemente convincente para reestruturar o equilíbrio familiar; todos encontram um final feliz. Nada de novo no front. Mas posso garantir uma coisa: o clã Heffley não teve sua última história contada – e podem ter certeza de que a longa lista de obras de seu criador original ainda vai ter adaptações únicas para o cinema. Infelizmente.

Diário de um Banana 4: Caindo na Estrada (Diary of a Wimpy Kid: The Long Haul, EUA – 2017)

Direção: David Bowers
Roteiro: David Bowers e Adam Sztykiel, baseado na obra de Jeff Kinney
Elenco: Jason Drucker, Alicia Silverstone, Tom Everett Scott, Charlie Wright, Owen Azstalos
Gênero: Comédia, Infantil
Duração: 91 min.

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