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Indo para Cabo Verde de avião, o protagonista Djon (Miguel Moreira) conversa com a passageira ao lado dele, que pergunta de sua origem. Ao saber que ele, mesmo sendo negro e com pai cabo-verdiano, é nascido em Portugal, em um primeiro momento, a mulher não tem dúvidas de que ele é absolutamente estrangeiro. Ele, num gesto de afeto e malandragem, pede que ela o reconheça pelo toque, alisando seu braço, vendo a maciez característica de sua pele. Afinal, Djon África é um filme de texturas, miscelânea de encenação naturalista e documentário rigoroso de uma incursão por terras estranhamente familiares.

O novo filme de Filipa Reis e João Miller Guerra trabalha com uma certa tendência cinematográfica de embaralhar as cartas do documental e da ficção (a começar pelo próprio trabalho do ator Miguel Moreira, que já figurou em documentários da dupla), menos para encontrar um meio de revelar o próprio fazer cinema – basta lembrar do português Miguel Gomes, que está na lista de agradecimentos de Djon África – e mais para estabelecer um pacto distinto de verossimilhança. Aqui, vale saber captar o que há de mais gracioso nas relações cotidianas através da direção de não-atores, de um apego excessivo à naturalidade do texto e às caricaturas do dia a dia.

Os primeiros vinte minutos, no entanto, em que somos introduzidos a Djon ainda em Portugal, decidindo ir atrás do seu pai em Cabo Verde, e aos personagens que o rodeiam (destaque para a avó, Isabel Muñoz Cardoso, que sabe encarnar como ninguém o mistério das raízes africanas), funcionam como um prólogo da verdadeira história a ser contada. Tal como Arábia partia de personagens secundários para entrar na sua narrativa maior, aqui ficamos sabendo do imensurável peso da fisionomia de Djon, muito parecido com o jeito do pai que nunca conheceu.

Só quando o personagem principal decide viajar para Cabo Verde em sua jornada, em uma cena regada a fantasias que parodiam turismo e exotismo, surgem os créditos iniciais para demarcar o início dessa trajetória. A partir de então, Djon, que também era conhecido como Miguel em Portugal, segue para diferentes distritos de Cabo Verde em busca de familiares que possam traçar as pegadas de seu pai.

O personagem passa então a encarnar duas perspectivas de estrangeiro: tanto a que representa sua condição, de um ser desgarrado que busca suas origens, quanto a de turista. Isto é, se por um lado algumas situações demonstram uma certa dificuldade na apreensão daquela nova realidade, outras situações mostram como as fronteiras entre essas condições podem se dissolver. Ao mesmo tempo que Djon é passa a noite com garotas que conheceu numa viagem de van, na manhã seguinte à farra, acorda sem dinheiro e sem mulheres.

O filme segue nessa chave, em que Djon se integra cada vez mais àquela realidade, não só do ponto de vista humano, mas também da paisagem. A mise en scène precisa opta por planos estáticos que consigam abranger tanto a paisagem rica, ora de cores quentes (o campo, as vilas), ora frias (o ambiente nublado do mar) em relação à miudeza da personagem.

A trilha e os efeitos sonoros contribuem para uma visão panteísta daquela jornada. Um ponto da jornada pode ser regado a música eletrônica misturada a ritmos tropicais, enquanto outra retoma a essência dos sons ambientes e da música como signo da temporalidade. Vide a belíssima cena em que Djon, atuando como uma espécie de cuidador/neto postiço de uma velha que conhece numa viagem de barco, moe milho num pilão. A cada socada, a velha comenta seu desempenho. A câmera que até então se centrava nos dois personagens se afasta e começa mostrar mais da paisagem campestre e o som do milho sendo quebrado ritmicamente se transforma no metrônomo daquele mundo, de um tempo outro.

Infelizmente, a expectativa que esses últimos momentos criam – uma passagem de entrega total a uma missão diferente do pressuposto original de procurar pelo Pai – desembocam em uma rápida e explosiva conclusão que não combina com o rigor do filme até então. Cansado de atravessar a natureza, Djon recebe um chamado de Portugal que faz a personagem ter uma abrupta sacada de autodescobrimento – até a câmera se desestabiliza nesse momento. A proposta política integrada ao drama naturalista rompe com a imprevisibilidade daquela travessia até então. Felizmente, Djon África permanece uma viagem hipnotizante enquanto dura.

Djon África (idem – Brasil, Cabo Verde, Portugal – 2018)

Direção: Filipa Reis e João Miller Guerra
Roteiro: João Miller Guerra e Pedro Pinho
Elenco: Miguel Moreira, Isabel Muñoz Cardoso, Patricia Soso, Bitori Nha Bibinha
Gênero: Drama
Duração: 96 min